Peripécias da Pi

O dia havia amanhecido lindo e azul, depois de uma noite de chuva. Acordei às 7h, como em todas as quartas-feiras, e pensei em fazer uma horinha na cama, com preguiça de ir caminhar. Mas os gatos, como sempre, não me permitiram.

Fora do quarto, estava fresco e deixei os gatos saírem pra passear, enquanto eu trocava águas e enchia as vasilhas de comida.

Cristo aproveitou que baixei a guarda e subiu na jaboticabeira. Foi-se lá pra cima, inalcansável. E, claro, me apavorei. Se ele descesse para o telhado, havia o perigo de uma porção de cercas elétricas que, possivelmente, ainda estariam ligadas. Se continuasse pela árvore, havia risco de queda, pura e simples.

Aguardei para ver se ele descia sozinho, sem acidentes, mas ele preferiu o telhado, mesmo. E lá chegando, começou a miar. Um miado sofrido… Quanto mais ele miava, mais eu me decidia a pegar a escada e subir. Só que eu estava sozinha. Meu pai ainda demoraria uns 30 minutos pra chegar - muito tarde – e minha avó não me deixaria subir, muito menos me ajudaria. Fui.

Armei a escada, aproximei do telhado, testei, subi. Ele correu pra longe de mim. Desci. Pensei. Levei a escada para um outro ponto do telhado. Testei. Rearrumei e retestei. Subi. E a escada escorregou e caiu.

Minha vida não passou diante dos meus olhos, mas as possibilidades, sim. Se eu caísse pra frente, com a escada, eu poderia bater com a cara no chão e/ou quebrar os braços. Pra trás… A pilastra estava longe, não estava alto, achei melhor. Me projetei pra trás. Mas minha perna esquerda resolveu se enganchar entre os degraus. Ainda tentei puxá-la (tenho um bruto hematoma para provar), mas o pé ficou.

Bati no chão em silêncio, com suavidade e algumas fraturas na perna.

Minha avó apareceu xingando: “vai acordar os vizinhos!” Meu pai apareceu na janela - ele mora exatamente do lado – xingando: “quê que você tá aprontando” emendando com “eu te falei pra não mexer nessa escada!!!”. Enfim, família, eu quebrei a perna. Chamem alguém pra me ajudar.

Depois de meia hora caída no chão, imóvel, com milhares de formiguinhas andando sobre mim, a ajuda apareceu. Três mocinhos me imobilizaram na maca e me levaram para o Life Center. Fiz respiração cachorrinho enquanto eles colocavam a tala. Fiquei pensando: parto não pode doer mais do que isso.

Cheguei ao hospital imaginando que estava tudo resolvido. Seria assim: uma radiografia, constatava-se a fratura, punha-se o osso no lugar, enfaixava-se, engessava-se. Injeções, sessão de bronca do doutor e alta. Ainda chegaria em casa a tempo de descansar e trabalhar na parte da tarde.

Na real, foi assim: espera. “Onde dói?”. Radiografia. “Menina, você fez estrago, hein?”. Espera. “Vai ter que operar. Se der, ainda hoje.” Espera. Xixi na comadre. Espera. Moça veio tirar sangue e quase leva o braço. Espera. Moço veio colocar o catéter. Remédio pra dor – que não fez nem cosquinha. Espera no corredor. Peço água. Médico, já meu íntimo, me chamando de Pat, diz que eu não posso, porque vou ser operada no começo da tarde. “Mas são 10:30!!!” Bebo água escondido. Espera. Desço para a enfermaria, enquanto não vaga um quarto. Vem meu pai, vai minha tia. Dona Nadir, possivelmente com Alzheimer, dá um show na enfermaria. “Deus, vem me buscar. Nenhum velho deveria sofrer assim.” Metade era manha, mas ela tinha pedra nos rins. Não estava fácil para ela, também. Aliás, para ninguém ali.

A dor individual parece menor diante da dor coletiva, mas, ainda assim, precisei de Tilex. E de morfina. E nada foi de muita ajuda. Meu pai se foi, minha tia voltou e conseguimos um quarto. Sobe pro quarto. Espera.

Eram 20:30 quando chegou o enfermeiro para me ajudar a me despir para a cirurgia. “Está de jejum?” Oi? Desde às 19h do dia anterior!!!

