Imaturidade

Em mais ou menos 45 dias eu faço 42 anos. Como pode ser? Eu posso me recusar a ter 42 anos? Eu tenho dois blogs. Eu me empolgo horrores com minhas unhas em formato stiletto. Eu gosto de beber dry martini para fingir que eu sou adulta. Compro minhas roupas (basicamente, camisetas de malha) no site do Chico Rei. Eu li Gossip Girl, os 12 livros em menos de 12 dias, e amei. O Chuck do livro é absolutamente diferente do da série, mas eu me apaixonaria por qualquer um dos dois se eles existissem. Viu?! Eu sou completamente adolescente!

A última vez em que eu tive qualquer noção de maturidade, eu tinha uns 17 anos. Eu não bebia ou fumava ou usava drogas, ao contrário de quase todos os meus amigos da época. Eu era completamente responsável. E confesso que isso foi absolutamente frustrante. Eu podia ter vivido mais. Não que eu me arrependa de nunca ter tido DSTs ou bebês ou de não ser alcoólatra ou ex-fumante. Não me arrependo do que eu fiz de certo. Só deveria ter soltado um pouco mais minhas próprias rédeas. Me faltou juntar uma bagagem.

E ainda falta porque, de repente, dos meus namoros esporádicos que duravam 6 meses, no máximo, porque eu sou chata e insuportável e enjoo fácil de absolutamente tudo, inclusive de pessoas, e das minhas saídas em bando com as amigas, lá estava eu brincando de dona de casa/empresária do interior com meu namoradinho que fingia que me amava enquanto eu fingia que acreditava e… Bum! Onze anos se foram.

Acordei do pesadelo da vida adulta com quase 41 anos, solteira e com mais problemas do que soluções e me dei conta de que, na verdade, eu nunca saí dos 19. Eu continuo presa em 1993, o ano em que eu quase fui feliz e que deixei de ser “madura para minha idade” para ser uma completa imbecil. Eu não sei ter 42 anos!

Mas se eu não tive crise dos 30 nem dos 40, seria justo começar uma crise de idade logo aos 42? Seria essa a resposta para a vida, o universo e tudo mais? Talvez. Mas foi lendo Gossip que fui iluminada pela lucidez não-herbárea de Nate: “talvez amadurecer seja só ficar mais parecido com a pessoa que você sempre foi.” E se for assim, aparentemente, a pessoa que eu sempre fui é uma adolescente eternamente frustrada. Então, foda-se o status quo. Eu sou madura o suficiente para admitir que sou uma imbecil e vou criar minhas rugas e cobrir meus cabelos brancos sendo assim. Apenas.

xoxo

Encerrando 2015

2015 foi um ano difícil pra geral. Mas sempre há, pensando bem, algumas coisas que valeram a pena. No meu, são elas:

TOP-Pi 10 | O MELHOR DE 2015:

1. De Olívia e seu barrigão nasceram 5 gatinhos lindos e maravilhosos. Eu quase tive um troço, mesmo, por ver o parto. E nunca amei tanto quanto amei meus netos. Olívia mudou, ficou mais feliz e segura, e eu só tenho a agradecer a oportunidade.

2. Voltar pra BH, mesmo com todos os problemas deste ano, foi uma dádiva, uma bênção, uma maravilha.

3. Dr. Bonitão. Não rola paixão, não rola um caso e nem vai rolar. Provavelmente, não vai rolar nem amizade, mas ele é sensacional. Delicioso. Ele é muito divertido e fez minhas cirurgias e consultas menos horríveis do que deveriam ter sido.

4. Dexter e outras histórias. Ler foi o que eu fiz de mais gostoso neste ano sem muitas coisas gostosas.

5. FIQ. Amo muito. Adoro ver meus heróis e adoro que eles me reconheçam. Me sinto TÃO importante!!

6. Hidroginástica. Evitei ao máximo entrar nas aulas, eu detesto piscina. Mas as velhotas são tão bacanas que sinto falta delas nestas férias. E água nem morde. Tem sido legal.

7. Bom humor. Ele me acompanhou o ano que todo. Tive alguns momentos de derrota, mas passaram rapidamente. Viva eu!!

8. Ser desejada. Depois de tanto tempo de pasmaceira, ter caras me querendo foi tão bom. Não que eu tenha retribuído, mas fico feliz, mesmo assim.

