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Orgulho, preconceito e zumbis

21 de março de 2012

Tenho preguiça de quem tem orgulho de bobagem. Hoje, em mais um destes dias inventados e sem sentido – pra mim, nenhuma destas datas comemorativas faz sentido algum, então… Rabugice -, uma mulherzinha falou na TV que seu filho tem orgulho de ter Síndrome de Down. Ele teria outra escolha?! Tempos atrás uma amiga começou a pregar o orgulho de ser brasileira. Mas ela teve outra escolha?! Eu, não. Nasci aqui, assim, sem me perguntarem se era o que eu queria. Também não me questionaram se eu queria ser mulher ou se ser portadora da Síndrome de Down seria uma opção. Não escolhi ser branca – muito, muito branca – nem hetero. Eu não escolhi meus originais de fábrica, minha condição humana, nada. Sou o que sou e só porque não teve outro jeito. Não me orgulho de nada disso.

Me orgulho de ser um ser humano decente – dentro do que é possível, já que ser um ser humano já não é nada tão decente – e de ser menos louca do que me programaram para ser. Tenho orgulho de algumas escolhas, vergonha de outras. E, na contra-mão do que prega minha amiga e seu orgulho pátrio, às vezes tenho vergonha de ser brasileira. Não é minha culpa, não foi minha escolha, como já disse, mas se “a gente não escolhe o país onde nasce, mas constrói o país onde vive e, trabalhando, construímos o futuro”, como dizia uma linda propaganda de banco dos tempos da ditadura – período em que orgulho cívil era obrigatório -, eu me sinto no direito de ter vergonha. Porque eu não faço parte da solução, então, sou problema, também. Eu pago muitos impostos, gero poucos empregos, voto obrigada e não me sinto com vontade de mais nada. Não ergo um tijolo pela nação.

Não fui às ruas declarar guerra aos corruptos.

Não protestei veementemente contra as tomadas jabuticaba.

Não bradei aos 4 ventos contra as decisões arbitrárias e ofensivamente maternais da Anvisa.

Não blasfemei contra a bancada evangélica.

Não invadi o prédio da Ancine em protesto contra a intromissão na programação da minha TV a cabo.

Não pus fogo no Congresso.

Não ocupei os Correios em busca das minhas encomendas perdidas/roubadas/extraviadas para impedir que eu cresça os olhos no que é importado e acredite que tenha direito de torrar os centavos que me sobram no fim do mês em roupas mais baratas e melhores que as nacionais.

Não fui atrás da minha cidadania italiana.

Não, eu não construí nada. Eu fiz um blog, sentei em frente ao meu MacBook Pro e esperneei virtualmente, enquanto espero, tal qual um zumbi, minha hora de tomar conta dessa joça, destruir legal e comer alguns cérebros – se encontrar algum por aí…


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