O bloco cirúrgico estava lotado! Não havia espaço para manobrar macas. Mas, ali, a espera foi curta. Fui logo pra sala, o anestesista já veio logo se apresentando e me dando drogas das boas!! Apaguei. Acordei com o médico falando dos meus hematomas e me mostrando as fotos da cirurgia.

antes depoisTrês fraturas no tornozelo e uma no pilão da tíbia e tenho minha própria Torre Eiffel!!

À 1:30 desci pro quarto. Não dava mais para comer. Dormir foi tarefa inglória, mas sobrevivi. Recebi alta na tarde de quinta e estou em ritmo de axé (tira o pé do chão!!) desde então.

Passei por 11 enfermeiros – o moço do catéter, Jordano, Jackson, Patricia e Úrsula estão no meu coração. Contei minha história para cada um. Já via o momento da peregrinação para ver a moça que se estropiou buscando Cristo. O anestesista foi uma pessoa maravilhosa e não passei nada de mal com a anestesia. O ortopedista, bonitão, é também competente, simpático e debochado. Deu tudo certo.

Meu pai cuida dos gatos. Minha avó cuida dos cuidados. Minha tia cuida das compras e transporte. Cristo voltou e cuida de me dar carinho todo dia. Tudo certo, aqui também.

Hoje, tive retorno médico – e consegui as fotos que ilustram este post – e conheci mais uma vítima das escadas de armar de alumínio! O cara quebrou o calcanhar! Pela cara do doutor, ele está pior do que eu.

Aprendi coisas nesta aventura!

• A não me precipitar mais. Que chamar os Bombeiros para resgatar o gato em vez de me arriscar a ter que chamar o Samu para me socorrer é o mais sensato.

• Que família é uma formação de elementos difíceis, mas esse amor que (n)os une ajuda a remendar ossos.

Reafirmei coisas:

• Gatos são excelentes companheiros, são solidários e amigos!! Não são cães e não têm que ser comparados a cães.

• Amigos não têm que ser testados nem amizades são medidas em momentos difíceis. Alguns são mais participativos, outros são contemplativos, há os escondidos, que esperam o pior passar para dar um “oi”. Há, até, os totalmente desinformados, que nem sabem o que está – e se está – acontecendo. Todos são ótimos! Todos são bem-vindos!

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E, pra fechar, um conselho de amiga: tenha um bom plano de saúde em dia. Se eu tivesse que pagar por todo o atendimento que tive, que foi o melhor possível, eu teria que vender um rim. Planos de saúde são caros e parece desperdício de dinheiro, mas nunca se sabe… Até às 7h de quarta passada, eu fazia planos de caminhar na Silva Lobo e, depois, entrar em alguma academia, para me matricular na musculação. Jamais esperava terminar – muito menos, começar! – meu dia num hospital…

 

Ele

Ele não era bonito nem precisava sê-lo. Era másculo, mas de uma maneira não muito boa, quase machista. Olhava como se estivesse avaliando, julgando, mas tudo nele me deixava exitadíssima.

Já estávamos naquele chove-não-molha fazia horas. Ele me olhava o tempo todo e, quando eu o encarava, ele virava o rosto. Para mim, convencida que sou, estava claro que ele me queria, como também estava claro que ele não queria me querer. Alguns homens insistem em dizer que eu os assusto, mas não sabia se era o caso.

Depois de umas cerveja e um pouco de whisky, ele relaxou e começaram-se as provocações. Ora parecíamos duas crianças, ora gato e rato num joguinho de pegar. Mais um pouco e ele já chupava sensualmente meus dedos melados de algodão doce. E eu comecei a iniciar todas as minhas frases apalpando a cocha dele. E como iniciei frases. Mesmo assim, nada.

Talvez não fosse hora nem lugar – lê-se: turma grande -, então, o melhor seria mudar de lugar, porque eu não aguentaria esperar por mais outra hora.

Falei baixinho, só para ele ouvir – mão na cocha, claro:

– Esfriou… Você iria ao carro comigo? Quero pegar minha blusa.

– Quer que eu te esquente?

– É bem essa a ideia – sorri docemente e me levantei.

Avisei à turma:

– Ele vai me esquentar… Digo, escoltar até o carro. Vou buscar minha blusa.

E o puxei mais que depressa, antes que alguém se desse conta de que estávamos saindo juntos.

