A Ceia

Há “milianos”, escrevi um “conto de natal” para um amigo vegetariano-chato! Sim, destes que passam por açougues gritando “assassinos!”. E ele odiou meu conto, disse que passei dos limites. Pode ser. Mas, vendo esta imagem, hoje, numa página de vegetarianos, me lembrei do conto. Deixo para você descobrir se passei de algum limite!

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A Ceia

 

Os primeiros raios de sol saudavam o novo dia. Amanhecia na fazenda do Nhô Lau.

Um silêncio suspeito pairava no ar; o galo não cantou, o bebê não chorou. “Sorte”, pensou Lau, “hoje levanto mais tarde”. Infelizmente, Lau levantou-se tarde demais.

“AHHH!!!”, gritou a negra Naná do quarto do bebê. Ele não estava no berço. Logo descobriu-se que nem em lugar algum da casa.

“AHHH!!!”, gritou Tiãozinho do celeiro. Os bichos haviam sumido. Não restou umzinho sequer para contar estória.

Estava explicado, assim, tamanho silêncio naquela manhã. Mas como explicar esses sumiços? O que teria acontecido durante a noite?

Algo estranho e sinistro, definitivamente. Os bichos da fazenda haviam se reunido no celeiro assim que todos na casa foram dormir. Mais um Natal se aproximava e Porco e Peru conseguiam prever o futuro trágico. Mas, se tudo desse certo, este ano seria diferente.

Convocaram a reunião já tendo em mente exatamente o que fazer. Só precisariam da ajuda dos outros bichos.

Na tentativa de evitar a ceia de Natal com leitão à pururuca e peru assado, as futuras vítimas decidiram sequestrar o bebê de Nhô Lau e Rosana para tentar um acordo.

E assim foi feito. Lalauzinho fora levado de seu quarto para uma gruta nos arredores da fazenda. Com ele, foi toda a criação de Nhô Lau. Os bichos se ajeitaram e acomodaram a criança, mas estavam ansiosos pelo fim do sequestro para, enfim, poderem voltar para o aconchego de seus lares.

Porco e Peru voltaram à casa no cair da tarde para a negociação. Mas algo saiu errado; nem Nhô Lau ou Rosana, nem Naná ou Tiãozinho conseguiram entender o sequestro e seu objetivo. Ninguém ali falava a língua dos bichos. Os bichos não falavam a língua dos homens. E estes, famintos e cansados de chorar e de procurar por Lalauzinho, resolveram comer um dos sequestradores no jantar. Prenderam o outro, para não fugir de novo.

Sem notícias, os outros bichos foram voltando à fazenda para ver o que havia acontecido. Quando descobriram o trágico destino do Peru e do Porco, o do Peru ainda mais trágico do que o do Porco, houve revolta geral.

Para a alegria da família, decidiram devolver Lalauzinho. Vingança é um prato que se come frio, é o que dizem. A dos bichos seria comida na ceia.

Véspera de Natal, Naná se preparava para o sacrifício do Porco, quando… “AHHH!!!”, gritou Rosana do quarto. Lalauzinho sumira de novo. Os bichos, também. Inclusive o Porco, resgatado por eles.

Desesperados, Nhô Lau e Rosana não quiseram saber de ceia. Este ano não haveria a comemoração do Natal a menos que Lalauzinho aparecesse.

E Lalauzinho apareceu. E houve uma bela ceia. Preparada pelos amigos do Peru. Mas nem Nhô Lau nem Rosana, nem Naná nem Tiãozinho a quiseram comer… No centro da mesa, Lalauzinho, já frio, mais que pronto para ser servido.

Moral da estória: não coma o filho de alguém. Tenha um Natal vegetariano.

P.S.: sou vegetariana, mas acredito no livre arbítrio. Seria lindo se o mundo me acompanhasse, mas não exijo, aliás, não peço isso a ninguém. “Cada um com seu cada um” é meu lema.

Menina má

E é bem assim: você passa em frente ao computador do seu colega de serviço e vê um chat piscando na tela. Você tenta desviar o olhar, mas alguma coisa lhe chama a atenção: seu nome. Sim, seu nome é bem comum, pode ser qualquer xará neste mundo, mas… Esse é seu nome, oras. E você não confia muito nesse colega. Na verdade, até gosta dele, mas não custa nada manter um pé atrás. O mundo anda tão competitivo.

Você para em frente ao monitor e, de repente, o protetor de tela começa a trabalhar. Sem nem perceber, olha prum lado, pro outro e cutuca o mouse. Volta a tela com o chat. Volta seu nome na tela. Uma olhadela, só uminha de nada, afinal, ele não vai voltar tão cedo. “Mas se me pegarem aqui?” Bobagem. Você é esperta e encontrará uma desculpa. Certeza.

