Evolução

A Louizy, que está em Paris curtindo a vida adoidado!, pediu para eu contar sobre a evolução da minha recuperação, aqui. Por mim, eu não contava! Culpe ela!

Terça, fui ao Dr. Bonitão. Fui à consulta bem menos molambenta do que de costume e valeu a pena: ele me chamou de “minha linda”. Ok, ok, ele teria me chamado assim mesmo que eu estivesse péssima, pelo mesmo motivo que o leva a me chamar de Pat: é da natureza dele. Mas ando me sentindo tão feia que, mesmo não acreditando na minha lindeza, fiquei feliz. Na verdade, o Dr. tem umas expressões faciais sensacionais que, por si só, me deixam feliz. Ele nem precisa falar nada. Se eu fosse um pouco mais tola, estaria apaixonada. Mas não sou.

A boa notícia é que estou liberada a andar com duas pernas! A má notícia é que não sei mais fazer isso. Ele me mandou – mandou, não pediu – trocar de fisioterapeuta o quanto antes, o que me traz um problema: ter que telefonar. Odeio telefone. Por causa do meu ódio, estou com um dente quebrado há um mês ou mais. Mas vou me esforçar. Por ele. Só depois de 20 sessões, volto a vê-lo. E olha que eu não estou apaixonada, hein?! Haha

Tem também o fato de que dente quebrado incomoda, mas não andar é uma porcaria. E tem o fato de que eu quero me mudar logo! Preciso das minhas coisas, do meu espaço, dos meus gatos e da minha responsabilidade de volta!! Se eu ficar mais tempo do que o estritamente necessário na casa da minha avó, além de ficar obesa, enlouqueço e empobreço de vez. Há sites demais me tentando… Não… Consigo… Me… Controlar… Por… Muito… Tempo…

O mais estranho é que quero comprar calçados (Converse e Ahimsa), mas os pinos me impedem de calçar canos altos, porque incomodam muito. E é exatamente o modelo que eu quero. Vai entender. Enquanto preciso de fisioterapia, dentista, emprego/trabalho, academia, casa e liberdade, tenho me empenhado, basicamente, pelos sapatos. Empenhado, não comprado.

Off-topic: Jezebel é macho e, agora, se chama Benjamin. Eu sabia que ele era macho desde que nasceu, mas tinha esperança de ter mais uma menina na família e ele é tão meigo… É menino, boludo e será desbolado em junho. ¯\_(ツ)_/¯

Obs.: sim, sou dessas que muda de assunto e encerra o post.

Me me me*

NO Livro do Riso e do Esquecimento, Tamina ouve. Todas as pessoas que acreditam ter algo a dizer sobre si a procuram, porque ela ouve e não interrompe. Gosto deste trecho:

“Mas será que ela escuta mesmo? Ou não faz outra coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? Não sei, e isso não tem muita importância. O que conta é que ela não interrompe. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu…’ e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu…’, 

“Essa frase, ‘é exatamente como eu, eu…’, parece ser um eco aprovador, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo: na verdade, é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar nosso próprio ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro. Todo mistério da popularidade de Tamina é que ela não deseja falar de si mesma. Ela aceita sem resistência os ocupantes do seu ouvido e nunca diz: ‘é exatamente como eu, eu…’.”

Eu não tenho sido Tamina, assim como não me poria no lugar dos que falam e falam. De fato, eu passei boa parte da vida me policiando para não falar demais, muito menos sobre mim, pessoa desinteressante para os demais. Meu exercício de falar e falar e emitir opiniões acontece basicamente aqui. Fora deste meu mundo particular, prefiro ouvir.

Claro, houve uma fase em que eu não era “eu”. E falei e falei até me encontrar. E não me arrependi de ter falado demais, como disse a má língua, mas de não ter falado demais mais cedo.