9. Amigos. Estou mais seletiva e não estou amando todo mundo, mas tive muitos bons momentos com pessoas queridas.

10. Sobrevivi. Teve crise, teve perna quebrada, teve muita merda, mas chegarei a 2016 pra começar de novo! Espero!!

netosE há as coisas que não valeram muito, não:

TOP-Pi 10 | O PIOR DE 2015:

1. O pior do ano foi o desaparecimento de Cristo. Ainda parte meu coração.

2. Doar meus três netos. Zacharia, Benjamin e Rubinho foram para outros lares e isso também acabou comigo. Eu os queria aqui, do meu lado, em segurança e felizes, mas não foi possível. Torço para que eu tenha feito boas escolhas, mas nunca saberei ao certo…

3. E só doei os meninos, porque ainda não tenho minha casa. E não ter casa é uma tortura…

4. E por não ter casa, sinto falta do Rasputin, da Pixie e da Guapa. Eles ainda estão longe… E me fazem falta as galinhas, os cães e os gatos que não são meus. Rasputin fez 15 anos e eu não estava perto… :'(

5. Se ano passado eu havia dito que se não realizasse meus planos eu explodiria, bom, explodi. Não fiz nada do que eu queria fazer.

6. Quebrar a perna gerou problemas, como os cinco acima, mas o acontecimento em si não foi o pior do ano. Não sei se volto a andar sem mancar, sem sentir dor. Não sei se um dia volto a correr. Mas nem tudo foi péssimo. Só preferia ter passado sem isso.

7. Cliente-problema. Todo ano. Já têm lugar cativo. Pelo menos, tive que lidar menos com eles, já que a crise levou muitos embora…

8. 10kg. Eles chegaram dois meses depois que me quebrei e não querem ir embora nem poder de musculação, bicicleta ergométrica, moderação alimentar e hidro. Já fui até em endocrinologista para entender o que eles são, de onde vieram e quando irão embora. Nada de respostas…

9. Falta de grana. Eu me prometi que me livraria desse mal, mas a Dilma não deixou…

10. Frustração. No fim, é tudo o que é. Havia planos e eles foram frustrados. Havia uma perna esquerda perfeita e ela foi quebrada. Havia um punhado enorme de gatos, mas só me restaram 3… Quando eu começo a cantar o refrão do KLB é porque as coisas não vão bem…

cristo

Fadiga por compaixão

Tanta tragédia no mundo, tanta coisa ruim acontecendo… Mas minha causa continua sendo animal, mesmo com todo o sofrimento humano. Porque animais e homens sofrem pelo mundo que nós criamos e não nos empenhamos em mudar. Nós, nossa culpa/responsabilidade, nosso comodismo/consumismo. Os bichos padecem e morrem num mundo que nós destruímos. Eles são inocentes e, mesmo assim, relegados a um plano inferior.

Segundo Malthus, é a guerra, a fome e a peste que servem à seleção natural, hoje em dia. Não é necessariamente uma seleção justa, já que quem tem poder (quase) sempre vence e não há sistema de cotas, aqui. E aceitamos. Ou pior, sentamos no rabo e apontamos para o outro, culpamos o outro, brigamos com o outro e desencadeamos guerrinhas imbecis (na vida real e em redes sociais), como se isso valesse pra algo mais do que aumentar o conflito e o ódio.

Uma amiga disse que precisamos de amor. Eu amo. Os bichos.

Desculpem-me humanos. Eu sei que teve gente que ficou enfurecida com meu último post “diminuindo” a dor humana em relação a dor animal. Mas não é isso. Bichos sofrem constantemente, o tempo todo, no nosso mundo, por culpa do nosso estilo de vida – que não funciona mais!!! – As tragédias humanas também são constantes, eu sei, mas só se faz caso das estatisticamente maiores. Tudo errado. Não vou ser convencida pela mídia (seja qual for) a me comover. A comoção tem que ser natural e, pelamordedeus!, pode ser offline e inclusiva.

Obs.: o Facebook já foi considerado uma espécie de Second Life, onde as pessoas se empenhavam em ter uma vida mais linda e mais rica do que a real. Hoje em dia, está mais para FPS.

Sobre a escrita

Poxa… Quase um mês sem aparecer por aqui e nem fez falta pra ninguém! Nem pra mim!

