9 gatos

É curioso… Algumas pessoas acreditam que eu tenho gatos porque sou infeliz (ou mal amada, frustrada, etc.), sendo que, de fato, eu era infeliz (e mal amada, frustrada, etc.) até ter um gato.

Minha felicidade não aumenta na medida em que eu acolho mais gatos. Minha gratidão e meu amor, sim.

Homens de branco

Em 2012, depois de uma série de experiências estranhas com médicos, escrevi um post reclamando da classe. Acho que não generalizei, só citei casos, mas teve médico ofendido.

Ainda acho que tem MUITO picareta no ofício, muita gente que não sabe lidar com gente, muita má vontade, muito prepotente exercendo a medicina por dinheiro, pura e simplesmente, e ainda acho que não é profissão que caiba nada disso. Mas… Quebrei a perna.

E quebrar a perna me me tornou simpática à classe, já que me fez reparar em coisinhas chatas à beça que os médico enfrentam. Tipo, o valor que a UNIMED BH paga numa consulta, por exemplo. R$ 70,00. “Por 15 minutos?”, pergunta você. Às vezes mais, às vezes menos do que 15 minutos. E, de toda forma, é pouco. Tirando os impostos, dá uns R$ 40,00. O sujeito precisa de muitos 15 minutos para fechar as contas no fim do mês.

E tem os palpiteiros. Ah, os palpiteiros me irritam! Já ouvi desde “que falta de capricho do seu médico pra dar pontos” – porque, né?!, ele poderia ter feito uns pontos cruz, mas preferiu só suturar, mesmo – a “pela minha experiência em medicina, ele colocou a placa no lugar errado” – e a pessoa nem sequer vai a médicos para ter qualquer experiência em medicina. E se o osso quebrado não é o lugar de por a placa, onde seria? Melhor nem perguntar… E tem ainda as recorrentes: pra quê tanto pino?, por que não tirou os pinos ainda?, por que ele te deixou tanto tempo sem andar?, por que você não vai a outro médico?

Pois é… Todo mundo tem opinião – geralmente, contrária à do médico -, todo mundo sabe muito, muito mais do que ele, todo mundo quer encontrar alguma culpa pro cara, nem que seja estética. Mas eu sei o porquê de tanto pino e o porquê deles ainda estarem aqui e o porquê deu ter ficado de molho por dois meses e, por isso, continuo indo ao médico que fez tudo direitinho e tem boa vontade de me explicar tudo direitinho. Eu respeito o doutor e ele me respeita. Para mim, está de bom tamanho. E quem está sempre achando ruim, que procure uma segunda opinião.

P.S.: “e ele tem doutorado?” Ah, me poupe!

P.P.S.: pessoa continua mancando, mas o tornozelo deu o ar da desgraça e começou a doer. Meu médico faz milagres, mesmo!

Meu pé esquerdo

_ Ei, Pat. Já tá andando?
_ Tentando.
_ Tá andando na piscina, como eu te falei?
_ Não gosto de piscina…

Ele me olha com desprezo:
_ Você gosta de quebrar a perna? Não?! Então, você não faz só o que gosta. Dentro da piscina, o corpo fica mais leve e você solta o tornozelo.
_ Meu tornozelo não solta. Ele não está sequer mexendo.
_ É porque você está com medo da dor…
_ Não tenho medo de dor. E ele não dói.
_ Claro que dói! Quer ver?! Me dá seu pé! – ele se agacha, pega meu pé e (tenta) gira, torce, empurra. Não mexe e não dói.

(Até hoje, não tinha reparado no quanto as mãos dele são gigantescas!!)

_Tem que doer. Vem cá. Agacha. Faz assim – e ele demonstra.
_ Não tem como.
_ Tenta – tento, o que é ridículo, mas não vai.
_ Deixa essas muletas aí e anda – ando. Aleluia, irmãos! Mas ando mal e porcamente.
_ Anda olhando pra mim – com prazer. ;-P
_ Mas anda sem mancar, Pat – só rindo. Andar sem mancar com o pé imóvel?! Ah, Doutor Engraçadinho! – Para de mancar! Anda direito! – não rola.