Então você se senta em frente à tela e começa a ler o chat. Até se esquece do seu nome quando lê o que seu colega diz sobre como vai ferrar o chefe, quais os planos dele pro Carnaval, sobre a plantinha estranha que ele anda cultivando no banheiro da república. Você nem se importa dele ter lhe chamado de ridícula. Quem é ele para lhe chamar de ridícula? Um maconheiro clichê e ladrão de papel higiênico e DVD da firma. Um fulano cheio de ódio no coração, que se acha melhor do que os outros. Um canalha sem um pingo de vergonha…

Vergonha, você! Espionando. Logo você, tão certinha que chega a ser ridícula…

“Ah, a oportunidade faz o espião.”

E, quer saber? Ferrar o chefe é ferrar a firma que lhe emprega! Enviando o arquivo do chat pro patrão em 3… 2… 1!

Você se levanta, com a certeza de dever cumprido e com a leveza de consciência das pessoas corretas.

Quando seu colega retorna ao computador, antes mesmo de se sentar, é chamado à sala do chefe. Você sorri e lhe manda um tchauzinho. Menina má…

Um gato preto

A sorte me abandonou ainda no berço, quando um incêndio me deformou. Fui uma criança amaldiçoada pelo infortúnio, tive pólio, que me aleijou. Cresci para me tornar um homem azarado, pobre, feio, solitário. Nada em minha vida deu certo.

Diante deste precipício, não penso em uma só coisa que poderia me fazer mudar de ideia, que me impeça de pular. E, logo ali, diante da minha miséria, apenas um gato preto me observa, irônico, desafiador.

- Eu vou pular!

- Miau – ele responde, enquanto lambe elegantemente a pata de trás.

Observo o abismo enquanto imagino a dor do impacto no asfalto, lá embaixo. Com minha falta de sorte, não morro de imediato e passo horas e horas em agonia. Agonia… Em nada seria diferente da minha vida, hoje. Mas, ao menos, será o fim.

Avalio minha vida, deixo que ela passe, tal qual um filme, diante de meus olhos… Despeço-me mais uma vez de meu cachorro Bob, meu único amor, arrancado de mim pelo pessoal da zoonoses, que insistia em dizer que ele tinha leishmaniose. Ainda me lembro da súplica em seus olhos, da culpa em meu coração… Quem sabe nos encontraremos agora, Bob?! Quem sabe…

Miau… Meus pensamentos são interrompidos pelo maldito gato preto a se esfregar em minhas pernas.  Xô!

Ele me olha nos olhos e pisca um olho. O que significa? Xô, porcaria, xô! Mas ele não se afasta. Ao contrário, começa a escalar minha calça, ferindo minha pele com as unhas afiadas. Apoio na muleta e tento retirá-lo da minha perna, com cuidado, para não cairmos. E por que eu deveria ter cuidado para não cair se estou prestes a me jogar?! Não é por mim, é pelo gato.

Ele desce e se esfrega em minha muleta. Por um segundo ou dois, perco o equilíbrio. Ufa! Foi por pouco…

O gato se afasta, lentamente, e meu olhar o acompanha até perdê-lo de vista…

Pronto… O gato se foi e, com ele, toda minha concentração e esforço para cumprir esta última tarefa. A mais fácil da minha vida. Arruinada. Maldito seja o gato!

Saio cuidadosamente do beiral em que me encontro e parto em direção ao gato. Não quero mais morrer. Quero dar leite ao gato, quero aninhá-lo em meus braços. O gato me salvou. É o gato preto da minha sorte!

Demoro a encontrá-lo, sobre o muro, a me observar, novamente. Pisca um dos olhos. Parece me sorrir. Desajeitadamente, tento chegar até ele. Tento convencê-lo a descer, mas não tenho nada que possa interessá-lo… Gatinho, psiu, psiu, gatinho…

Ele vira as costas para mim e desce do muro, do outro lado. Devo desistir? Sim…

Volto para casa, arrastando meu corpo cansado e disforme, como sempre, mas sentindo-me bem, como nunca. Há razões para se viver. Pequenas, inexplicáveis, mas reais. Como um gato preto.

P.S.: isso é uma estorinha.

