Viagem

Tenho uma amiga morando na França. Outra, em Boca, na Flórida. Tenho um amigo em Florianópolis. Uma prima na Nova Zelândia. Tenho amigas em Recife, Algodões, Cuiabá, Vitória, Fortaleza, Rondonópolis, São Paulo, Rio de Janeiro. Todos já me convidaram para uma visita.

Se eu procurar mais um pouco, encontro mais amigos, mais lugares para ir, mais motivos para viajar. Mas tenho 11 pinos na perna e um pé que se recusa a cooperar. Tenho pela frente bastante fisioterapia e algumas revistas íntimas nas salinhas dos aeroportos.

Quem disse que viver é fácil?! 😉

Plástica

Um dia desses, um cara, na fisioterapia, me perguntou se farei plástica no tornozelo. Entendi a pergunta. As cicatrizes estão horrorosas, a base do tornozelo está muito larga, por causa dos pinos, a perna está com atrofia muscular, ou seja, muito fina – mas melhorando! -. No meio do caminho, há uma depressão, causada pela necrose. O trem tá feio! Mas, mesmo feio, não penso em “arrumar” mais do que o necessário. Quero que minha perna funcione, não me importo que ela fique feia.

Em compensação, todo o resto que está feio me incomoda. A atrofia muscular não se limita à perna doente. Ela se expande por todo o corpo sedentário. A bunda cai. A barriga estufa – e cai. O peito cai. O rosto cai. Afinal, o corpo é um circuito onde tudo se comunica. A comunicação geral, hoje, é que eu me acabei.

Envelheci um bocado nestes 3 meses de perna quebrada. Hoje, se eu quisesse fazer um “mini lifting”, teria o que puxar. E se até um ano atrás eu era mortalmente contra (eu) fazer plástica – pelos animais testados, pelo risco desnecessário, pela vaidade desnecessária -, hoje, o que me impede é só dinheiro. Ainda bem!

Sem dinheiro para puxar, esticar e alisar, tenho que me contentar em tentar melhorar aos poucos. Investir em academia – farei sem preguiça, assim que me liberarem, já que aguento firme a tortura da fisioterapia -, em óleos e cremes – veganos! -, em vitaminas C e D – sol! – e tentar manter o bom humor, porque chororô envelhece anos!!

E se depois de tudo isso eu ainda precisar – subjetivamente, eu sei – de plástica… Bem… Tem cirurgião que divide no cartão! 😉

Deus me livre!

E, um belo dia, você se descobre apaixonada por ele. Obcecada. O livro que você estava adorando foi abandonado. A maratona de Arquivo X, pela qual você havia ansiado, foi deixada de lado. Tudo isso porque você só consegue pensar nele. O tempo todo. Até vai dormir mais cedo, na esperança de sonhar com ele. Às vezes, dá certo.

Como você já decorou todas as reações dele, mas sempre se desconcerta quando ele fala com você, começa a planejar. Tem três frases decoradas para cada possível resposta numa conversa de até 20 minutos. Depois disso, se chegar a isso, estará por sua conta. E se ele não seguir o roteiro? Melhor adiar o encontro até ter pensado em mais possibilidades. Ou não. Quando se encontrarem, ele falará exatamente o que foi esperado e, mesmo assim, nenhuma das três respostas ensaiadas sairá. Você ficará muda, de boca aberta, quase babando.

Talvez, se ele tiver algum interesse em você, até ache bonitinho o seu desespero desconcerto. Pode achar bonitinho sem te querer, também. Pois é, corre o risco dele não te querer. Como viver?! Em negação. Ou num universo paralelo onde ele te queira. Ou no mundo da fantasia que você já criou e vive em repetição, ensaiando para o dia em que tudo for realidade. Vai que…

E por que cargas d’água ele haveria de não te querer? Ele te acha bonita, você sabe disso. Mas é só o que você sabe dele. O resto, além das impressões que você tem (e aumentou em grau máximo para simular conhecimento de causa), é totalmente desconhecido. Você nem sabe se ele tem mulher ou se gosta de homem. Você supõe coisas, mas saber, não sabe. 

Não sabe se ele é casado. Ou petista. Se ele odeia animais ou é fanático por futebol. Se é racista ou se quer ter um punhado de filhos. Talvez, tudo isso junto. Mas no seu universo inventado, ele é tudo o que você sempre quis e, se em realidade ele falhar, você está pronta para perdoar. Ou não?