Enquanto preenche minha ficha, ele me olha com cara de cão sem dono:
_ É, Pat. Não estar doendo me preocupa. Era para doer. Eu pus força (e eu pensando: pôs nada. Felipe põe 80kg de força, parceiro.)… Espero que você não esteja com nenhuma lesão nervosa…
_ Hahahahahaha. Três meses e meio sem andar (na casa da minha avó, sem Cristo, sem segurança pros pequenos, sem Pudim, sem Guapa, sem Pixie, sem independência, sem minhas coisas, sem sossego). Lesão nervosa é o que eu sou.
_ Tô falando do tornozelo (a cara de irritadinho dele é ótima!). Se em um mês, ele não melhorar, vamos ter que fazer uma artreoscopia, Pat. Eu não queria ter que fazer isso. Dá seu jeito de melhorar!

Darei. E meu tornozelo até está colaborando e começou a doer. Pouco, mas tem potencial para ser insuportável. E se não der:

doctorcat

(Às minhas queridas amigas ávidas por romance, este não é um terreno fértil. Dr. Bonitão é profissa e eu não consigo enxergá-lo como outra coisa, senão meu médico. Um médico bonitão – mas não demais -, com as melhores expressões faciais da vida e com as mãos enormes e macias.)

 

Viagem

Tenho uma amiga morando na França. Outra, em Boca, na Flórida. Tenho um amigo em Florianópolis. Uma prima na Nova Zelândia. Tenho amigas em Recife, Algodões, Cuiabá, Vitória, Fortaleza, Rondonópolis, São Paulo, Rio de Janeiro. Todos já me convidaram para uma visita.

Se eu procurar mais um pouco, encontro mais amigos, mais lugares para ir, mais motivos para viajar. Mas tenho 11 pinos na perna e um pé que se recusa a cooperar. Tenho pela frente bastante fisioterapia e algumas revistas íntimas nas salinhas dos aeroportos.

Quem disse que viver é fácil?! 😉

Plástica

Um dia desses, um cara, na fisioterapia, me perguntou se farei plástica no tornozelo. Entendi a pergunta. As cicatrizes estão horrorosas, a base do tornozelo está muito larga, por causa dos pinos, a perna está com atrofia muscular, ou seja, muito fina – mas melhorando! -. No meio do caminho, há uma depressão, causada pela necrose. O trem tá feio! Mas, mesmo feio, não penso em “arrumar” mais do que o necessário. Quero que minha perna funcione, não me importo que ela fique feia.

Em compensação, todo o resto que está feio me incomoda. A atrofia muscular não se limita à perna doente. Ela se expande por todo o corpo sedentário. A bunda cai. A barriga estufa – e cai. O peito cai. O rosto cai. Afinal, o corpo é um circuito onde tudo se comunica. A comunicação geral, hoje, é que eu me acabei.

Envelheci um bocado nestes 3 meses de perna quebrada. Hoje, se eu quisesse fazer um “mini lifting”, teria o que puxar. E se até um ano atrás eu era mortalmente contra (eu) fazer plástica – pelos animais testados, pelo risco desnecessário, pela vaidade desnecessária -, hoje, o que me impede é só dinheiro. Ainda bem!

Sem dinheiro para puxar, esticar e alisar, tenho que me contentar em tentar melhorar aos poucos. Investir em academia – farei sem preguiça, assim que me liberarem, já que aguento firme a tortura da fisioterapia -, em óleos e cremes – veganos! -, em vitaminas C e D – sol! – e tentar manter o bom humor, porque chororô envelhece anos!!

E se depois de tudo isso eu ainda precisar – subjetivamente, eu sei – de plástica… Bem… Tem cirurgião que divide no cartão! 😉

Deus me livre!

E, um belo dia, você se descobre apaixonada por ele. Obcecada. O livro que você estava adorando foi abandonado. A maratona de Arquivo X, pela qual você havia ansiado, foi deixada de lado. Tudo isso porque você só consegue pensar nele. O tempo todo. Até vai dormir mais cedo, na esperança de sonhar com ele. Às vezes, dá certo.

