Gatos

Antes de desistir de colocar meus netos para adoção, eu havia escolhido a Carlota Joaquina, a tricolor, e o Tião Carmelo, o branco e amarelo, para serem meus para sempre. Como pessoa que sabe bem escolher, eles se saíram os mais medrosos, chatinhos e antissociais dos gatos. Os três inicialmente preteridos são fofos, carinhosos e belíssimos! No fim, pouco importa. Ficarei com todos.

Se eu tiver acertado os sexos, ficam assim: Zacharia, Tião Carmelo, Carlota Joaquina, Jezebel e Rubinho.

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A propagação da ideia de que gatos não gostam dos tutores, mas da casa, me irrita. Eu me sinto amada pelos meus gatos. De fato, apesar de ter negado de pé junto, inclusive neste blog, que seria mãe de gato, admito que o sou. E muito.

Caí da escada tentando alcançar Cristo, mas poderia ter caído, com consequências bem piores, da cadeira sobre o banco ou da árvore ou do muro, tentando alcançar Panqueca, Guapa ou Olívia. Sim, me arrisquei por eles e uma perna quebrada não me trouxe juízo algum, me arriscaria novamente.

Choro todos os dias a falta de Cristo, assim como de Rasputin, Pixie e Guapa, dos quais, além da imensa saudade, sinto imensa culpa por não estarem comigo. Espero que não se sintam abandonados e, sinceramente, que me perdoem. A vida tem sido um pouquinho mais complicada do que eu esperava que fosse.

E confesso que fiz uma oração, a Santa Gertrudes de Nivelles, padroeira do felinos, por causa de Cristo. Sou ateia e não rezo nem por mim, mas já rezei por ele mais do que eu sonharia. Ele, assim como os outros gatos, são, sim, meus filhos. São meus amores, minha responsabilidade, minhas despesas, minha dedicação. E, quer saber? Meu coração está tão repleto deles que o carinha do qual eu gostava, a quem dediquei uns posts, foi expulso de vez. Assumo: sou Crazy Cat Lady e não me envergonho nem um pouco. “Vergonha é roubar, não poder carregar e o dono enxergar”, diria minha avó.

Perícia

Acordei às 5h50, com um mensagem vinda do WhatsApp. Pensei que ele não tocaria antes das 6h, porque o havia bloqueado por 8 horas. Estava enganada.

Fiz uma horinha antes de me levantar, tentei voltar a dormir, mas não obtive sucesso. Às 6h30, estava pronta para sair.

Fomos de carro, eu e minha tia. A Previdência Social fica até bem perto da casa da minha avó e chegamos rapidamente.

Enquanto aguardava a chamada, sentei-me ao lado de uma jovem senhora. Ela aparentava certo mau humor e dei-lhe o melhor dos “bons dias”. É tão evidente a reação às pequenas gentilezas que não entendo como pode alguém sair por aí com cara fechada. A mulher, imediatamente, se tornou solicita, me ajudando a entender os procedimentos. Não era minha intenção obter informações, seja como for, mas ela se mostrou muito satisfeita em ajudar.

A fila estava bastante organizada, a burocracia não comprometeu o atendimento e a espera foi pouca. Mas deu-me tempo de conversar sobre fraturas na perna com uma outra jovem senhora. Esta, ajaponesada, bonita, de certo modo, apesar dos descuidos com a aparência e o ar cansado. Acho que identifiquei-me com ela, nisso. O sorriso resignado, de quem depende ainda de alguém, era triste.

Ela sofreu um acidente tolo, mas terrível: virou o pé direito, descendo degraus, quebrando, assim, a perna e, consequentemente, rolou escada abaixo, luxando o joelho esquerdo. Não penso na dor que, em pouco tempo, fica no passado, mas no incômodo. Este, presente por muitos meses. Estar com as duas pernas comprometidas é o dobro de sofrimento, de dependência.

Pior, talvez, tenha sido a fala de seu médico: “minha senhora, se precisar correr por sua vida, desista. A senhora não correrá mais. E nem usará salto.” A informação me alarmou um pouco, já que quebramos os mesmos ossos e ela não tem placa e 11 pinos! A fratura no pilão da tíbia, responsável pela fala do médico, é bem complicada. Meu Dr. Gato já havia me dito que terei problemas futuros, mas os imaginava na velhice e, não, num futuro tão próximo. Quero poder correr e, quando muito necessário, usar salto.

A consulta foi tão breve como tudo mais, até então. A médica me perguntou o que aconteceu, eu contei-lhe. Minha tia acrescentou o detalhe “do gato” que, por mais irrelevante que fosse, levou a uma pequena discussão sobre o comportamento dos felinos. Ela avaliou brevemente as radiografias, olhou, mais por curiosidade do que por obrigação, meu pé, sem se levantar de seu lugar, e me desejou boa recuperação. Saí de lá sem saber mais do que sabia quando entrei.

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Escrevo tantas linhas e tantas palavras para falar tão pouco e de um assunto tão sem interesse em homenagem à Rosamunde Pilcher, de quem estou lendo O Regresso. São 1091 páginas de muitos detalhes e pouca história. Eu teria escrito um conto, quando ela escreveu um livro imenso. Parabéns a ela, é muito difícil ser prolixa.