Não. Nada pior para um ilusão do que uma verdade inconveniente. E, de repente, você tem certeza de que ele não é nada daquilo que você sonhou. Ele é um sacripantas, um energúmeno! Como você foi tola de não ter enxergado isso!! Abra seus olhos, mocinha! Saia dessa fria!! 

Pronto. Já pode voltar para seu livro. Mulder e Scully também esperam por você. Vá ser feliz!

Dia da Olívia

A Olívia foi resgatada sem uma das pernas e com as mamas cheias, como contei aqui. E, apesar de três protetoras que cuidam ou já cuidaram de gatos amputados me garantirem que não existe síndrome de membro fantasma em gatos, Olívia as desmentia. Ela se agitava, pulava e gritava quando minha mão se aproximava do local onde deveria estar a perna. Muitas vezes, sonhava e chorava. Até que, num belo dia, ela conseguiu pular um muro impossível e voltar grávida.

Eu poderia tê-la castrado às pressas para evitar filhotes. Era uma suposta gravidez de um dia, quando ela voltou. Poderia, mas não o faria. Não só porque sou contra aborto, mas porque achava que ela precisava dessa experiência, já que, da última vez, a maternidade tornou-se tragédia.

Ela foi uma grávida tranquila. A síndrome passou por completo. Ficou pesada para o tamanho e as três pernas, mas deu tudo certo. O parto foi complicado só pra mim. Cristo recebeu as crianças muito bem, nem parecia a fúria assassina que havia sido. Éramos uma família.

Nasceram 5 bebês lindos. Eu ficaria com 2 e doaria os outros, mas me apeguei. Eles todos se dão muito bem, são fofos, carinhosos. Dois deles andam amassando pão! Na quinta passada, levei Olívia e Carlota para serem castradas na Cão Viver. Os meninos ficaram tristes, sentiram muito a falta delas, nem comeram.

Eu tive uma noite terrível, pré-castração. Fiquei ansiosa, pensando em tudo o que poderia dar errado, mas deu tudo absolutamente certo. Até dar remédio não está sendo tão difícil.

Para minha família voltar a ser completa, faltam os três que estão lá na casa antiga. Meu coração fica apertado em pensar neles, mas fiz o meu melhor, diante de tudo. Muito em breve, estaremos juntos.

Também falta Cristo…

Enfim, é dia das mães e meus parentes foram comemorar. Eu fiquei. A mãe que mais me interessa, neste momento, é a Olívia. A melhor mãe que eu conheci e, por acaso, minha filha!

Olivia-2416Foto: Vinnicius Silva

 

Correios – até quando?

Eu já reclamei dos Correios um zilhão de vezes. Já que Lula curte uma comparação com FHC, bom, na época do FHC era a estatal mais confiável do Brasil. Hoje… Aliás, há uns 16 anos, a coisa só decai. Serviços cada vez mais caros e ineficientes.

Meu primo me disse que o Senado aprovou a privatização dos Correios. Espero que se concretize. Entre outros motivos, abre-se concorrência e outras empresas podem começar a fazer o serviço. Porque, por enquanto, por causa de protecionismo, há coisas que só os Correios podem fazer.

E há coisas que os Correios deveriam fazer, mas não fazem. Como entregar encomendas, por exemplo. O rastreamento já não funciona bem faz um tempo. Muitas vezes, a encomenda fica lá em Pernambuco até chegar na sua casa, em MG, assim, de repente. Outras, você verifica que saiu pra entregar, fica em casa esperando e, quando dá o refresh, sua encomenda está voltando para SP, porque tentaram te entregar há 10 minutos e você supostamente não estava em casa. Só que você estava em casa. E não há nenhuma notificação em sua caixa do correio garantindo que a tentativa foi feita. Sei lá. Imagino que o carteiro estava com fome e resolveu ir lanchar em vez de me entregar a encomenda pela qual eu paguei R$ 19,00 de frete para receber hoje!

E você pensa em reclamar no site dos Correios? Boa sorte.

Subnanocelebridade

Quando eu era adolescente, queria fazer algo notável. Aceitaria de bom grado os 15 minutos de fama prometidos por Andy Warhol, mas, infelizmente, eu não tinha nenhum talento notável ou beleza notável ou inteligência notável. Eu era mediana em tudo, o que não é notável. Enfim, fui uma adolescente fadada ao esquecimento… :-(

Desde que quebrei a perna, tenho vivido, tardiamente, intensos minutos de fama. Primeiramente, no hospital, como já contei. Depois, na primeira clínica de fisioterapia. Hoje, na segunda clínica.

