Ele

Ele não era bonito nem precisava sê-lo. Era másculo, mas de uma maneira não muito boa, quase machista. Olhava como se estivesse avaliando, julgando, mas tudo nele me deixava exitadíssima.

Já estávamos naquele chove-não-molha fazia horas. Ele me olhava o tempo todo e, quando eu o encarava, ele virava o rosto. Para mim, convencida que sou, estava claro que ele me queria, como também estava claro que ele não queria me querer. Alguns homens insistem em dizer que eu os assusto, mas não sabia se era o caso.

Depois de umas cerveja e um pouco de whisky, ele relaxou e começaram-se as provocações. Ora parecíamos duas crianças, ora gato e rato num joguinho de pegar. Mais um pouco e ele já chupava sensualmente meus dedos melados de algodão doce. E eu comecei a iniciar todas as minhas frases apalpando a cocha dele. E como iniciei frases. Mesmo assim, nada.

Talvez não fosse hora nem lugar – lê-se: turma grande -, então, o melhor seria mudar de lugar, porque eu não aguentaria esperar por mais outra hora.

Falei baixinho, só para ele ouvir – mão na cocha, claro:

– Esfriou… Você iria ao carro comigo? Quero pegar minha blusa.

– Quer que eu te esquente?

– É bem essa a ideia – sorri docemente e me levantei.

Avisei à turma:

– Ele vai me esquentar… Digo, escoltar até o carro. Vou buscar minha blusa.

E o puxei mais que depressa, antes que alguém se desse conta de que estávamos saindo juntos.

Ao afastarmo-nos, ele disse:

– Você não está mesmo com frio…

– E você é inteligente…

Puxei-o para bem perto de mim, enlacei seu pescoço e o beijei. Beijo bom, bem dentro das expectativas, que eram altas. Outros tantos se seguiram e, quando imaginei que avançaríamos, mesmo estando encostados num muro, na rua, retrocedemos.

– Eu não sou um cara legal… – ele disse.

– Eu só quero uma foda, não um pai para os meus filhos – erroneamente respondi.

E ele me largou ali. Saiu ultrajado, ferido em seu orgulho. Nunca mais falou comigo. Acho que realmente assusto os homens…

Isso é uma estorinha. Assim como todos os posts da categoria “estorinhas”, é levemente baseada em fatos reais, mas nunca é uma indireta ou totalmente real. Não insista.

Amigo culto

Minha turma da oitava série é minha atual turma de sair e falar bobagens. No começo do ano, resolveu-se fazer um tal de “amigo culto”, onde se trocam presentes não materiais. Minha “amiga culta” ganhou uma estorinha. Ei-la.

Opostos

Ele é Armando. Eu sou Zaíra,

Ele havia levado um fora e amargava uma tremenda dor de cotovelo. Eu havia levado um fora e comemorava a liberdade recém-adquirida.

Ele chorava por ela. Eu curtia a vida. Ele sofria. Eu sorria.

E assim estávamos quando nos conhecemos: eu, me esbaldando no abre alas. Ele, tentando consertar o último carro alegórico, empacado na avenida. A Escola do coração não ficou com o título, mas me arrisco a afirmar que este foi o carnaval das nossas vidas.

Armando chegou ao final da Sapucaí aos prantos, exausto, derrotado. O contraste com minha alegria de “sonho realizado” era enorme e, talvez por isso, eu gostei dele.

A autoindulgência de Armando era irritante. Nenhum homem é tão coitado assim. Bem… Ele parecia ser. Mas, de alguma forma, essa existência meio trágica, meio patética dava um toquezinho de graça a ele, tinha seu charme.

Ou… Era carnaval e pierrôs, colombinas e arlequins apaixonados tinham tudo a ver com o cenário. Enfim, o importante é que eu o beijei como havia muito tempo eu não beijava alguém. Beijei com vontade, sugando todo aquele veneno que corroía o coração de Armando. E, quando finalmente nos afastamos, ele era outro! Eu, também.

Armando já não tinha ares de pierrô abandonado. Havia um novo brilho em seus olhos. Pude ver, então, que era um homem bonito. Não bonito demais, mas na medida. Já eu sentia uma doce melancolia dentro do peito. Uma saudade do futuro, daquilo que nós não viveríamos, porque, em breve, a vida voltaria ao normal e eu, à Minas.