Mas, agora, estou sem saco para a história do outro. Parei de ler blogs, reduzi minhas espiadas no Facebook e me cansei do Whatsapp. Sei que é fase e tem a ver com meu estado jururu de ser. E tem a ver comigo, tendo que contar a história de como quebrei o tornozelo, sempre, repetindo, sempre, como Sísifo. Fico com vontade de passar o link do post, mas tenho me obrigado a ser gentil, afinal, ninguém tem nada a ver com meu mau humor. Bom… Não “ninguém”, mas os desconhecidos curiosos não têm. Sorrio, conto a história sem muitos detalhes, ouço as mesmas piadinhas sobre trocar lâmpadas/bênçãos do Senhor, sorrio mais um pouco e sempre alguém diz: “imagino a dor”. Eu não imagino.

sisifo

Não imagino nem me lembro dela. Stephen King se lembra da dor de ouvido que teve aos 4 anos de idade. Eu não me lembro nem quero lembrar da dor de quebrar o tornozelo há 71 dias. Sei que foi ruim – comparei ao parto natural -, sei que não chorei. Lembro que senti medo de nunca mais ver Cristo, que havia ficado no telhado e sobre o qual eu não recebia notícias – foi a única vez que eu chorei.- Senti muita fome e muita sede, que o Dr. Bonitão não me permitia “saciar” – palavra horrorosa! – Só. Eu passei as 14 horas de espera me projetando para um futuro em que eu olharia para este dia e diria: “que aventura”. Ainda não cheguei neste ponto, mas estou próxima.

Dor não é mérito, não é um presente, não é algo que eu queira guardar comigo. Deixo ela lá, no momento dela.

Mas tê-la sentido me permitiu ser mais solidária com a dor do outro, o que a sente. Dr. Bonitão achou engraçadinho eu considerar “meus amigos” os pacientes quebrados, que aguardavam atendimento nos dias de meus retornos, e sempre pedir notícias deles. Naquele momento, éramos amigos, sim. Somente nós, ali, entendíamos a dor do outro, que incluía a dependência, a impotência e um desespero intenso, mas calmo, para não incomodar os “inteiros”.

Pois é… Hoje, se não for para você me falar, em poucas palavras, da sua dor física, eu não me interesso por você. Não me conte sobre sua experiência com a doença da sua mãe ou do seu pai, não me interessa a sua mágoa profunda, não me interessam os seus sentimentos. Não me interessa o seu “me me me” sobre o mundo ou sobre mim. E, principalmente, não me interessa sua opinião sobre a dor de alguém, quando o assunto é esse alguém. O mundo gira em torno dos umbigos dos que sentem dor, não dos que acham que a conhecem.

* Eu eu eu

O Livro do Riso e do Esquecimento

Li O Livro do Riso e do Esquecimento em 1996. Era emprestado da minha então amiga Vivi. Eu havia lido A Insustentável Leveza do Ser, mesmo tendo detestado o filme, e estava apaixonada por Milan Kundera, e ela sugeriu esse outro. Amei. E, como era do meu costume naquela época, copiei frases e trechos com os quais me identifiquei.

Em 1996, eu não escrevia nem lista de compras. Vivi achava um absurdo eu estar namorando e nunca ter escrito uma carta de amor para o sujeito. De certa forma, foi ela quem me empurrou para a escrita e tomei gosto. Não escrevi a tal carta de amor, nem poeminhas, mas textinhos. Já até postei um aqui. Mas, lendo estes trechos dO Livro, Milan me dissuadiu a avançar na escrita:

“Escrevemos livros porque nossos filhos se desinteressam de nós. Nós nos dirigimos ao mundo anônimo porque nossa mulher tapa os ouvidos quando falamos com ela.”

“A irresistível proliferação da grafomania entre os políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes me demonstra que todo homem sem exceção traz em si sua potencialidade de escritor, de modo que toda a espécie humana poderia com todo direito sair na rua e gritar: Somos todos escritores!

“Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras.

“Quando um dia (isso acontecerá logo) todo homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais.”

Fiquei com vergonha, me senti desinteressante e pretensiosa por tentar escrever. Ok, eu não tinha intenção de livro, nem de blog, mas achei que realmente eu não tinha nada a acrescentar. Com o tempo, me esqueci do Milan, por pura necessidade. No começo, eu precisava me expressar através dos meus textinhos. Resolvia dores de amores e tentava me entender através das personagens, quase sempre ruivas e problemáticas. Me encontrei, acho, e deixei minha pretensão aflorar. Comecei a procurar “ouvidos anônimos” para minha ladainha. Você, talvez. Ou eu apenas estava seguindo o fluxo, num momento onde todo mundo tinha um blog, todo mundo era escritor, ao menos por 120 dias.

