Peripécias da Pi

O dia havia amanhecido lindo e azul, depois de uma noite de chuva. Acordei às 7h, como em todas as quartas-feiras, e pensei em fazer uma horinha na cama, com preguiça de ir caminhar. Mas os gatos, como sempre, não me permitiram.

Fora do quarto, estava fresco e deixei os gatos saírem pra passear, enquanto eu trocava águas e enchia as vasilhas de comida.

Cristo aproveitou que baixei a guarda e subiu na jaboticabeira. Foi-se lá pra cima, inalcansável. E, claro, me apavorei. Se ele descesse para o telhado, havia o perigo de uma porção de cercas elétricas que, possivelmente, ainda estariam ligadas. Se continuasse pela árvore, havia risco de queda, pura e simples.

Aguardei para ver se ele descia sozinho, sem acidentes, mas ele preferiu o telhado, mesmo. E lá chegando, começou a miar. Um miado sofrido… Quanto mais ele miava, mais eu me decidia a pegar a escada e subir. Só que eu estava sozinha. Meu pai ainda demoraria uns 30 minutos pra chegar – muito tarde – e minha avó não me deixaria subir, muito menos me ajudaria. Fui.

Armei a escada, aproximei do telhado, testei, subi. Ele correu pra longe de mim. Desci. Pensei. Levei a escada para um outro ponto do telhado. Testei. Rearrumei e retestei. Subi. E a escada escorregou e caiu.

Minha vida não passou diante dos meus olhos, mas as possibilidades, sim. Se eu caísse pra frente, com a escada, eu poderia bater com a cara no chão e/ou quebrar os braços. Pra trás… A pilastra estava longe, não estava alto, achei melhor. Me projetei pra trás. Mas minha perna esquerda resolveu se enganchar entre os degraus. Ainda tentei puxá-la (tenho um bruto hematoma para provar), mas o pé ficou.

Bati no chão em silêncio, com suavidade e algumas fraturas na perna.

Minha avó apareceu xingando: “vai acordar os vizinhos!” Meu pai apareceu na janela – ele mora exatamente do lado – xingando: “quê que você tá aprontando” emendando com “eu te falei pra não mexer nessa escada!!!”. Enfim, família, eu quebrei a perna. Chamem alguém pra me ajudar.

Depois de meia hora caída no chão, imóvel, com milhares de formiguinhas andando sobre mim, a ajuda apareceu. Três mocinhos me imobilizaram na maca e me levaram para o Life Center. Fiz respiração cachorrinho enquanto eles colocavam a tala. Fiquei pensando: parto não pode doer mais do que isso.

Cheguei ao hospital imaginando que estava tudo resolvido. Seria assim: uma radiografia, constatava-se a fratura, punha-se o osso no lugar, enfaixava-se, engessava-se. Injeções, sessão de bronca do doutor e alta. Ainda chegaria em casa a tempo de descansar e trabalhar na parte da tarde.

Na real, foi assim: espera. “Onde dói?”. Radiografia. “Menina, você fez estrago, hein?”. Espera. “Vai ter que operar. Se der, ainda hoje.” Espera. Xixi na comadre. Espera. Moça veio tirar sangue e quase leva o braço. Espera. Moço veio colocar o catéter. Remédio pra dor – que não fez nem cosquinha. Espera no corredor. Peço água. Médico, já meu íntimo, me chamando de Pat, diz que eu não posso, porque vou ser operada no começo da tarde. “Mas são 10:30!!!” Bebo água escondido. Espera. Desço para a enfermaria, enquanto não vaga um quarto. Vem meu pai, vai minha tia. Dona Nadir, possivelmente com Alzheimer, dá um show na enfermaria. “Deus, vem me buscar. Nenhum velho deveria sofrer assim.” Metade era manha, mas ela tinha pedra nos rins. Não estava fácil para ela, também. Aliás, para ninguém ali.

A dor individual parece menor diante da dor coletiva, mas, ainda assim, precisei de Tilex. E de morfina. E nada foi de muita ajuda. Meu pai se foi, minha tia voltou e conseguimos um quarto. Sobe pro quarto. Espera.

Eram 20:30 quando chegou o enfermeiro para me ajudar a me despir para a cirurgia. “Está de jejum?” Oi? Desde às 19h do dia anterior!!!

O bloco cirúrgico estava lotado! Não havia espaço para manobrar macas. Mas, ali, a espera foi curta. Fui logo pra sala, o anestesista já veio logo se apresentando e me dando drogas das boas!! Apaguei. Acordei com o médico falando dos meus hematomas e me mostrando as fotos da cirurgia.

antes depoisTrês fraturas no tornozelo e uma no pilão da tíbia e tenho minha própria Torre Eiffel!!

À 1:30 desci pro quarto. Não dava mais para comer. Dormir foi tarefa inglória, mas sobrevivi. Recebi alta na tarde de quinta e estou em ritmo de axé (tira o pé do chão!!) desde então.

Passei por 11 enfermeiros – o moço do catéter, Jordano, Jackson, Patricia e Úrsula estão no meu coração. Contei minha história para cada um. Já via o momento da peregrinação para ver a moça que se estropiou buscando Cristo. O anestesista foi uma pessoa maravilhosa e não passei nada de mal com a anestesia. O ortopedista, bonitão, é também competente, simpático e debochado. Deu tudo certo.

Meu pai cuida dos gatos. Minha avó cuida dos cuidados. Minha tia cuida das compras e transporte. Cristo voltou e cuida de me dar carinho todo dia. Tudo certo, aqui também.

Hoje, tive retorno médico – e consegui as fotos que ilustram este post – e conheci mais uma vítima das escadas de armar de alumínio! O cara quebrou o calcanhar! Pela cara do doutor, ele está pior do que eu.

Aprendi coisas nesta aventura!

• A não me precipitar mais. Que chamar os Bombeiros para resgatar o gato em vez de me arriscar a ter que chamar o Samu para me socorrer é o mais sensato.

• Que família é uma formação de elementos difíceis, mas esse amor que (n)os une ajuda a remendar ossos.

Reafirmei coisas:

• Gatos são excelentes companheiros, são solidários e amigos!! Não são cães e não têm que ser comparados a cães.

• Amigos não têm que ser testados nem amizades são medidas em momentos difíceis. Alguns são mais participativos, outros são contemplativos, há os escondidos, que esperam o pior passar para dar um “oi”. Há, até, os totalmente desinformados, que nem sabem o que está – e se está – acontecendo. Todos são ótimos! Todos são bem-vindos!

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E, pra fechar, um conselho de amiga: tenha um bom plano de saúde em dia. Se eu tivesse que pagar por todo o atendimento que tive, que foi o melhor possível, eu teria que vender um rim. Planos de saúde são caros e parece desperdício de dinheiro, mas nunca se sabe… Até às 7h de quarta passada, eu fazia planos de caminhar na Silva Lobo e, depois, entrar em alguma academia, para me matricular na musculação. Jamais esperava terminar – muito menos, começar! – meu dia num hospital…