Foram dias intensos. Armando descobriu que “amor” e “dor” é rima pobre. Eu descobri que nem tudo é “tanto faz”. Nossa história durou uma eternidade… Ou quatro dias. Mudou as trajetórias das nossas vidas e nos ensinou a sermos mais leves, mais inteiros, mais vivos.

Voltei para Minas. Armando ficou no Rio. Não trocamos contatos. Não me arrependo. Foi lindo, será inesquecível.

E é assim que estamos: ele ainda é Armando, eu ainda sou Zaíra – versões aprimoradas.

Em um relacionamento sério

E lá se vai Arnaldo, em desabalada carreira. Não é mais tão moço, deveria poupar-se para as coisas boas, usar tamanho vigor em atividades que dão prazer. No entanto, ele foge. Fico olhando.

O que Arnaldo não sabe é que o mundo é grande, mas nossos caminhos hão de se cruzar. É inevitável. Também não sabe, ou não acredita, que não há o que temer. Não, de mim.

Eu e Arnaldo nos encontramos enquanto eu saía da escura e sufocante masmorra do relacionamento sério. Eu estava cansada, porém, eufórica, tentando me desvencilhar dos últimos grilhões. Devo tê-lo assustado com minha empolgação. Ou com as correntes. Justo. Mas se ele acreditou que eu gostava da prisão e que o levaria para lá, é louco! Eu estava feliz por sair, não por ter estado dentro!

Não era de todo ruim, na masmorra. Eu via a luz do sol, sentia o vento no rosto, ouvia os passarinhos, mas era sob outra perspectiva. Liberdade abrilhanta e adoça a vida. Então, por que eu, logo eu, a quereria tirar de alguém?!

Arnaldo… Uma legítima força da natureza. Abrandada pelo passar dos anos, mas, ainda assim, intensa. No momento em que o vi, ele era a luz do sol, que não se aprisiona, não se possui, somente se aprecia. E assim o fiz! Talvez com muita vontade? Não sei. Mas sei que, logo, ele pôs-se a correr.

Desolada, gritei: “Ah, Arnaldo, não me temas! Eu não tiraria de ti o que mais me encanta. Quero que o mundo veja, aprecie e experimente meu encantamento. Meus sentimentos são por ti, mas são todos meus. Não têm peso, cor, volume, não têm cheiro ou sabor, não te fazem sombra. Portanto, não te preocupes com o que não vês ou sentes e, portanto, para ti não existe.”

Mas era tarde. Ele já ia, ao longe… Ainda hoje, meses depois, pode-se vê-lo a correr e correr.

E pode-se me ver no aguardo, incansável, ansiosa e com todas as portas abertas, desejando que o querer de Arnaldo cruze o meu.

Mesa branca

E, então, a relação morreu de anorexia, agonizante, sozinha, sem ninguém para lamentar…

Foi enterrada a 7 palmos. Não teve luto. Não mereceu missa de sétimo dia.

Meses depois, pessoa chega com uma pá para desenterrar os restos da coitada que, depois de morta, enterrada e esquecida, seria exumada.

Pessoa quis discutir a relação. Quis colocar os pingos nos is. Quis descobrir quem foi o culpado. Quis brincar de CSI com um sentimento que jazia inerte em solo infértil.

Mas não existia mais um corpo. Não existia mais nada. Nem um fantasma para se chamar numa mesa branca.

Acabou. Foi. Guarde as lembranças, se quiser. Siga em frente e não olhe para trás. Não há nada a se ver por aqui.

A Ceia

Há “milianos”, escrevi um “conto de natal” para um amigo vegetariano-chato! Sim, destes que passam por açougues gritando “assassinos!”. E ele odiou meu conto, disse que passei dos limites. Pode ser. Mas, vendo esta imagem, hoje, numa página de vegetarianos, me lembrei do conto. Deixo para você descobrir se passei de algum limite!

papeis-invertidos

A Ceia

 

Os primeiros raios de sol saudavam o novo dia. Amanhecia na fazenda do Nhô Lau.

Um silêncio suspeito pairava no ar; o galo não cantou, o bebê não chorou. “Sorte”, pensou Lau, “hoje levanto mais tarde”. Infelizmente, Lau levantou-se tarde demais.

“AHHH!!!”, gritou a negra Naná do quarto do bebê. Ele não estava no berço. Logo descobriu-se que nem em lugar algum da casa.

