Como eu disse, no meu (triste) post anterior, houve um tempo em que eu preferia escrever textinhos a confrontar meu namoradinho que jogou na minha cara que ainda amava uma americana. Eis minha resposta:
MENINA-LUA LUA-MENINA
Para Alexandre. BH, julho/ 96.
Mamante, O-Que-Anda-No-Céu, foi quem me contou esta estória:
Havia um tempo em que noites eram (quase) sempre claras, porque Lua era sempre cheia.
E, sempre em noites claras e quentes, Indiozinho ia até o riacho. Brincava com seus amigos peixes, nadava como um deles e, por fim, adormecia à beira do riacho. Sonhava e sorria. Lua, também sonhando, também sorrindo, vestia de luz o corpo nu do Indiozinho. Lua sonhava ser menina.
Essas noites eram sempre assim, até que, um dia…
Numa noite de Junho, uma noite de festa na Tribo, Indiozinho foi banhar-se no riacho. Para espanto dos peixes e da Lua no céu, ele não foi só. Trazia consigo uma menina, uma cara-pálida de cabelos cor-de-mel.
Pálida mesmo ficou a cara da Lua…
Indiozinho e Cara-Pálida brincaram noite inteira e, pela primeira vez, Indiozinho não dormiu às margens do riacho, à luz da Lua.
Por um longo mês, noites foram sempre assim. Até que…
Indiozinho não notava, Cara-Pálida tampouco, mas, a cada hora que passavam juntos, Lua brilhava menos. Indiozinho só tinha olhinhos para Cara-Pálida. Cara-Pálida só via Indiozinho. E a Lua, sozinha e triste, minguou que minguou, até que desapareceu.
Daí em diante noites seriam sempre assim:
Sem Lua, Indiozinho não ia mais ao riacho com sua amiga; noites eram escuras como breu…
Infeliz e abandonada, Cara-Pálida se embrenhou na floresta enegrecida. Teria que teria que encontra-se com O Grande Espírito, Wakantanka. Rezou noite, rezou dia, pediu, implorou: para Indiozinho ser feliz, Lua teria que estar no céu. Por Indiozinho, Cara-Pálida quis ser Lua.
Lua sonhava ser menina.
Sol se pôs, noite se fez. Havia um fiozinho de luz no céu e Indiozinho viu. Regada pela esperança daqueles olhinhos, sementinha de Lua, pouco a pouco, noite após noite, cresceu e se encheu de brilho. Virou Menina-Lua.
Coração de Indiozinho se encheu de luz e tudo voltou a ser como era antes. Por pouco tempo…
Céu estava apinhado de estrelas, Menina-Lua, mais clara do que nunca. Nunca houvera noite mais bela.
Ao entrar no riacho, Indiozinho viu, emergindo sob o reflexo da Menina-Lua, uma cara-pálida de pele alva como a neve e com cabelos que pareciam estar em chamas. Nunca a havia visto, mas sentia que a conhecia desde sempre.
E tinha razão; sua nova amiga era sua mais antiga amiga: Lua. Agora, menina. Lua-Menina.
Indiozinho só tinha olhos para Lua-Menina. Lua-Menina jamais tivera olhos para qualquer outro.
Menina-Lua se sentia traída e rejeitada.
A pobrezinha quis sumir, quis voltar a ser criança, quis o Indiozinho de volta, mas nada disso seria possível. Seu desejo de ser Lua fora realizado. Cabia a ela suportar as conseqüências até o fim.
Sobre Indiozinho e Lua-Menina, não se soube mais nada. Mas Mahhah Ich-hon, o Olhos Grandes, jura que jura que os viu, já adultos. Índio se tornou Pajé, o mais sábio e respeitado dentre todas as tribos. Lua-Menina, sua Lua-Mulher, a mais feliz e respeitada de todas as mulheres. E disse, também, que amor maior que o deles jamais existiu.
Menina-Lua, às vezes, se apaga, mas logo se enche de novo. É involuntário. Não é como a antiga Lua, não tem luz própria, depende dos humores do Sol. Aliás, depois que esqueceu o Indiozinho, Menina-Lua se apaixonou pelo Sol, mas este amava uma florzinha de uma terra distante. Mas esta é uma outra estória e deverá ser contada em uma outra ocasião.