Eu tinha até um bocado de coisas a dizer, tipo: O Vilarejo é um livrinho infantil e tolo, repleto de chichês (7 pecados capitais. Jura?) e escrito com ligeireza e superficialidade, quase preguiça. Se eu tivesse uns 16 anos, talvez gostasse, porque tem figuras (!!), mas como fui lê-lo aos 41, acreditando (nem tanto) nas críticas que diziam que Raphael Montes era o Stephen King brasileiro, tive uma tremenda decepção. Stephen cria personagens cativantes, aos quais a gente se apega. Raphael cita personagens que vão morrer dali a pouco e ninguém vai dar falta. Mas confesso que o final da “luxúria” até me surpreendeu. Não, o Raphael não é exatamente ruim, só não é digno de ser comparado ao King.

Motivada por livros mal escritos, resolvi voltar a escrever. Sem pretensões, talvez, mas, a princípio, como um exercício de criatividade. E é surpreendente como as histórias fluem, como se não me pertencessem. Ao contrário, eu pertenço a elas e elas me usam para prendê-las numa página do Text Edit. Me prometi escrever uma por dia (escrevo contos curtos. Já postei uns aqui, em estorinhas) ou, pelo menos, todo dia, mas não rolou. Está muito calor e comprei um tabletzinho para leitura (Lev, da Saraiva), que é uma pequena porcaria que trava muito e me irrita, mas é relativamente barato, leve e mais confortável que o laptop. Ou seja, às vezes, eu começo a ler e não tenho tempo nem para meus contos.

E se não me sobra tempo para escrever o que me dá prazer, imagina para vir aqui dar pitacos neste mundo chatinho? Ou contar sobre a segunda cirurgia no tornozelo (realizada em 08 de setembro, correu bem, mas não adiantou muita coisa em relação ao movimento. Em resumo: ainda manco)? E que o Doutor, diante disso, quer tentar mais uma vez, daqui a uns 4 meses, tirar o restante dos pinos e, se necessário, alongar meu tendão de Aquiles cirurgicamente (aparentemente, ele é o problema)? E que vou começar a fazer hidroginástica totalmente contra minha vontade, somente para a felicidade do Doutor – é sério. Ele disse que ficou muito feliz com a notícia! -? Porque, meu bem, nada muito interessante ou digno de nota tem acontecido. Então, vamos todos nos poupar de blá blá blá, né?!

Se alguém se interessar pelos meus continhos, depois eu conto onde encontrá-los. E quando algo que não seja uma tremenda perda de tempo minha e sua ocorrer, eu retorno às atividades pitaqueiras.

Beijo e não me deixe só!! 😀

Segredo dos Homens

E aí que um sujeito fez um site para ensinar as mulheres a “segurarem” homens. Ele se propõe a educá-las a “merecerem respeito” e se valorizarem ao não aceitarem cozinhar para o cara nem buscá-lo em casa num primeiro encontro. Aposto que o homem tem que pagar a conta sozinho, também, e num excelente (caro) restaurante.

A mulher não deve falar de si (chaaaatoooo!), mas ouvir. Ela tem que aprender sobre ele, claro está. Mulheres existem aos milhares, mas mulher interessante (interessada em ouvir sobre o dia dele), só você (que acompanha os posts e incorpora). E se o homem só quer te comer, aceita, boba, mas não dê de comer. Não tão cedo, não seja fácil. Filminho na casa dele? Arapuca! Fuja disso!

Parei de ler antes de chegar nos tópicos – que, obviamente, existem ali – “ria das piadas dele”, “não mexa no smartphone dele” e, lamentavelmente, não assisti ao Power Point em que ele apresenta as dicas de forma fácil e assimilável. E, assim, me poupei de mais um punhado de clichês machistinhas da mamãe, de lobinho mau tentando se passar por amiguinho. Um babaca.

O que me tem assustado, atualmente, nem é a cambada de caga-regra pra tudo – amigos têm que ser assim. Amores só valem se forem assados. Não perdoe! Perdoe e seja sábio! -, mas a quantidade de gente que compartilha essas bobagens, como se fossem ensinamentos de vida.

Sabe o que funciona pra mim? Não? Nem eu. Mas mesmo se não funcionar, vou vivendo. Às vezes, vou por tentativa e erro, noutras, analiso cada caso como único. Quando em plena consciência, observo. E de toda forma, quebro MUITO e dolorosamente a cara o tempo todo.