“AHHH!!!”, gritou Tiãozinho do celeiro. Os bichos haviam sumido. Não restou umzinho sequer para contar estória.

Estava explicado, assim, tamanho silêncio naquela manhã. Mas como explicar esses sumiços? O que teria acontecido durante a noite?

Algo estranho e sinistro, definitivamente. Os bichos da fazenda haviam se reunido no celeiro assim que todos na casa foram dormir. Mais um Natal se aproximava e Porco e Peru conseguiam prever o futuro trágico. Mas, se tudo desse certo, este ano seria diferente.

Convocaram a reunião já tendo em mente exatamente o que fazer. Só precisariam da ajuda dos outros bichos.

Na tentativa de evitar a ceia de Natal com leitão à pururuca e peru assado, as futuras vítimas decidiram sequestrar o bebê de Nhô Lau e Rosana para tentar um acordo.

E assim foi feito. Lalauzinho fora levado de seu quarto para uma gruta nos arredores da fazenda. Com ele, foi toda a criação de Nhô Lau. Os bichos se ajeitaram e acomodaram a criança, mas estavam ansiosos pelo fim do sequestro para, enfim, poderem voltar para o aconchego de seus lares.

Porco e Peru voltaram à casa no cair da tarde para a negociação. Mas algo saiu errado; nem Nhô Lau ou Rosana, nem Naná ou Tiãozinho conseguiram entender o sequestro e seu objetivo. Ninguém ali falava a língua dos bichos. Os bichos não falavam a língua dos homens. E estes, famintos e cansados de chorar e de procurar por Lalauzinho, resolveram comer um dos sequestradores no jantar. Prenderam o outro, para não fugir de novo.

Sem notícias, os outros bichos foram voltando à fazenda para ver o que havia acontecido. Quando descobriram o trágico destino do Peru e do Porco, o do Peru ainda mais trágico do que o do Porco, houve revolta geral.

Para a alegria da família, decidiram devolver Lalauzinho. Vingança é um prato que se come frio, é o que dizem. A dos bichos seria comida na ceia.

Véspera de Natal, Naná se preparava para o sacrifício do Porco, quando… “AHHH!!!”, gritou Rosana do quarto. Lalauzinho sumira de novo. Os bichos, também. Inclusive o Porco, resgatado por eles.

Desesperados, Nhô Lau e Rosana não quiseram saber de ceia. Este ano não haveria a comemoração do Natal a menos que Lalauzinho aparecesse.

E Lalauzinho apareceu. E houve uma bela ceia. Preparada pelos amigos do Peru. Mas nem Nhô Lau nem Rosana, nem Naná nem Tiãozinho a quiseram comer… No centro da mesa, Lalauzinho, já frio, mais que pronto para ser servido.

Moral da estória: não coma o filho de alguém. Tenha um Natal vegetariano.

P.S.: sou vegetariana, mas acredito no livre arbítrio. Seria lindo se o mundo me acompanhasse, mas não exijo, aliás, não peço isso a ninguém. “Cada um com seu cada um” é meu lema.

Menina má

E é bem assim: você passa em frente ao computador do seu colega de serviço e vê um chat piscando na tela. Você tenta desviar o olhar, mas alguma coisa lhe chama a atenção: seu nome. Sim, seu nome é bem comum, pode ser qualquer xará neste mundo, mas… Esse é seu nome, oras. E você não confia muito nesse colega. Na verdade, até gosta dele, mas não custa nada manter um pé atrás. O mundo anda tão competitivo.

Você para em frente ao monitor e, de repente, o protetor de tela começa a trabalhar. Sem nem perceber, olha prum lado, pro outro e cutuca o mouse. Volta a tela com o chat. Volta seu nome na tela. Uma olhadela, só uminha de nada, afinal, ele não vai voltar tão cedo. “Mas se me pegarem aqui?” Bobagem. Você é esperta e encontrará uma desculpa. Certeza.

Então você se senta em frente à tela e começa a ler o chat. Até se esquece do seu nome quando lê o que seu colega diz sobre como vai ferrar o chefe, quais os planos dele pro Carnaval, sobre a plantinha estranha que ele anda cultivando no banheiro da república. Você nem se importa dele ter lhe chamado de ridícula. Quem é ele para lhe chamar de ridícula? Um maconheiro clichê e ladrão de papel higiênico e DVD da firma. Um fulano cheio de ódio no coração, que se acha melhor do que os outros. Um canalha sem um pingo de vergonha…

Vergonha, você! Espionando. Logo você, tão certinha que chega a ser ridícula…

“Ah, a oportunidade faz o espião.”