Ao afastarmo-nos, ele disse:

– Você não está mesmo com frio…

– E você é inteligente…

Puxei-o para bem perto de mim, enlacei seu pescoço e o beijei. Beijo bom, bem dentro das expectativas, que eram altas. Outros tantos se seguiram e, quando imaginei que avançaríamos, mesmo estando encostados num muro, na rua, retrocedemos.

– Eu não sou um cara legal… – ele disse.

– Eu só quero uma foda, não um pai para os meus filhos – erroneamente respondi.

E ele me largou ali. Saiu ultrajado, ferido em seu orgulho. Nunca mais falou comigo. Acho que realmente assusto os homens…

Isso é uma estorinha. Assim como todos os posts da categoria “estorinhas”, é levemente baseada em fatos reais, mas nunca é uma indireta ou totalmente real. Não insista.

Perdão, mas eu não perdoo

Há uma certa super-valorização do perdão. Perdoar é divino, elevado, espiritual e intelectualmente: só o sábio perdoa. Discordo. Eu prefiro esquecer, deixar pra lá, sacudir a poeira e dar a volta por cima – isso, para delitos leves. Os pesados têm troco – a oficializar o perdão.

Pedir perdão, principalmente tardiamente, funciona para o ego do babaca que lhe ferrou e ficou sentindo uma reles culpinha. Ou, o mais provável, teve um orgulho danado do estrago causado é quer reviver, reatuar a farsa. Além de querer ter certeza do tamanho do trauma e de que não foi esquecido. São vaidosos, os sacanas.

Eu posso até dizer que perdoo para acabar logo com isso, mas não é sincero. Não vou guardar nova raiva em mim, mas vou excluir novamente a pessoa da minha vida e continuar seguindo.

Se a pessoa insistir em ficar, bom, eu vou magoá-la. Eu vou ferrar com ela, eu vou destruí-la. Vou fazê-la se arrepender de ter me procurado. Ou vou ignorá-la e continuar seguindo.

Pessoa, fez merda? Da grande? Peça desculpas ou remedie imediatamente. Se não der, deixe a vítima em paz e SE perdoe. Não vá foder a vida de alguém duas vezes com a mesma história. Seu pedido de perdão não é uma “homenagem” ou um ato de amor com o outro, é puro egocentrismo e cretinice. Vá por mim.

Mundo enfeiado

Sou direta, simples, honesta. Não sou ciumenta, respeito liberdades e individualidades. Não me envolvo com homem comprometido – mesmo sendo tentador, às vezes. Raramente me ofendo, procuro não ofender. Não curto polêmicas nem discuto política, futebol ou religião – e acho que peco nisso, mas é seguro assim. Gosto de música, não de qualquer música, mas posso muito bem me divertir num show de arrocha. Juro. Não bebo, mas posso beber, desde com muita moderação. Não fumo, aliás, tenho alergia braba a cigarro, mas não me incomodo (muito) ou incomodo os fumantes da área. Nunca experimentei nenhuma droga, mas não julgo quem curte. Sou vegetariana, mas não faço discursos nem tento convencer ninguém de nada. De nada mesmo. Minhas verdades me pertencem e sou feliz com elas. Sim, tenho sido feliz. E, por isso, quase não tenho reclamado.

Tenho defeitos, também. Ontem, descobri que meus piores estão na primeira frase deste post: sou direta, simples, honesta. Ninguém quer isso, ninguém gosta disso. Ser direta, então, que coisa mais assustadora. O negócio é fazer rodeios, é enrolar. Honestidade?! Que loucura é essa?! Minta! Egos agradecem o carinho! Ser simples é menos pecaminoso, mas como não existem mulheres simples, há algo de muito errado comigo.

Um exemplo de como as coisas são complexas, hoje em dia, é que eu sempre fui atrás de quem eu queria, desde que eu tinha 13 anos. Não pode mais! Bata cabelo e jogue charme até que o rapaz lhe note em meio a milhares de mulheres e pense se quer fazer alguma coisa a respeito. Iniciar uma conversa ou chamar um cara para ir ao teatro é quase um crime, em BH. Mesmo. E enquanto eu acho que tudo poderia muito bem ser assim:

_ Ei! Gosto de você. Fica comigo?
_ Hmmm… Não quero…
_ Alguma chance de você mudar de ideia?
_ Não.
_ Ok, então.