Meus relacionamentos são meio que trágicos – ou curtos demais para ser qualquer coisa digna de nota. Eu não faço joguinhos e não escondo quem eu sou por trás de personagens. O que você leva é o que você vê. E, não, eu não vou melhorar com o tempo!!! Já pode correr!

Segundo o educador sentimental, se estou solteira, é porque tenho feito TUDO errado! Segundo eu mesma, ok.

Pode ser que a gente aprenda com a história do outro, com a vivência e filosofia do outro – não um outro qualquer que tem R$30,00 pra registrar um domínio e ficar despejando bobagens na internet -, mas não dependa disso. Eu vivo dando conselho? Sim – olha um aí! -, mas não me siga cegamente. Nem eu me sigo sempre! A vida é sua. Aprenda com ela.

 

Amor de amigo

A pessoa vive dizendo que te ama, que quer te ver, que adora sua companhia. Daí, você diz: “vamos nos encontrar, então!” e ela responde: “hoje não posso, estou cansado demais. E acordo cedo, amanhã.” Hmmm. Uma desculpa só já seria o suficiente. Reforçar desculpa é sintomático. Mas ok, uma complementa a outra, não seja chata.

Só que eu não sou cansativa e não estou propondo uma maratona, mas sentar num barzinho e papear. Os bares fecham cedasso, em BH. À meia-noite, a pessoa estará dormindo seu sono dos justos. E, depois, fim de semana está ali. Descanse no domingo, poxa!

“Não, domingo é dia de namorar, não de descansar!” Ok, então! Saiamos no domingo. É bom que me apresenta o namorado! “Não sei se ele vai querer…”

Então, num belo dia, essa pessoa que te ama tanto e quer te ver, mas não tem tempo para isso, decide se casar com o namorado que não quer te conhecer… E, claro, te exclui deste momento. Você entende, não há intimidade para você estar presente num momento de intimidade do casal. E, convenhamos, ninguém nunca deveria ser obrigado a nada, ainda mais em questões sociais.

Mas… Eu acredito que quando se ama sinceramente pessoas, quando você se sente à vontade com elas, você as quer por perto em situações sociais, também. Repito: ninguém é obrigado a nada, ainda mais porque, se for obrigado, já não é amor. No entanto, dizer que ama e não deixar a pessoa amada se aproximar, fazer parte da sua vida ou entrar na sua intimidade é não amar.

Chamar de “amor” gostar de falar bobagens, trocar ideias, pegar dicas e oferecer favores para determinadas pessoas é banalizar o amor. Não banalize o amor. E não se engane. Você pode gostar muito, até adorar, ser fã de algumas pessoas, mas amor pede aquela entrega que você se recusa a fazer. Então, goste dos seus amigos, curta as situações que vive com eles, queira a companhia deles por 20 minutos, exija atenção, mas só declare amor quando puder amá-los de verdade.

Desapego

Se eu ajudo uma pessoa que, por exemplo, caiu na rua, eu não espero por um “obrigado(a)”. Eu espero é que a pessoa não tenha se machucado, mas se se machucou, que não seja grave, que esteja bem.

Se eu dou um presente, eu quero pouco: mostrar presença. Claro, quero que agrade. Mas só. Dei, tá dado. Não espero agradecimento eterno, uso, demonstração pública de que gostou. Não ameaço pegar de volta porque a pessoa não mostrou consideração que eu espero pelo meu gasto com ela.

Se eu faço um favor, eu espero que favoreça. Não quero que a pessoa me cobre pelo favor e, em contrapartida, não vou cobrar gratidão ou reconhecimento. Faço direito, faço no meu tempo, faço até obrigada, mas, depois de feito, foi-se.

Se eu dou uma ideia e a pessoa se sai brilhantemente com ela e cria algo lindo, bom e/ou útil a partir do ponto de partida que eu dei, eu não espero por crédito ou aplauso. Eu dei, não vendi, a ideia. Dei, não emprestei.