E, quer saber? Ferrar o chefe é ferrar a firma que lhe emprega! Enviando o arquivo do chat pro patrão em 3… 2… 1!

Você se levanta, com a certeza de dever cumprido e com a leveza de consciência das pessoas corretas.

Quando seu colega retorna ao computador, antes mesmo de se sentar, é chamado à sala do chefe. Você sorri e lhe manda um tchauzinho. Menina má…

Um gato preto

A sorte me abandonou ainda no berço, quando um incêndio me deformou. Fui uma criança amaldiçoada pelo infortúnio, tive pólio, que me aleijou. Cresci para me tornar um homem azarado, pobre, feio, solitário. Nada em minha vida deu certo.

Diante deste precipício, não penso em uma só coisa que poderia me fazer mudar de ideia, que me impeça de pular. E, logo ali, diante da minha miséria, apenas um gato preto me observa, irônico, desafiador.

– Eu vou pular!

– Miau – ele responde, enquanto lambe elegantemente a pata de trás.

Observo o abismo enquanto imagino a dor do impacto no asfalto, lá embaixo. Com minha falta de sorte, não morro de imediato e passo horas e horas em agonia. Agonia… Em nada seria diferente da minha vida, hoje. Mas, ao menos, será o fim.

Avalio minha vida, deixo que ela passe, tal qual um filme, diante de meus olhos… Despeço-me mais uma vez de meu cachorro Bob, meu único amor, arrancado de mim pelo pessoal da zoonoses, que insistia em dizer que ele tinha leishmaniose. Ainda me lembro da súplica em seus olhos, da culpa em meu coração… Quem sabe nos encontraremos agora, Bob?! Quem sabe…

Miau… Meus pensamentos são interrompidos pelo maldito gato preto a se esfregar em minhas pernas.  Xô!

Ele me olha nos olhos e pisca um olho. O que significa? Xô, porcaria, xô! Mas ele não se afasta. Ao contrário, começa a escalar minha calça, ferindo minha pele com as unhas afiadas. Apoio na muleta e tento retirá-lo da minha perna, com cuidado, para não cairmos. E por que eu deveria ter cuidado para não cair se estou prestes a me jogar?! Não é por mim, é pelo gato.

Ele desce e se esfrega em minha muleta. Por um segundo ou dois, perco o equilíbrio. Ufa! Foi por pouco…

O gato se afasta, lentamente, e meu olhar o acompanha até perdê-lo de vista…

Pronto… O gato se foi e, com ele, toda minha concentração e esforço para cumprir esta última tarefa. A mais fácil da minha vida. Arruinada. Maldito seja o gato!

Saio cuidadosamente do beiral em que me encontro e parto em direção ao gato. Não quero mais morrer. Quero dar leite ao gato, quero aninhá-lo em meus braços. O gato me salvou. É o gato preto da minha sorte!

Demoro a encontrá-lo, sobre o muro, a me observar, novamente. Pisca um dos olhos. Parece me sorrir. Desajeitadamente, tento chegar até ele. Tento convencê-lo a descer, mas não tenho nada que possa interessá-lo… Gatinho, psiu, psiu, gatinho…

Ele vira as costas para mim e desce do muro, do outro lado. Devo desistir? Sim…

Volto para casa, arrastando meu corpo cansado e disforme, como sempre, mas sentindo-me bem, como nunca. Há razões para se viver. Pequenas, inexplicáveis, mas reais. Como um gato preto.

P.S.: isso é uma estorinha.

 

Era uma vez, um sapo

Era uma vez, um sapo. Ele estava vivendo sob o bebedoro das galinhas e, um dia, fui lavar o bebedouro e ele saiu pulando, mas logo virou “estátua”. Mesmo assim, as galinhas o viram e começaram a gritar, tal qual donzelas em perigo. Cutuquei o sapo – que ainda não tinha nome, mas pensei em chamá-lo de Jaílson – para que ele voltasse para o bebedoro e ele deu um pulão e eu gritei! Ele aproveitou que eu estava de boca aberta e entrou… Eu o engoli…

Agora, estou com uma tossezinha nervosa, porque ele está atravessado na minha goela. Não desce, não sai. E fica fazendo cosquinha. Eu tusso e tusso, mas ele não sai do lugar, só cresce…

Contos do além túmulo

Como eu disse, no meu (triste) post anterior, houve um tempo em que eu preferia escrever textinhos a confrontar meu namoradinho que jogou na minha cara que ainda amava uma americana. Eis minha resposta:

MENINA-LUA  LUA-MENINA

Para Alexandre. BH, julho/ 96.

