E sobre a vida e a morte, de novo

Eu já dei minha opinião sobre o aborto e ela não mudou. Por isso, para mim, o assunto já estava encerrado. Até ontem…

Rafaela, minha amiga, postou em seu FB um link da Loba Muito Cruel. Já tenho meio que antipatia dela – a Loba – por uns textos que li lá, mas  fui sem preconceito. Não adiantou…

O texto em questão era sobre o aborto de anencéfalos.

Ponto de discórdia 1: “Na minha modesta concepção pessoal, enquanto existir um cérebro, mesmo que do tamanho de cabeça de um alfinete, há vida. E não adianta nem tentar comparar com morte encefálica (ou morte cerebral) pois neste caso, há perda das funções cerebrais relacionadas com a existência consciente.”

Na minha concepção, não há nenhuma necessidade de consciência para haver vida, afinal, meu ipê que se mostrou rosa, no quintal, é um ser vivo e não acredito que ele tenha consciência de nada.

Sem contar que assisti a um programa no Discovery em que um cara, que sofreu um acidente horroroso de quadriciclo, foi declarado morto (morte cerebral) e, enquanto a família se despedia e se preparava para desligar os aparelhos, o cara voltou. Ele disse ter ouvido, o tempo todo e com desespero, cada adeus e a discussão sobre se deveriam ou não desligá-lo. Mas se morte cerebral é igual a inconsciência, como ele pode ter consciência do seu estado?! Teria sido erro de diagnóstico?! Milagre?! Não sei nem quero saber. O importante é: havia vida ali. Era mais ou menos viável do que a de um anencéfalo? Sei lá.

Ponto de discórdia 2: “Viviane”.

Não fiquei sabendo de lei que permite a interrupção de gravidez em caso de paralisia cerebral. Aliás, sou leiga nisso, mas não conheço casos de diagnóstico de paralisia cerebral intra-uterina. Estou errada?! Existem?

Ponto de discórdia 3: “‘Escolha da mulher…’ Olha, que eu saiba ninguém escolhe ter cabelo ‘ruim’, ser gorda, ser feia, ser doente, ter defeito, ser pobre, enfim, NINGUÉM escolhe”

Como assim NINGUÉM escolhe? Aliás, ter cabelo “ruim” – alisado com formol é ruim e é uma escolha -, ser gorda – se não for por doença, é escolha -, ser feia – se for por injeção de colágeno, né, Lilo?, é escolha -, ser pobre – alô Franciscanos! – são problemas que se comparem a não ter cérebro?! Aliás, são problemas?!

Ponto de discórdia 4: “Não importa se você crê em Deus, se você é Agnóstico, Ateu ou Cético, em alguma força maior do que nós você deve acreditar e essa força é que, por algum meio, controla a vida e a morte, então quem é você, ser humano, para decidir sobre “escolha da mulher”?”

Claro que importa! Como assim você DEVE acreditar em qualquer coisa “superior”?! Hein?! Aí cabe direito de escolha, também, meu bem! E a “escolha da mulher” é pessoal e intransferível. Você, Deus, Satã, Buda ou qualquer outra entidade citada não tem nada a ver com isso. Por isso é uma “escolha da mulher”.

Ponto de discórdia 5: “Eu tive 3 abortos espontâneos.” … “Eu amo crianças e meu maior sonho sempre foi ter um filho. Sim, eu posso adotar, mas meu sonho era ver minha barriga gigante com meu filho crescendo dentro e eu podendo passar a mão sobre ela.”

E daí?!

Eu não amo crianças, em geral, e não quero ter filhos. Mas se um dia eu mudar de ideia, abraço a possibilidade da adoção com fé. Muito maior do que a experiência de ter a barriga crescendo e poder passar a mão é ter amor para dar a quem precisa, é ver alguém crescer e evoluir com sua ajuda, é possibilitar a felicidade a um ser humano que não é “seu”!

Ponto de discórdia 6: “Por que eu, que tanto quero ser mãe, perdi meu bebê, enquanto essas mulheres que podem gerar filhos, os jogam no lixo como um papel higinênico usado?”

Porque a vida é assim e o aborto é ilegal. Se essas mulheres tivesse acesso ao aborto, não precisariam chegar a este ponto. E não, não concordo com jogar crianças no lixo, nem com aborto como método contraceptivo. Mas minha medida só vale para minha vida. Não posso impô-la às outras pessoas.

Ponto de discórdia 7: “tenha lido pessoas defendendo o direito de escolha das mulheres, mas não optando pelo direito à vida.”

A legalização do aborto para casos de má formação do feto não é uma imposição legal, é apenas a descriminalização do aborto para esses casos. Você quer manter a gravidez, vá fundo. Não quer, é seu direito. Mais uma vez, conta a “escolha da mulher”, e isso é ótimo!

Tem gente que conserta, cirurgicamente, o filho deficiente – ei, Justus! – e finge que está tudo normal. Tem quem lide bem com o milagre da vida, venha como vier. Tem quem sofra e não saiba lidar com a morte prematura e prevista de um filho.

Ponto de discórdia 8: “Ou talvez porque eu sei como esse mãe poderá se sentir daqui a uns anos se ela pensar na possibilididade remota de que seus filhos poderiam ter sobrevivido, mesmo que por um curto tempo. Porque a gente muda, a cabeça da gente muda.”

Não, minha senhora, não sabe! Você sabe de si e olhe lá! Cada um é cada um! Deixe o cada um do outro, pelamor!!!

