Me me me*

NO Livro do Riso e do Esquecimento, Tamina ouve. Todas as pessoas que acreditam ter algo a dizer sobre si a procuram, porque ela ouve e não interrompe. Gosto deste trecho:

“Mas será que ela escuta mesmo? Ou não faz outra coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? Não sei, e isso não tem muita importância. O que conta é que ela não interrompe. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu…’ e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu…’, 

“Essa frase, ‘é exatamente como eu, eu…’, parece ser um eco aprovador, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo: na verdade, é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar nosso próprio ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro. Todo mistério da popularidade de Tamina é que ela não deseja falar de si mesma. Ela aceita sem resistência os ocupantes do seu ouvido e nunca diz: ‘é exatamente como eu, eu…’.”

Eu não tenho sido Tamina, assim como não me poria no lugar dos que falam e falam. De fato, eu passei boa parte da vida me policiando para não falar demais, muito menos sobre mim, pessoa desinteressante para os demais. Meu exercício de falar e falar e emitir opiniões acontece basicamente aqui. Fora deste meu mundo particular, prefiro ouvir.

Claro, houve uma fase em que eu não era “eu”. E falei e falei até me encontrar. E não me arrependi de ter falado demais, como disse a má língua, mas de não ter falado demais mais cedo.

Mas, agora, estou sem saco para a história do outro. Parei de ler blogs, reduzi minhas espiadas no Facebook e me cansei do Whatsapp. Sei que é fase e tem a ver com meu estado jururu de ser. E tem a ver comigo, tendo que contar a história de como quebrei o tornozelo, sempre, repetindo, sempre, como Sísifo. Fico com vontade de passar o link do post, mas tenho me obrigado a ser gentil, afinal, ninguém tem nada a ver com meu mau humor. Bom… Não “ninguém”, mas os desconhecidos curiosos não têm. Sorrio, conto a história sem muitos detalhes, ouço as mesmas piadinhas sobre trocar lâmpadas/bênçãos do Senhor, sorrio mais um pouco e sempre alguém diz: “imagino a dor”. Eu não imagino.

sisifo

Não imagino nem me lembro dela. Stephen King se lembra da dor de ouvido que teve aos 4 anos de idade. Eu não me lembro nem quero lembrar da dor de quebrar o tornozelo há 71 dias. Sei que foi ruim – comparei ao parto natural -, sei que não chorei. Lembro que senti medo de nunca mais ver Cristo, que havia ficado no telhado e sobre o qual eu não recebia notícias – foi a única vez que eu chorei.- Senti muita fome e muita sede, que o Dr. Bonitão não me permitia “saciar” – palavra horrorosa! – Só. Eu passei as 14 horas de espera me projetando para um futuro em que eu olharia para este dia e diria: “que aventura”. Ainda não cheguei neste ponto, mas estou próxima.

Dor não é mérito, não é um presente, não é algo que eu queira guardar comigo. Deixo ela lá, no momento dela.

Mas tê-la sentido me permitiu ser mais solidária com a dor do outro, o que a sente. Dr. Bonitão achou engraçadinho eu considerar “meus amigos” os pacientes quebrados, que aguardavam atendimento nos dias de meus retornos, e sempre pedir notícias deles. Naquele momento, éramos amigos, sim. Somente nós, ali, entendíamos a dor do outro, que incluía a dependência, a impotência e um desespero intenso, mas calmo, para não incomodar os “inteiros”.

Pois é… Hoje, se não for para você me falar, em poucas palavras, da sua dor física, eu não me interesso por você. Não me conte sobre sua experiência com a doença da sua mãe ou do seu pai, não me interessa a sua mágoa profunda, não me interessam os seus sentimentos. Não me interessa o seu “me me me” sobre o mundo ou sobre mim. E, principalmente, não me interessa sua opinião sobre a dor de alguém, quando o assunto é esse alguém. O mundo gira em torno dos umbigos dos que sentem dor, não dos que acham que a conhecem.