Era a primeira consulta, então, conta-se parcialmente a história, omitindo os detalhes sórdidos (o motivo), para evitar-se o choro, e testa-se o pé. E ele não mexe. O fisioterapeuta diz: “se doer, me avisa” e empurra meu pé, com força. E nada. Nem dor, nem movimento. “Vou passar seu caso para todos”, ele diz. E passa. Em pouco tempo, uns 8 fisioterapeutas estão empurrando, puxando, medindo, apalpando, torcendo, estralando meu pé. Mas o movimento necessário quase não existe. Pela medição, faço 8º dos 45º esperáveis.

Ninguém quer se ocupar da doninha que está iniciando os exercícios. Todos gravitam em torno de mim. “Olha, uma fratura no pilão da tíbia! Você nunca tinha visto isso!”

Enquanto gira meu pé, a moça pergunta: “Dói?”

“Não, não dói.”

“Nadinha?” – a cara de desconsolo acompanha a pergunta.

“Não.”

“Mas tem que doer. Se não doer, não há melhora.”

E todos juntos se esforçam ao máximo para trazer a dor.

“Ok, doeu. Deu uma fisgadinha.” – e todos se alegram. Não foi dor, foi só um repuxo nem tão desagradável, mas minto para manter as esperanças.

Pois é. A fisioterapeuta que prometeu que eu voltaria a andar, a correr e a usar salto falhou horrivelmente. O fisioterapeuta que me prometeu dor, ainda não conseguiu. Mas está ok, ele só teve uma chance. Aposto que conseguirá.

Assim, prevejo que as próximas 12 semanas serão de dor intensa. E bom que seja, porque é melhor do que não sentir nada. Segundo a turminha de fisioterapeutas, se não doer, não volta a mexer e entro na faca novamente. Isso, eu não quero!

Mesmo que eu fique manca, e é uma possibilidade, está tudo bem. O importante é que estou fadada a pertencer e me imortalizar no anedotário médico-fisioterápico. Minha história, da queda ao pé que, incensivelmente, se recusa a se mexer, será contada por várias gerações, sempre com o detalhe do gato – porque eu não conto, mas minha tia, fiel escudeira, espalha o “causo”! -. Meus 15 minutos de fama se cumprem e sou uma subnanocelebridade da ortopedia belorizontina.

Crazy Cat Lady

Comecei a reparar que existe uma certa torcida para que eu me apaixone pelo Dr. Bonitão. Ou que, pelo menos, a gente se agarre e role na relva ou coisa que o valha. Imagino que isso seria uma espécie de recompensa pela perna quebrada. Como se o meu acidente não tivesse acontecido em vão, mas fosse uma bela e dolorosa manobra do destino para me trazer o amor. Sem desdenhar, mas passo.

Já superei a fase de me apaixonar pelo meu ideal projetado na outra pessoa. É fria. Não suportaria que o príncipe encantado das minhas fantasias confirmasse, via Facebook, que comparecerá ao show “Sorriso Eu Gosto”. Seria muito desgosto. E, bem, considerando que nem sei de o Dr. é casado, solteiro ou “tico-tico no fubá” (expressão maravilhosamente terrível!), não tenho base para iniciar nosso relacionamento de sonho! É sério mesmo, vai que ele seja solteiro, mas adore Sorriso Maroto?! Ou pior! Que ele tenha nascido em Itaúna odeie gatos!!! 😮

Por essas e outras, apesar da torcida cada vez maior, continuaremos com nossa relação estritamente profissional. Não brincaremos de médico! Levaremos o assunto muito a sério, com exceção dos pequenos charminhos jogados de um lado e outro durante as consultas, só para descontrair.

Agradeço a você, caro(a) amigo(a), que torce por mim, mas já me acostumei com a ideia de ser um “crazy cat lady” e já tenho, inclusive, o roupão que pretendo usar para arrastar pantufas em casa, enquanto grito com os gatos!! 😉

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Abobrinhas

Parei de comer alho por um período de experiência. Os Hare Krishna não comem e justificam com muitas explicações. As melhores: faz a pessoa feder e tem a ver com raiva e descontrole. Não quero feder nem me descontrolar, então… O interessante é que tenho estado com melhor cheiro – meio óbvio, isso, né? Alho fede mesmo! – e mais calma. Pode ser efeito placebo, mas pode ser que não seja. Na dúvida, estou evitando alho, alho-poró, cebola e cebolinha. Para minha profunda tristeza, adoro os quatro.

