Em um relacionamento sério

E lá se vai Arnaldo, em desabalada carreira. Não é mais tão moço, deveria poupar-se para as coisas boas, usar tamanho vigor em atividades que dão prazer. No entanto, ele foge. Fico olhando.

O que Arnaldo não sabe é que o mundo é grande, mas nossos caminhos hão de se cruzar. É inevitável. Também não sabe, ou não acredita, que não há o que temer. Não, de mim.

Eu e Arnaldo nos encontramos enquanto eu saía da escura e sufocante masmorra do relacionamento sério. Eu estava cansada, porém, eufórica, tentando me desvencilhar dos últimos grilhões. Devo tê-lo assustado com minha empolgação. Ou com as correntes. Justo. Mas se ele acreditou que eu gostava da prisão e que o levaria para lá, é louco! Eu estava feliz por sair, não por ter estado dentro!

Não era de todo ruim, na masmorra. Eu via a luz do sol, sentia o vento no rosto, ouvia os passarinhos, mas era sob outra perspectiva. Liberdade abrilhanta e adoça a vida. Então, por que eu, logo eu, a quereria tirar de alguém?!

Arnaldo… Uma legítima força da natureza. Abrandada pelo passar dos anos, mas, ainda assim, intensa. No momento em que o vi, ele era a luz do sol, que não se aprisiona, não se possui, somente se aprecia. E assim o fiz! Talvez com muita vontade? Não sei. Mas sei que, logo, ele pôs-se a correr.

Desolada, gritei: “Ah, Arnaldo, não me temas! Eu não tiraria de ti o que mais me encanta. Quero que o mundo veja, aprecie e experimente meu encantamento. Meus sentimentos são por ti, mas são todos meus. Não têm peso, cor, volume, não têm cheiro ou sabor, não te fazem sombra. Portanto, não te preocupes com o que não vês ou sentes e, portanto, para ti não existe.”

Mas era tarde. Ele já ia, ao longe… Ainda hoje, meses depois, pode-se vê-lo a correr e correr.

E pode-se me ver no aguardo, incansável, ansiosa e com todas as portas abertas, desejando que o querer de Arnaldo cruze o meu.

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