Como você já decorou todas as reações dele, mas sempre se desconcerta quando ele fala com você, começa a planejar. Tem três frases decoradas para cada possível resposta numa conversa de até 20 minutos. Depois disso, se chegar a isso, estará por sua conta. E se ele não seguir o roteiro? Melhor adiar o encontro até ter pensado em mais possibilidades. Ou não. Quando se encontrarem, ele falará exatamente o que foi esperado e, mesmo assim, nenhuma das três respostas ensaiadas sairá. Você ficará muda, de boca aberta, quase babando.

Talvez, se ele tiver algum interesse em você, até ache bonitinho o seu desespero desconcerto. Pode achar bonitinho sem te querer, também. Pois é, corre o risco dele não te querer. Como viver?! Em negação. Ou num universo paralelo onde ele te queira. Ou no mundo da fantasia que você já criou e vive em repetição, ensaiando para o dia em que tudo for realidade. Vai que…

E por que cargas d’água ele haveria de não te querer? Ele te acha bonita, você sabe disso. Mas é só o que você sabe dele. O resto, além das impressões que você tem (e aumentou em grau máximo para simular conhecimento de causa), é totalmente desconhecido. Você nem sabe se ele tem mulher ou se gosta de homem. Você supõe coisas, mas saber, não sabe. 

Não sabe se ele é casado. Ou petista. Se ele odeia animais ou é fanático por futebol. Se é racista ou se quer ter um punhado de filhos. Talvez, tudo isso junto. Mas no seu universo inventado, ele é tudo o que você sempre quis e, se em realidade ele falhar, você está pronta para perdoar. Ou não?

Não. Nada pior para um ilusão do que uma verdade inconveniente. E, de repente, você tem certeza de que ele não é nada daquilo que você sonhou. Ele é um sacripantas, um energúmeno! Como você foi tola de não ter enxergado isso!! Abra seus olhos, mocinha! Saia dessa fria!! 

Pronto. Já pode voltar para seu livro. Mulder e Scully também esperam por você. Vá ser feliz!

Dia da Olívia

A Olívia foi resgatada sem uma das pernas e com as mamas cheias, como contei aqui. E, apesar de três protetoras que cuidam ou já cuidaram de gatos amputados me garantirem que não existe síndrome de membro fantasma em gatos, Olívia as desmentia. Ela se agitava, pulava e gritava quando minha mão se aproximava do local onde deveria estar a perna. Muitas vezes, sonhava e chorava. Até que, num belo dia, ela conseguiu pular um muro impossível e voltar grávida.

Eu poderia tê-la castrado às pressas para evitar filhotes. Era uma suposta gravidez de um dia, quando ela voltou. Poderia, mas não o faria. Não só porque sou contra aborto, mas porque achava que ela precisava dessa experiência, já que, da última vez, a maternidade tornou-se tragédia.

Ela foi uma grávida tranquila. A síndrome passou por completo. Ficou pesada para o tamanho e as três pernas, mas deu tudo certo. O parto foi complicado só pra mim. Cristo recebeu as crianças muito bem, nem parecia a fúria assassina que havia sido. Éramos uma família.

Nasceram 5 bebês lindos. Eu ficaria com 2 e doaria os outros, mas me apeguei. Eles todos se dão muito bem, são fofos, carinhosos. Dois deles andam amassando pão! Na quinta passada, levei Olívia e Carlota para serem castradas na Cão Viver. Os meninos ficaram tristes, sentiram muito a falta delas, nem comeram.

Eu tive uma noite terrível, pré-castração. Fiquei ansiosa, pensando em tudo o que poderia dar errado, mas deu tudo absolutamente certo. Até dar remédio não está sendo tão difícil.

Para minha família voltar a ser completa, faltam os três que estão lá na casa antiga. Meu coração fica apertado em pensar neles, mas fiz o meu melhor, diante de tudo. Muito em breve, estaremos juntos.

Também falta Cristo…

Enfim, é dia das mães e meus parentes foram comemorar. Eu fiquei. A mãe que mais me interessa, neste momento, é a Olívia. A melhor mãe que eu conheci e, por acaso, minha filha!

Olivia-2416Foto: Vinnicius Silva

 

Correios – até quando?