 

Era uma vez, um sapo

Era uma vez, um sapo. Ele estava vivendo sob o bebedoro das galinhas e, um dia, fui lavar o bebedouro e ele saiu pulando, mas logo virou “estátua”. Mesmo assim, as galinhas o viram e começaram a gritar, tal qual donzelas em perigo. Cutuquei o sapo – que ainda não tinha nome, mas pensei em chamá-lo de Jaílson – para que ele voltasse para o bebedoro e ele deu um pulão e eu gritei! Ele aproveitou que eu estava de boca aberta e entrou… Eu o engoli…

Agora, estou com uma tossezinha nervosa, porque ele está atravessado na minha goela. Não desce, não sai. E fica fazendo cosquinha. Eu tusso e tusso, mas ele não sai do lugar, só cresce…

Contos do além túmulo

Como eu disse, no meu (triste) post anterior, houve um tempo em que eu preferia escrever textinhos a confrontar meu namoradinho que jogou na minha cara que ainda amava uma americana. Eis minha resposta:

MENINA-LUA  LUA-MENINA

Para Alexandre. BH, julho/ 96.

Mamante, O-Que-Anda-No-Céu, foi quem me contou esta estória:

Havia um tempo em que noites eram (quase) sempre claras, porque Lua era sempre cheia.

E, sempre em noites claras e quentes, Indiozinho ia até o riacho. Brincava com seus amigos peixes, nadava como um deles e, por fim, adormecia à beira do riacho. Sonhava e sorria. Lua, também sonhando, também sorrindo, vestia de luz o corpo nu do Indiozinho. Lua sonhava ser menina.

Essas noites eram sempre assim, até que, um dia…

Numa noite de Junho, uma noite de festa na Tribo, Indiozinho foi banhar-se no riacho. Para espanto dos peixes e da Lua no céu, ele não foi só. Trazia consigo uma menina, uma cara-pálida de cabelos cor-de-mel.

Pálida mesmo ficou a cara da Lua…

Indiozinho e Cara-Pálida brincaram noite inteira e, pela primeira vez, Indiozinho não dormiu às margens do riacho, à luz da Lua.

Por um longo mês, noites foram sempre assim. Até que…

Indiozinho não notava, Cara-Pálida tampouco, mas, a cada hora que passavam juntos, Lua brilhava menos. Indiozinho só tinha olhinhos para Cara-Pálida. Cara-Pálida só via Indiozinho. E a Lua, sozinha e triste, minguou que minguou, até que desapareceu.

Daí em diante noites seriam sempre assim:

Sem Lua, Indiozinho não ia mais ao riacho com sua amiga; noites eram escuras como breu…

Infeliz e abandonada, Cara-Pálida se embrenhou na floresta enegrecida. Teria que teria que encontra-se com O Grande Espírito, Wakantanka. Rezou noite, rezou dia, pediu, implorou: para Indiozinho ser feliz, Lua teria que estar no céu. Por Indiozinho, Cara-Pálida quis ser Lua.

Lua sonhava ser menina.

Sol se pôs, noite se fez. Havia um fiozinho de luz no céu e Indiozinho viu. Regada pela esperança daqueles olhinhos, sementinha de Lua, pouco a pouco, noite após noite, cresceu e se encheu de brilho. Virou Menina-Lua.

Coração de Indiozinho se encheu de luz e tudo voltou a ser como era antes. Por pouco tempo…

Céu estava apinhado de estrelas, Menina-Lua, mais clara do que nunca. Nunca houvera noite mais bela.

Ao entrar no riacho, Indiozinho viu, emergindo sob o reflexo da Menina-Lua, uma cara-pálida de pele alva como a neve e com cabelos que pareciam estar em chamas. Nunca a havia visto, mas sentia que a conhecia desde sempre.

E tinha razão; sua nova amiga era sua mais antiga amiga: Lua. Agora, menina. Lua-Menina.

Indiozinho só tinha olhos para Lua-Menina. Lua-Menina jamais tivera olhos para qualquer outro.

Menina-Lua se sentia traída e rejeitada.

A pobrezinha quis sumir, quis voltar a ser criança, quis o Indiozinho de volta, mas nada disso seria possível. Seu desejo de ser Lua fora realizado. Cabia a ela suportar as conseqüências até o fim.

Sobre Indiozinho e Lua-Menina, não se soube mais nada. Mas Mahhah Ich-hon, o Olhos Grandes, jura que jura que os viu, já adultos. Índio se tornou Pajé, o mais sábio e respeitado dentre todas as tribos. Lua-Menina, sua Lua-Mulher, a mais feliz e respeitada de todas as mulheres. E disse, também, que amor maior que o deles jamais existiu.

Menina-Lua, às vezes, se apaga, mas logo se enche de novo. É involuntário. Não é como a antiga Lua, não tem luz própria, depende dos humores do Sol. Aliás, depois que esqueceu o Indiozinho, Menina-Lua se apaixonou pelo Sol, mas este amava uma florzinha de uma terra distante. Mas esta é uma outra estória e deverá ser contada em uma outra ocasião.