Eu tenho um blog, mais ou menos abandonado, há 5 anos. Tenho inúmeras ideias para posts que nunca saem da cabeça pro computador. Tenho algumas ideias para contos que talvez eu nunca escreva. Estou lendo Sobre a Escrita, do Stephen King, para me situar sobre a escrita e saber se ela é para mim ou se devo tirar o cavalo da chuva de vento que, segundo a minha avó, vem por aí!

Eu gosto de escrever. Não costumo reler posts e textos, mas gosto que eles estejam a minha disposição. Gosto que me leiam, também. Gosto que me gostem.

Nunca vou ter a facilidade de escrita que Milan e Stephen parecem ter. Meus pensamentos fluem direitinho, mas se perdem quando passam pelo teclado. Já perdi boas histórias por pensá-las longe do computador. Mas as histórias que conseguem ser escritas ao mesmo tempo em que o pensamento voa são bacaninhas, eu acho. São surpreendentes e assustadoras por serem independentes do meu eu. Não sei de onde vem nem como chegam onde chegam e, por isso, me dão prazer.

O Livro do Riso e do Esquecimento é de 1978, mas é muito atual e interessante. Recomendo.

5 anos de Pitacos

Há 5 anos, eu resolvi fazer disto aqui meu diário. Eu detestava a vida que eu levava e tentava me adaptar, me encaixar. Deixei aflorar uma dose de futilidade libertadora e escrevi abobrinhas à beça. Torrei dinheiro com maquiagens e esmaltes, que doei para outras pessoas, em sandálias com as quais eu não conseguia andar e me cansei. E, cansada, parei de comprar, comecei a falar de coisas mais sérias, aderi ao vegetarianismo e acumulei gatos. E me cansei um pouco mais.

Há um ano, eu cansei até desistir. Mas cansei de estar cansada e percebi que este blog é minha muleta e que preciso dele para seguir gosto de tê-lo por perto. Há tempos, não me preocupo se alguém me lê, mas adoro as pessoas que conheci aqui e que fazem parte, mesmo que ligeiramente, da minha vida. Hoje em dia, não me importo se “meus inimigos” me lêem, porque não devo nada a ninguém e não tenho nenhum constrangimento de ser quem sou. Então…

Pitacos chegou aos 5 anos. Eu, aos 41. E estamos aqui, mesmo nas ausências.

ISS_5188_00747

Sunnydale

Como Cristo sumiu numa sexta-feira 13, eu ainda nutria a supersticiosa esperança dele voltar na sexta-feira da Paixão de Cristo. Mas ele não voltou. Acredito que não volte mais.

Minha vida também não voltou ao normal, mas acredito que volte. Um dia… Meus ossos ainda ainda não coloram. Mas irão. Devagar, mas irão. Dizem que é falta de cálcio, mas eu sei que é falta de ronrons.

E a falta de ronrons, de atividade física, de lazer, de álcool deve ter feito com que uns hormônios bacanudos, tipo ocitocina, dopamina e serotonina, faltassem, também. Não, não fiz exame de sangue para saber, mas tenho sintomas.

Felizmente, nem tudo está perdido. Netflix tem Buffy e, apesar dos boçais que fazem as legendas; das maquiagens, esmaltes e sapatos horríveis da década de 1990; da terrível destruição que fizeram no lindo cabelo da Sarah Michelle Gellar; dos erros de edição e continuísmo; dos mortos e mortos-vivos que respiram, Buffy ainda é das melhores séries de todos os tempos.

A séria é divertida, inteligente e recheada de personagens maravilhosos! Angel sofrido é patético, mas, mau é muito gato. Boreanaz não é exatamente um bom ator, mas não consigo imaginar mais ninguém nesse papel. Oz é adorável e muito interessante. Drusilla é sensacional: louca, pálida, má e com os melhores vestidos e esmaltes da vida! Spike é divino! De longe, meu favorito.

Comecei a assistir na sexta e já estou na terceira temporada, de sete. Daqui a pouco, revezo com Angel.

spike-dru

Essas fugas para Sunnydale têm mantido um pouquinho da minha sanidade. Mas recomendo Buffy e Angel para quem está bem e só quer se divertir, também.