 

Deixo claro que a Loba tem o direito de pensar e de escrever o que bem entender – os limites, se houverem, não serão impostos por mim -, mas deve-se tomar cuidado com como o faz. Ser “dramática, impulsiva, polêmica, verdadeira e apaixonada” não é o mesmo que ser arrogante e impositiva da verdade. Tentar culpabilizar uma mulher que, num momento difícil, triste, cruel, opta pelo aborto, é falta de caridade.

Escolhi este post para dar minha opinião, porque foi o que me apareceu na frente. Eu até havia lido o blog de uma senhora que tem uma filha anencéfala com 2 anos de idade – Vitória de Cristo -, mas achei muito pessoal. Eram as experiências dela, não apenas opinião baseada em achismo.

7 ideias sobre “E sobre a vida e a morte, de novo

  1. Eu acho que nem posso dar muita opinião, talvez eu não seja imparcial nessa matéria… Mas uma coisa que ela ressaltou no texto, ou que foi lembrada nos comentários do post, foi o fato de haver descriminalização só para alguns casos. Ora, se o corpo é da mulher e a escolha é dela, já que o feto ´´não é pessoa´´, faria mais sentido descriminalizar em todos os casos. Eu acho impossível determinar a partir de que idade gestacional, ou grau de desenvolvimento cerebral, ´´aquilo´´ passa a ser uma pessoa. Daí me sinto inclinada a ser, em princípio, contra o aborto em qualquer caso, mas ao mesmo tempo sem estar em posição de julgar quem faz ou fez.
    É, é confuso!!!!!!

  2. Relendo seu post antigo, vi que na verdade eu concordei bastante com ele! Talvez, hoje em dia, eu esteja mais inclinada `a discriminalização… mas na verdade não tenho certeza, talvez nunca tenha…

    • O fato é: tanto faz a nossa opinião. O que conta é a vida de quem está vivendo o acontecimento. Sou contra aborto, mas não posso dizer com 100% de certeza que nunca faria. Não sei. E não posso condenar quem opta por ele. Deve ser duro, deve ser triste, deve ser horrível, não sei. Só acho que há casos em que não podemos medir os outros pela nossa régua. Este é um deles.
      Me incomoda uma pessoa apontar o dedo com tanta vontade que até se esquece de argumentar com a razão.
      E, se o governo, que nos governa, deixa que uma mulher opte pelo aborto para salvar a própria vida, para não gerar o filho do estuprador ou para não gerar uma criança improvável, já é um começo. Um dia seremos livres. Por enquanto, cada pequena liberdade deve ser apreciada, mesmo que nos desagrade.

  3. Oi Pi!
    Enfim, só pra variar, seu ponto de vista bate em muita coisa com o meu.
    A unica coisa que, enfim, não entendi até hoje: Quando essa história toda estava sendo votada, estava no auge da discussão, nos apareceu a pequena Vitoria lá, para “mostrar”, para sensibilizar, para chocar, sei lá qual realmente era a intenção dos pais, a não ser essas… e enfim..
    Trabalho com um médico neurologista há 5 anos, mas ainda não falamos sobre isso.
    O que me “incomoda” é o fato os FETOS ANENCEFÁLICOS serem DESPROVIDOS de, vamos resumir, serem desprovidos de VIDA.
    Eles podem ter uma sobrevida de minutos, horas.. no máximo dias..
    Mas a Vitória já tem mais de 3 anos..
    Será MESMO que ela pode ser considerada uma criança anencéfala?
    Porque, na época, me lembro de estar mudando de canal enquanto assitia qlq coisa na TV, e passando pela Canção Nova, eu ví a imagem da menina, e logo parei alí pra saber do que se tratava..
    Enfim, lembro MUITO bem dos pais da criança dizerem: eles a alimentam (no caso, PELA BOCA – mesmo não havendo mastigaçao, ela NÃO PRECISA DO AUXÍLIO DE SONDA, sendo assim, ema DIGERE os alimentos, a partir da ingestão), quando conversam com ela, ela reconhece vozes (de pessoas que convivem com ela), quando fazem carinho ou cocegas, ela ESBOÇA reaçoes de prazer, de estar gostando, inclusive SORRI.
    Agora me diz: TUDO ISSO acontece PORQUE???????
    Porque o cérebro encaminha tais reações ao restante do corpo!
    Não preciso falar mais nada, a não ser que: Tenho um filho, não pensei em momento algum em abortar, até entendo a boa vontade, a boa intenção dos pais da criança, mas acho exagerada essa superexposição, PRINCIPALMENTE por MOSTRAREM a criança, e.. enfim, que a Vitória tem algum distúrbio, alguma má formação, isso é notório.
    Portanto, ANENCÉFALA ela NÃO É!

    Beijo querida Pi!

    • Não tive muito saco para ler o blog da mãe da Vitória, mas li uns pedaços e, pelo que entendi, ela não é totalmente anencéfala. Não entendo nada disso, mas ela nasceu com a cabeça aberta e com um tiquinho de massa encefálica.
      Também não acho legal tanta exposição da criança. Parece, para mim, que eles querem aliviar o fardo se tornando famosos pela boa vontade, compaixão, como pessoas morais e melhores do que as outras. Taí o problema: você pode se julgar melhor que os outros – não sei baseado em quê, mas, né… -, mas não tem o direito de julgar ou rebaixar ninguém só porque pensa de forma diferente de você. E é o que ela faz.
      E levar a menina pra frente do Congresso, fazer alvoroço em torno disso, para impedir que se pense diferente… Credo, viu?! É muita baixeza.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>