Se eu tenho um amigo que não vem me visitar num momento de infortúnio, que não está ao meu lado quando estou pra baixo, não me dá a mão quando eu mais preciso, ele não deixa de ser meu amigo. Ele só deixa de ser um amigo com o qual eu conto para esse tipo de coisa. E tudo bem. Nem todo mundo tem preparo para os maus momentos. Eu não tenho. Nunca sei o que dizer, quando abraçar, o que fazer. Vou cobrar que meus amigos sejam o que eu não sou?! E, mesmo que eu fosse, cobraria que eles sejam iguais a mim?!

O nome que eu dou a isso é “desapego”. Algumas pessoas diriam que é maturidade, mas eu sempre fui assim e nunca fui madura. Acredito que seja desapego, porque eu não me agarro aos meus feitos, presentes, ideias. Não fico na mesquinha expectativa de agradecimentos e paparicos. Ninguém fica em dívida ou em crédito comigo. Não espero que o mundo conspire a favor porque eu fiz o bem. Eu o faço sem esperar retorno pessoal.

E como parto do pressuposto de que as pessoas ajudam, dão coisas, fazem favor, são amigas porque querem e porque tudo isso é muito bom, não me sinto na OBRIGAÇÃO de retribuir. Mas retribuo, valorizo, reconheço, fico feliz e, algumas vezes, faço questão absoluta de deixar isso claro. Mas nunca, eu digo NUNCA, quando me cobram. Quem me exige reconhecimento/retribuição me perde.

Um tal Thiago

Existe (☠) um tal Thiago que estudou comigo há uns 15 anos, do qual nunca gostei e, cada vez mais, me dou razão quanto a isso.

Entre inúmeros palpites que via ele destribuindo em posts de amigos, sempre de forma prolixa/enfadonha/prepotente, um me incomodou a ponto de eu preferir ignorar a existência dele para o resto da minha. E, ao mesmo tempo, motiva este post (de adeus a ele).

Quando a Índia proibiu passarinhos presos em gaiolas, ele vibrou pela enormidade espiritual da Índia. Os orientais, esses evoluídos! Eu, por minha vez, mesmo acreditando que lugar de passarinho não é e nunca foi em gaiolas, fiquei pensando em estupro. Pessoas tão evoluídas espiritualmente, tão a frente de nós, reles brasileiros (sim, teve essa comparação no comentário dele), que nem prendem passarinhos em gaiolas. Mas soltam seus passarinhos metafóricos pelas ruas e violam mulheres. Mulheres, essas, que serão culpadas por terem sido estupradas.

Daí, essa semana, ele disse que detesta o feminismo (“mais do que Roberto Carlos e calor. Juntos.”) e que não precisa dele para achar “aviltante” os adesivos de Dilma nos tanques de gasolina; ele se baseia, para isso, em seus “valores antiquados”. Ele também alega que os adesivos nada tem a ver com “cultura de estupro”. É somente falta de respeito básica de brasileiro (falou o lorde inglês).

Enquanto isso, a cada 25 minutos, uma mulher é atacada pela cultura de estupro da Índia espiritualmente evoluída. Outras tantas no restante do mundo. Feminismo? Eu não preciso dele para achar isso aviltante. Mas precisamos dele para, um dia, não achar mais isso acontecendo por aí.

Eu não vivo por valores antiquados. Muitas mulheres têm morrido por causa deles.

Hate Dove

Meu fisioterapeuta me perguntou se sou feminista. “Eu seria o quê? Machista?” Ele disse: “pode ser neutra”. “Não, não posso ser neutra num mundo em que Dove existe”.

Odeio Dove, de coração. Odeio enquanto mulher, consumidora, “publicitária” e ser humano. Odeio a manipulação que Dove faz. A ideia errada que adoram propagar de que as mulheres se odeiam e têm baixa autoestima. E que Dove é a salvação, porque a marca nos entende e nos ajuda a nos enxergar. Balela.

A nova “campanha” Dove… :-* Coloque uma placa escrito “bonita” numa porta e “comum” na outra e faço igualzinho a dona que deu meia volta e não passou por nenhuma das duas. Se eu enxergar as placas, claro. Não aceito rótulos, minha gente! Não aceito poder ser somente bonita ou comum. Eu sou mais eu, poha! Sou mais eu desde 1984.

E, mais uma vez, que história é essa de que beleza é tudo? Beleza é joia, é bacana, é poder, mas é pra tão pouca gente. Dove podia parar com essa mania de nos definir pela estética. De ultra valorizar a estética e ficar apontando as coitadinhas que ficaram inseguras, porque a marca as fez pensar naquilo que não precisa. “Sou bonita?” Tanto faz, seja mais do que isso!