Estou tentando andar, mas dói e está difícil. E não quero andar na piscina, como o Dr. indicou. E é por pura vergonha. Estou deformada e insegura. Eu estava tão bem, tão magra – saudável! – e em forma e, agora, estou tipo “Andressa Urach pós-coma”. Não dou conta de lidar. Ainda não.

Estou fazendo exercícios para o pé, uns alongamentos, e tenho tido ajuda do Zacharia, que tem conseguido driblar a “família pé-no-saco” – porque não deixa gato dentro de casa – e chegar ao meu quarto provisório para me dar e receber muito amor.

Zach é um dos que seriam doados, caso eu tivesse resolvido doar. Ainda bem que mudei de ideia, porque ele é delicioso demais. Do tamanho exato da minha carência. Não tem quem não o ame! Até minha avó o adora!!

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Comprei o FURminator para pentear os gatos e o Zach, o mais peludo da prole, deixou e gostou. Como saiu pelo no pente! E como ele ficou com aspecto menos sujo! Gente, eles estão todos imundos e eu não tenho como dar banho! Calamidade!

Também comprei Brinquedo Ecológico Pet Games EcoCaça Peixe e os gatos amaram. Até os antissociais se chegaram para brincar! Claro que seu eu deixar com eles, sem supervisão, não dura 5 minutos. Mas é para brincarmos juntos, o que é mais legal e durável!!

E depois de ler Sobre a Escrita, do Stephen King – recomendo para quem quer ser escritor ou ame muito o Steve. Caso contrário, há muitos outros livros dele para se ler -, não sei mais se consigo escrever um continho sequer. Virei crítica. Estou lendo A Imortalidade, de Milan Kundera, fazendo cortes (mentalmente): tirando advérbios e partes desnecessárias. Meodeos! Stephen King criou um monstro em mim! Como se houvesse necessidade disso!

Evolução

A Louizy, que está em Paris curtindo a vida adoidado!, pediu para eu contar sobre a evolução da minha recuperação, aqui. Por mim, eu não contava! Culpe ela!

Terça, fui ao Dr. Bonitão. Fui à consulta bem menos molambenta do que de costume e valeu a pena: ele me chamou de “minha linda”. Ok, ok, ele teria me chamado assim mesmo que eu estivesse péssima, pelo mesmo motivo que o leva a me chamar de Pat: é da natureza dele. Mas ando me sentindo tão feia que, mesmo não acreditando na minha lindeza, fiquei feliz. Na verdade, o Dr. tem umas expressões faciais sensacionais que, por si só, me deixam feliz. Ele nem precisa falar nada. Se eu fosse um pouco mais tola, estaria apaixonada. Mas não sou.

A boa notícia é que estou liberada a andar com duas pernas! A má notícia é que não sei mais fazer isso. Ele me mandou – mandou, não pediu – trocar de fisioterapeuta o quanto antes, o que me traz um problema: ter que telefonar. Odeio telefone. Por causa do meu ódio, estou com um dente quebrado há um mês ou mais. Mas vou me esforçar. Por ele. Só depois de 20 sessões, volto a vê-lo. E olha que eu não estou apaixonada, hein?! Haha

Tem também o fato de que dente quebrado incomoda, mas não andar é uma porcaria. E tem o fato de que eu quero me mudar logo! Preciso das minhas coisas, do meu espaço, dos meus gatos e da minha responsabilidade de volta!! Se eu ficar mais tempo do que o estritamente necessário na casa da minha avó, além de ficar obesa, enlouqueço e empobreço de vez. Há sites demais me tentando… Não… Consigo… Me… Controlar… Por… Muito… Tempo…

O mais estranho é que quero comprar calçados (Converse e Ahimsa), mas os pinos me impedem de calçar canos altos, porque incomodam muito. E é exatamente o modelo que eu quero. Vai entender. Enquanto preciso de fisioterapia, dentista, emprego/trabalho, academia, casa e liberdade, tenho me empenhado, basicamente, pelos sapatos. Empenhado, não comprado.

Off-topic: Jezebel é macho e, agora, se chama Benjamin. Eu sabia que ele era macho desde que nasceu, mas tinha esperança de ter mais uma menina na família e ele é tão meigo… É menino, boludo e será desbolado em junho. ¯\_(ツ)_/¯

Obs.: sim, sou dessas que muda de assunta e encerra o post.