Eu já reclamei dos Correios um zilhão de vezes. Já que Lula curte uma comparação com FHC, bom, na época do FHC era a estatal mais confiável do Brasil. Hoje… Aliás, há uns 16 anos, a coisa só decai. Serviços cada vez mais caros e ineficientes.

Meu primo me disse que o Senado aprovou a privatização dos Correios. Espero que se concretize. Entre outros motivos, abre-se concorrência e outras empresas podem começar a fazer o serviço. Porque, por enquanto, por causa de protecionismo, há coisas que só os Correios podem fazer.

E há coisas que os Correios deveriam fazer, mas não fazem. Como entregar encomendas, por exemplo. O rastreamento já não funciona bem faz um tempo. Muitas vezes, a encomenda fica lá em Pernambuco até chegar na sua casa, em MG, assim, de repente. Outras, você verifica que saiu pra entregar, fica em casa esperando e, quando dá o refresh, sua encomenda está voltando para SP, porque tentaram te entregar há 10 minutos e você supostamente não estava em casa. Só que você estava em casa. E não há nenhuma notificação em sua caixa do correio garantindo que a tentativa foi feita. Sei lá. Imagino que o carteiro estava com fome e resolveu ir lanchar em vez de me entregar a encomenda pela qual eu paguei R$ 19,00 de frete para receber hoje!

E você pensa em reclamar no site dos Correios? Boa sorte.

Subnanocelebridade

Quando eu era adolescente, queria fazer algo notável. Aceitaria de bom grado os 15 minutos de fama prometidos por Andy Warhol, mas, infelizmente, eu não tinha nenhum talento notável ou beleza notável ou inteligência notável. Eu era mediana em tudo, o que não é notável. Enfim, fui uma adolescente fadada ao esquecimento… :-(

Desde que quebrei a perna, tenho vivido, tardiamente, intensos minutos de fama. Primeiramente, no hospital, como já contei. Depois, na primeira clínica de fisioterapia. Hoje, na segunda clínica.

Era a primeira consulta, então, conta-se parcialmente a história, omitindo os detalhes sórdidos (o motivo), para evitar-se o choro, e testa-se o pé. E ele não mexe. O fisioterapeuta diz: “se doer, me avisa” e empurra meu pé, com força. E nada. Nem dor, nem movimento. “Vou passar seu caso para todos”, ele diz. E passa. Em pouco tempo, uns 8 fisioterapeutas estão empurrando, puxando, medindo, apalpando, torcendo, estralando meu pé. Mas o movimento necessário quase não existe. Pela medição, faço 8º dos 45º esperáveis.

Ninguém quer se ocupar da doninha que está iniciando os exercícios. Todos gravitam em torno de mim. “Olha, uma fratura no pilão da tíbia! Você nunca tinha visto isso!”

Enquanto gira meu pé, a moça pergunta: “Dói?”

“Não, não dói.”

“Nadinha?” – a cara de desconsolo acompanha a pergunta.

“Não.”

“Mas tem que doer. Se não doer, não há melhora.”

E todos juntos se esforçam ao máximo para trazer a dor.

“Ok, doeu. Deu uma fisgadinha.” – e todos se alegram. Não foi dor, foi só um repuxo nem tão desagradável, mas minto para manter as esperanças.

Pois é. A fisioterapeuta que prometeu que eu voltaria a andar, a correr e a usar salto falhou horrivelmente. O fisioterapeuta que me prometeu dor, ainda não conseguiu. Mas está ok, ele só teve uma chance. Aposto que conseguirá.

Assim, prevejo que as próximas 12 semanas serão de dor intensa. E bom que seja, porque é melhor do que não sentir nada. Segundo a turminha de fisioterapeutas, se não doer, não volta a mexer e entro na faca novamente. Isso, eu não quero!

Mesmo que eu fique manca, e é uma possibilidade, está tudo bem. O importante é que estou fadada a pertencer e me imortalizar no anedotário médico-fisioterápico. Minha história, da queda ao pé que, incensivelmente, se recusa a se mexer, será contada por várias gerações, sempre com o detalhe do gato – porque eu não conto, mas minha tia, fiel escudeira, espalha o “causo”! -. Meus 15 minutos de fama se cumprem e sou uma subnanocelebridade da ortopedia belorizontina.