Mamante, O-Que-Anda-No-Céu, foi quem me contou esta estória:

Havia um tempo em que noites eram (quase) sempre claras, porque Lua era sempre cheia.

E, sempre em noites claras e quentes, Indiozinho ia até o riacho. Brincava com seus amigos peixes, nadava como um deles e, por fim, adormecia à beira do riacho. Sonhava e sorria. Lua, também sonhando, também sorrindo, vestia de luz o corpo nu do Indiozinho. Lua sonhava ser menina.

Essas noites eram sempre assim, até que, um dia…

Numa noite de Junho, uma noite de festa na Tribo, Indiozinho foi banhar-se no riacho. Para espanto dos peixes e da Lua no céu, ele não foi só. Trazia consigo uma menina, uma cara-pálida de cabelos cor-de-mel.

Pálida mesmo ficou a cara da Lua…

Indiozinho e Cara-Pálida brincaram noite inteira e, pela primeira vez, Indiozinho não dormiu às margens do riacho, à luz da Lua.

Por um longo mês, noites foram sempre assim. Até que…

Indiozinho não notava, Cara-Pálida tampouco, mas, a cada hora que passavam juntos, Lua brilhava menos. Indiozinho só tinha olhinhos para Cara-Pálida. Cara-Pálida só via Indiozinho. E a Lua, sozinha e triste, minguou que minguou, até que desapareceu.

Daí em diante noites seriam sempre assim:

Sem Lua, Indiozinho não ia mais ao riacho com sua amiga; noites eram escuras como breu…

Infeliz e abandonada, Cara-Pálida se embrenhou na floresta enegrecida. Teria que teria que encontra-se com O Grande Espírito, Wakantanka. Rezou noite, rezou dia, pediu, implorou: para Indiozinho ser feliz, Lua teria que estar no céu. Por Indiozinho, Cara-Pálida quis ser Lua.

Lua sonhava ser menina.

Sol se pôs, noite se fez. Havia um fiozinho de luz no céu e Indiozinho viu. Regada pela esperança daqueles olhinhos, sementinha de Lua, pouco a pouco, noite após noite, cresceu e se encheu de brilho. Virou Menina-Lua.

Coração de Indiozinho se encheu de luz e tudo voltou a ser como era antes. Por pouco tempo…

Céu estava apinhado de estrelas, Menina-Lua, mais clara do que nunca. Nunca houvera noite mais bela.

Ao entrar no riacho, Indiozinho viu, emergindo sob o reflexo da Menina-Lua, uma cara-pálida de pele alva como a neve e com cabelos que pareciam estar em chamas. Nunca a havia visto, mas sentia que a conhecia desde sempre.

E tinha razão; sua nova amiga era sua mais antiga amiga: Lua. Agora, menina. Lua-Menina.

Indiozinho só tinha olhos para Lua-Menina. Lua-Menina jamais tivera olhos para qualquer outro.

Menina-Lua se sentia traída e rejeitada.

A pobrezinha quis sumir, quis voltar a ser criança, quis o Indiozinho de volta, mas nada disso seria possível. Seu desejo de ser Lua fora realizado. Cabia a ela suportar as conseqüências até o fim.

Sobre Indiozinho e Lua-Menina, não se soube mais nada. Mas Mahhah Ich-hon, o Olhos Grandes, jura que jura que os viu, já adultos. Índio se tornou Pajé, o mais sábio e respeitado dentre todas as tribos. Lua-Menina, sua Lua-Mulher, a mais feliz e respeitada de todas as mulheres. E disse, também, que amor maior que o deles jamais existiu.

Menina-Lua, às vezes, se apaga, mas logo se enche de novo. É involuntário. Não é como a antiga Lua, não tem luz própria, depende dos humores do Sol. Aliás, depois que esqueceu o Indiozinho, Menina-Lua se apaixonou pelo Sol, mas este amava uma florzinha de uma terra distante. Mas esta é uma outra estória e deverá ser contada em uma outra ocasião.