Uma semana sem Cristo

Com pouco mais de cinco semanas de perna quebrada, perdi:

• A evolução e o carinho dos meus filhotes. Meu sonho de ter bebês em casa se realizou, mas ficou pela metade. Depois de quase um mês sem conseguir ir até eles e sem os deixarem vir até mim, eles não me conhecem mais, não se interessam por mim e, principalmente, cresceram e deixaram de ser bebezinhos miudinhos longe dos meus olhos;

• O último fiapo de carinho que eu sentia pelo meu pai. Ele está cuidando dos gatos. Ok, agradeço. Mas ele faz questão de fazer TUDO exatamente ao contrário do que eu peço. Não é à toa que Cristo fugiu. Não é à toa que um dos filhotes quase fez o mesmo. Ele me faz sentir raiva e frustração;

• Oportunidades. Um punhado delas. De todos os tipos;

• Paciência. Depender dos outros é tão insuportavelmente desagradável que eu fiquei mal agradecida por diversas vezes. Shame on me;

• Privacidade;

• Massa muscular, força e equilíbrio. Minha coluna está em frangalhos e estou ferrada para recuperar e/ou consertar tudo que se estragou;

• Até agora, pouco mais de cinco semanas. E, pior, seis fins de semana, incluindo um com uma hora a mais.

Mas o mais terrível de tudo, sem sombra de dúvidas, foi perder Cristo. Faz com que tudo isso aí  em cima tenha sido totalmente em vão. Faz com que meu coração esteja em frangalhos, meu humor, péssimo e minha carência, em potência máxima. Perdi um filho, meu melhor amigo, meu companheiro. E nem tenho ideia se ele está vivo, em perigo, ferido… :'(

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32º Dia

Querido diário, lá se vão 32 dias desde que quebrei a perna.

As pessoas têm gostado de dizer que sou forte, guerreira, como seu eu fosse uma heroína e, não, alguém que está simplesmente arcando com as consequências de uma decisão errada. Como se isso fosse voluntário, só que eu  não tenho escolha. Claro, tenho a escolha de encarar tudo de bom humor e, na medida do possível, é o que faço, já que mau humor não ajuda em nada. Só não imaginei que teria que ser Pollyanna por tanto tempo.

Mais uma vez, subestimei minha fratura. Com 30 dias, já me imaginava voltando a caminhar, mas ainda não posso sequer apoiar o pé.

Estou fazendo Fisioterapia e, surprise surprise, não é tão ruim quanto me alertaram. Também não é gostoso, mas é minha oportunidade diária de sair de casa e ver pessoas diferentes. O que também não é gostoso, mas distrai. E meu pé que, apesar de não ter sido fraturado, é o problema, voltou a se mexer. Ainda está MUITO inchado e dolorido, mas está indo. Vejo progressos.

Dona Conceição, companheira de Fisio, 80 anos, 4 vezes graduada em cursos na área da Educação, mãe de uma brilhante mulher com 8 graduações e avó de vários netos que seguem o caminho dos estudos, deu-me o precioso conselho: “esteja sempre linda e bem cuidada”. Para ser bem sincera, nem estou tentando. Meu cabelo está caindo em tufos. Minha massa muscular derreteu todinha e mal tenho forças para dar meus pulos de muleta. A posição em que passo meus dias mais a comilança que me é desnecessária, mas que alegra a vovó, estão me deixando pançuda. Me mantenho depilada e de unhas aparadas e isso é tudo em estética que tenho me empenhado – mesmo porquê tem mais a ver com higiene…

Nesses 32 dias, não vi as 6 peças de teatro que eu queria, não fui à FNAC conhecer o Alexandre Beck, o pai do Armandinho, não fui aos festivais gastronômicos e às exposições que estavam acontecendo. Pelo menos, comemorei meu aniversário, terça, na casa de queridas amigas, que me prepararam uma festinha vegana. Uma pausa maravilhosa para a alegria e o amor. Mas, na maior parte do tempo, estive tão somente definhando, em uma casa que não é a minha. Deixei o Diabo montar sua oficina na minha cabeça vazia e, por vezes, fiquei amarga e infeliz. Mas estava sendo salva, paulatinamente, por Cristo, o gato, que vinha me dar cabeçadinhas, ronronando pouquinho, porque ele é contido, e me fazendo companhia. Só que, na sexta, ele sumiu.

armandinhobolo

cristo1Demorou tanto a acontecer que imaginei que não mais aconteceria. Por 30 dias, ele foi livre e não foi embora. Daí, resolveu que era hora e se foi… Quebrei minha perna para evitar que isso acontecesse e, de perna quebrada, inútil, não tive como evitar o inevitável, já que meu pai é teimoso e incapaz de enxergar as coisas pelo meu ponto de vista. As pessoas têm que parar de achar que gatos devem dar suas voltinhas. Não devem, não neste mundo, não nesta época. Há doenças, brigas, cães ferozes, arames farpados e cercas elétricas, pessoas ruins e trânsito intenso, tudo isso, contra os gatos.

Sexta, Cristo se foi, Pollyanna morreu e, desde então, sou só dissabor, um barco sem mar, um campo sem flor…