As coisas são cada vez mais assim:

_ Ei! Gosto de você. Fica comigo?
_ O quê?! Sua oferecida!! Sabe quantos sinais você avançou nessa proposta indecente?! O que você quer de mim?! Quem você pensa que eu sou?!
_ Oi?! Mas, enfim, você quer ou não ficar comigo?
_ Quero, mas não vou, porque você me insulta com sua insistência.

Isso me dá preguiça, mas procuro não esquentar a cabeça. Quem me quiser vai ter que querer como sou e sou assim. Nem disfarço. Se ninguém me quiser, ok, eu me quero, sem tirar nem por. E me basto.

Charlie Hebdo

Geralmente, me abstenho de dar palpites em assuntos ultra polêmicos, porque não vale a pena. Mas… Charlie Hebdo, mesmo tendo sido um reles desconhecido para mim, até o atentado, me é caro. Amo cartoons, amo charges, amo cartunistas. Acredito na provocação do humor e condeno veementemente sensibilidades exacerbadas, de quem quer se impor sobre os outros.

Discordo do Papa: não há limites para a liberdade de expressão. Há, talvez, punições legais, mas limite e liberdade se opõem. E, ademais, quem imporá os limites? Baseado em quê? Muitas vezes, a ofensa só existe para o ofendido, que opta por se ofender, que busca se ofender.

Se alguém falar mal da minha mãe, ou de alguém que eu realmente amo, eu tenho inúmeras opções: deixar falando sozinho, “ouvir e ponderar”, “ouvir e concordar”, “ouvir e me ofender”, mas, dificilmente, “ouvir e socar” é uma delas. A agressão física, para mim, é sintoma de que se acabaram os argumentos, mas sobrou bastante raiva. Não permito que me façam tamanha raiva.

Retratar o Profeta do outro, mesmo sendo proibido na religião do outro, não é somente liberdade de expressão, mas direito e livre arbítrio. O seu pecado não me representa. Que seu deus, todo poderoso, me puna, se achou ruim, se for tão mundano a ponto de se ocupar com um desenho, enquanto o mundo está – e sempre esteve – em caos. Mas cometer um pecado mais grave e que também é pecado na sua fé, só para tomar as vezes do seu deus e me “mostrar as consequências dos meus atos” é absurdo.

Dizer “ah, eles fizeram por merecer”, “a provocação do Chalie Hebdo foi desnecessária” ou “depois de tudo o que aconteceu, nem assim eles aprenderam a lição” é dar razão aos assassinos, é confirmar que eles tiveram motivos. E não tiveram. Não provocar, se encolher em posição fetal e deixar de se ser o que se é por medo é, também, dar moral ao vilão. A vítima não é o Islã. Mas Charlie Hebdo, mesmo podendo, não se fez de vítima.

“Je suis Charlie” não lhe representa porque Charlie Hebdo não lhe representa? Ok. Esse é um jornal, não o Congresso Nacional. Eles não têm obrigação de representar ninguém além deles mesmos! Você não acha graça, não gosta, acha imoral e ofensivo? Ok, também. É de seu pleno direito, assim como o de não ler ou comprar o Charlie. Você pode até mesmo ficar num mimimi sem fim nas redes sociais, expondo exaustivamente sua opinião, porque, veja bem, isso é liberdade de expressão e ela funciona até com coisas/pessoas/situações chatas e que incomodam! Lindo isso, né?!

Amigo culto

Minha turma da oitava série é minha atual turma de sair e falar bobagens. No começo do ano, resolveu-se fazer um tal de “amigo culto”, onde se trocam presentes não materiais. Minha “amiga culta” ganhou uma estorinha. Ei-la.

Opostos

Ele é Armando. Eu sou Zaíra,

Ele havia levado um fora e amargava uma tremenda dor de cotovelo. Eu havia levado um fora e comemorava a liberdade recém-adquirida.

Ele chorava por ela. Eu curtia a vida. Ele sofria. Eu sorria.

E assim estávamos quando nos conhecemos: eu, me esbaldando no abre alas. Ele, tentando consertar o último carro alegórico, empacado na avenida. A Escola do coração não ficou com o título, mas me arrisco a afirmar que este foi o carnaval das nossas vidas.