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Dove embute a ideia de que você se vê “pantufa”. Mas que pode chegar a “Havaianas”, se usar sabonete cremoso testado em animais. Só que a ideia aí do quadradinho é imbecil igual propaganda de Dove. Machista na mesma proporção.

Dê um basta nessa marca horrorosa, transmissora de ideias erradas, que diminuem mulheres. Pare de chorar assistindo essas campanhas de merda e comece a ver além. Tô te mostrando isso desde 2013. Passou da hora de acordar.

Descobrindo

Muita gente se sente em condições de julgar os outros. Eu cometia esse erro quase que o tempo todo, confesso. A coisa fica tão cotidiana que, de repente, escapole e lá está você (eu) fazendo de novo. Pois é. Prestemos atenção.

E assim como a gente julga sem nem perceber, há mulheres que sofrem abuso moral sem nem notar. Ou, se notam, logo decidem que é um exagero da parte delas, que é coisa de mulher, que não é nada. Porque, no fim das contas, fomos condicionadas a pensar assim. Se ofender é um enorme exagero e nada mais é do que uma prova de que mulher é tudo fora de controle.

Desta forma, quando o homem que você escolheu para ser seu par lhe diz para parar de cantar porque sua voz é feia, você para. E não canta mais, mesmo que cantar lhe dê prazer. Se diz que sua autoestima é tão alta que alguém deveria dar um jeito nela, você acha que é elogio. Se ele paulatinamente lhe chama de chata, é porque você é. Se culpa sua TPM (inexistente) por uma briga (que ele começou), é porque você está de TPM e, por isso, sensível demais. Se ele lhe chama de lésbica e de frígida porque ele não consegue lhe dar prazer, a culpa é sua, é óbvio! Se diz que você é a pior coisa que aconteceu na vida dele, você deve pedir desculpas e tentar melhorar. Ir embora?! Pra quê?! Pra onde? Por que?! Que exagero, mulher!

E você vai ficando, empurrando com a barriga. Olhando para as mulheres que apanham de seus pares e perguntando, toda cheia de empáfia: “não têm vergonha? Por que não vão embora?”. É claro que o “se fosse comigo” participa da conversa e, é claro, se fosse com você, tudo seria diferente. Mas será? Aliás, é?!

Não é. A diferença é que a mulher que é espancada não tem como negar o espancamento. Pode até se perceber como a culpada, mas sabe que algo está errado. A mulher que sofre gaslighting (palavrinha nova que aprendi aqui) quase sempre tem certeza de que não é nada, além de bobagem (feminina) dela. “Ele me ama” é a única certeza. “E está certo” é a grande probabilidade. E, assim, continua sendo dominada, sem saber o que fazer, simplesmente porque não percebe que algo tem que ser feito.

“Você merece aquilo que tolera”, disse uma amiga, dia desses. Dentro do contexto, fazia muito sentido, apesar da frase me incomodar. “Se você tolera, talvez mereça” me parece mais justo. Mais justo ainda é não tolerar merda nenhuma, por tempo nenhum, por motivo nenhum, senão, você vai acabar achando que merece o que tolera! Não se deixe tolerar, não se deixe merecer nenhuma forma de tortura e domínio, por favor.

Esteja atenta às coisas que você faz e às coisas que permite que façam com você.

Confesso que quando meu ex arranjou uma briga para justificar o nosso fim enquanto casal – supostamente já tendo uma mocinha 20 anos mais nova do que eu engatilhada (macaco gordo. Sacomé) –, eu não fiquei triste. Nem ofendida, humilhada nem nada sequer parecido (e ofensa e humilhação era o que esperavam de mim). Eu me senti aliviada. Assustada com o quanto e com as novas possibilidades, mas feliz.

Meu novo bom humor, meus novos pontos de vista, meu novo amor, meu novo desejo refletem quem eu sempre fui, mas não sabia ser. Não houve mudança, houve descoberta. Foram 40 anos de opressão e desqualificação, vindas de todo lado: sociedade, família, coleguinhas, “amigos”, marido. Eu deveria ser o que esperavam de mim? Sincerona com todo mundo, menos comigo?! Não mais…

Vá por mim: libertar-se até assusta, mas não dói. O que dói é não se pertencer.