Armando chegou ao final da Sapucaí aos prantos, exausto, derrotado. O contraste com minha alegria de “sonho realizado” era enorme e, talvez por isso, eu gostei dele.

A autoindulgência de Armando era irritante. Nenhum homem é tão coitado assim. Bem… Ele parecia ser. Mas, de alguma forma, essa existência meio trágica, meio patética dava um toquezinho de graça a ele, tinha seu charme.

Ou… Era carnaval e pierrôs, colombinas e arlequins apaixonados tinham tudo a ver com o cenário. Enfim, o importante é que eu o beijei como havia muito tempo eu não beijava alguém. Beijei com vontade, sugando todo aquele veneno que corroía o coração de Armando. E, quando finalmente nos afastamos, ele era outro! Eu, também.

Armando já não tinha ares de pierrô abandonado. Havia um novo brilho em seus olhos. Pude ver, então, que era um homem bonito. Não bonito demais, mas na medida. Já eu sentia uma doce melancolia dentro do peito. Uma saudade do futuro, daquilo que nós não viveríamos, porque, em breve, a vida voltaria ao normal e eu, à Minas.

Foram dias intensos. Armando descobriu que “amor” e “dor” é rima pobre. Eu descobri que nem tudo é “tanto faz”. Nossa história durou uma eternidade… Ou quatro dias. Mudou as trajetórias das nossas vidas e nos ensinou a sermos mais leves, mais inteiros, mais vivos.

Voltei para Minas. Armando ficou no Rio. Não trocamos contatos. Não me arrependo. Foi lindo, será inesquecível.

E é assim que estamos: ele ainda é Armando, eu ainda sou Zaíra – versões aprimoradas.

Em um relacionamento sério

E lá se vai Arnaldo, em desabalada carreira. Não é mais tão moço, deveria poupar-se para as coisas boas, usar tamanho vigor em atividades que dão prazer. No entanto, ele foge. Fico olhando.

O que Arnaldo não sabe é que o mundo é grande, mas nossos caminhos hão de se cruzar. É inevitável. Também não sabe, ou não acredita, que não há o que temer. Não, de mim.

Eu e Arnaldo nos encontramos enquanto eu saía da escura e sufocante masmorra do relacionamento sério. Eu estava cansada, porém, eufórica, tentando me desvencilhar dos últimos grilhões. Devo tê-lo assustado com minha empolgação. Ou com as correntes. Justo. Mas se ele acreditou que eu gostava da prisão e que o levaria para lá, é louco! Eu estava feliz por sair, não por ter estado dentro!

Não era de todo ruim, na masmorra. Eu via a luz do sol, sentia o vento no rosto, ouvia os passarinhos, mas era sob outra perspectiva. Liberdade abrilhanta e adoça a vida. Então, por que eu, logo eu, a quereria tirar de alguém?!

Arnaldo… Uma legítima força da natureza. Abrandada pelo passar dos anos, mas, ainda assim, intensa. No momento em que o vi, ele era a luz do sol, que não se aprisiona, não se possui, somente se aprecia. E assim o fiz! Talvez com muita vontade? Não sei. Mas sei que, logo, ele pôs-se a correr.

Desolada, gritei: “Ah, Arnaldo, não me temas! Eu não tiraria de ti o que mais me encanta. Quero que o mundo veja, aprecie e experimente meu encantamento. Meus sentimentos são por ti, mas são todos meus. Não têm peso, cor, volume, não têm cheiro ou sabor, não te fazem sombra. Portanto, não te preocupes com o que não vês ou sentes e, portanto, para ti não existe.”

Mas era tarde. Ele já ia, ao longe… Ainda hoje, meses depois, pode-se vê-lo a correr e correr.

E pode-se me ver no aguardo, incansável, ansiosa e com todas as portas abertas, desejando que o querer de Arnaldo cruze o meu.

Os ventos da mudança

Oxe, se tivesse ao menos uma brisinha marítima.. Ninguém mandou eu voltar para BH, com tanto litoral neste país! Mas é o que temos.

Ainda estou sem teto. Pirracinha (?) do inquilino, que sumiu sem entregar as chaves do apartamento. Assim, resolvi passar uma temporada na casa de vó, porque Itaúna não me suportava mais e era muito recíproco.

Ex-marido me trouxe com algumas malas e cuias, não tudo, e alguns gatos, não todos. Vieram Olívia, prestes a parir, e Cristo, seu amigo.

A viagem de vinda foi uma aventura. Cristo, novo na arte de andar de carro, entrou em pânico e resolveu manifestar sua indignação defecando. Litros. Durante as duas horas de viagem. Tortura define.

Mas chegamos, desembarcamos e… Perdi Olívia. Cheguei, soltei a menina no quintal e fui me lavar. Quando voltei, cadê? Ficou sumida o dia todo, enquanto a família se reunia em torno do mistério, já que a havíamos procurado por todo canto. Já no fim do dia, a pançudíssima resolveu dar o ar das graças e sair do esconderijo. Ufa!

Resultado do dia? Excesso de estresse e de calor e a imunidade caiu. Daí vem a grande diferença de adoecer em sua própria casa – perdi 6kg em uma semana – e na casa de vó – achei-os todos! – Ô vida…

Mas tenho pouco o que reclamar - falta de casa e só – por aqui. Passei Natal em família. Tive encontrinho com minha turma da oitava série e foi maravilhoso rever todos. Fui ao cinema com eles assistir a um filme nacional – “O Segredo dos Diamantes” -, coisa que não acontecia desde “Jorge, um brasileiro”. Viciei em Shoptime e novela das 9h. E, ontem, Olívia pariu!

Socorro! A Natureza é cruel! Que coisa assustadora é o parto. Tanta gosma, tanto fluido, tanta dor! Ainda bem que tinha a quem recorrer nos momentos de puro pavor! Olívia tirou de letra, mas eu pirei.

Nasceram 4. Depois, nasceu mais um. Dei o nome de Rubinho a ele, claro! Então, em ordem de reconhecimento do mundo fora da mãe, vieram: Branco(a); Tião Carmelo – meu louro de carinha branca -; Alva(o); Carlota Joaquina - minha tricolor imensa! – e Rubinho, o outro louro. Todos lindos, saudáveis e famintos.

Tião e Carlota já são da família para sempre. Por mim, todos os outros seriam, mas criar 10 gatos num (suposto) apartamento de 2 quartos é loucura. Mas aguardemos o desenrolar dos fatos. O importante é que todos sejam felizes e seguros!

E é isso… Estou em BH para uma longa temporada, com planos de negócios traçados – assim como os de lazer! Merecido! – e aguardando minha casa, minha vida.

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Poucas fotos e ruins, porque a lelé da cuca trouxe cuias, mas não trouxe máquina fotográfica.

Encerrando – grazadeus! – 2014 – parte II

Eu sempre experimento uma dificulade enorme de listar o pior, mesmo tendo reclamado o ano todo. Talvez o pior seja realmente irrelevante e o que foi bom é o que prevalece.

TOP-Pi 10 | O PIOR DE 2014:

1. Morte. Reclamarei da morte até o dia da minha. Acho-a injusta e cruel – por mais que seja necessária. E este ano está escorrendo sangue. Mas, pessoalmente, o pior foi a morte ter levado minha babá Alzira sem que eu sequer tenha podido me despedir… Espero que ela tenha sabido a vida toda o quanto eu a amava…

2. Eleições. Pelo resultado. Achei todo o processo – e as baixarias generalizadas – mesmerizante. Pessoas não cansam de me assustar.

3. Copa. E nem foi pelo merecido 7X1.

4. A economia. Se é que pode se chamar isso que temos de “economia”…

5. Vizinhos. O de sempre. Sempre. Pelo menos, em 2015, terei outros vizinhos e outros problemas. Oremos.

6. Cliente-problema. Todo ano. Neste, mais problemáticos do que nunca. E sabe o que é pior? Eu sempre acerto! Quando eu digo: “fuja desse daí”, fuja.

7. Fim da farmília. Vou-me embora, farmília fica quase toda. Vou sentir falta de muitos membros, de outros, nem tanto. Mas me dói pensar em não ter mais árvores na minha vida e na dos gatos que vão comigo…

8. Solidão. Foi a primeira vez que eu a senti, foi a primeira vez que eu não me bastei… Felizmente, não veio pra ficar.

9. Falta de grana. Tem a ver com a “economia”, tem a ver com os clientes-problema, tem a ver com ingerências e burrices. Tem a ver com um passado que há de não me pertencer mais!

10. Falta de vida. Felizmente, não veio pra ficar.