* Eu eu eu

Perdão, mas eu não perdoo

Há uma certa super-valorização do perdão. Perdoar é divino, elevado, espiritual e intelectualmente: só o sábio perdoa. Discordo. Eu prefiro esquecer, deixar pra lá, sacudir a poeira e dar a volta por cima – isso, para delitos leves. Os pesados têm troco – a oficializar o perdão.

Pedir perdão, principalmente tardiamente, funciona para o ego do babaca que lhe ferrou e ficou sentindo uma reles culpinha. Ou, o mais provável, teve um orgulho danado do estrago causado é quer reviver, reatuar a farsa. Além de querer ter certeza do tamanho do trauma e de que não foi esquecido. São vaidosos, os sacanas.

Eu posso até dizer que perdoo para acabar logo com isso, mas não é sincero. Não vou guardar nova raiva em mim, mas vou excluir novamente a pessoa da minha vida e continuar seguindo.

Se a pessoa insistir em ficar, bom, eu vou magoá-la. Eu vou ferrar com ela, eu vou destruí-la. Vou fazê-la se arrepender de ter me procurado. Ou vou ignorá-la e continuar seguindo.

Pessoa, fez merda? Da grande? Peça desculpas ou remedie imediatamente. Se não der, deixe a vítima em paz e SE perdoe. Não vá foder a vida de alguém duas vezes com a mesma história. Seu pedido de perdão não é uma “homenagem” ou um ato de amor com o outro, é puro egocentrismo e cretinice. Vá por mim.

Charlie Hebdo

Geralmente, me abstenho de dar palpites em assuntos ultra polêmicos, porque não vale a pena. Mas… Charlie Hebdo, mesmo tendo sido um reles desconhecido para mim, até o atentado, me é caro. Amo cartoons, amo charges, amo cartunistas. Acredito na provocação do humor e condeno veementemente sensibilidades exacerbadas, de quem quer se impor sobre os outros.

Discordo do Papa: não há limites para a liberdade de expressão. Há, talvez, punições legais, mas limite e liberdade se opõem. E, ademais, quem imporá os limites? Baseado em quê? Muitas vezes, a ofensa só existe para o ofendido, que opta por se ofender, que busca se ofender.

Se alguém falar mal da minha mãe, ou de alguém que eu realmente amo, eu tenho inúmeras opções: deixar falando sozinho, “ouvir e ponderar”, “ouvir e concordar”, “ouvir e me ofender”, mas, dificilmente, “ouvir e socar” é uma delas. A agressão física, para mim, é sintoma de que se acabaram os argumentos, mas sobrou bastante raiva. Não permito que me façam tamanha raiva.

Retratar o Profeta do outro, mesmo sendo proibido na religião do outro, não é somente liberdade de expressão, mas direito e livre arbítrio. O seu pecado não me representa. Que seu deus, todo poderoso, me puna, se achou ruim, se for tão mundano a ponto de se ocupar com um desenho, enquanto o mundo está – e sempre esteve – em caos. Mas cometer um pecado mais grave e que também é pecado na sua fé, só para tomar as vezes do seu deus e me “mostrar as consequências dos meus atos” é absurdo.

Dizer “ah, eles fizeram por merecer”, “a provocação do Chalie Hebdo foi desnecessária” ou “depois de tudo o que aconteceu, nem assim eles aprenderam a lição” é dar razão aos assassinos, é confirmar que eles tiveram motivos. E não tiveram. Não provocar, se encolher em posição fetal e deixar de se ser o que se é por medo é, também, dar moral ao vilão. A vítima não é o Islã. Mas Charlie Hebdo, mesmo podendo, não se fez de vítima.

“Je suis Charlie” não lhe representa porque Charlie Hebdo não lhe representa? Ok. Esse é um jornal, não o Congresso Nacional. Eles não têm obrigação de representar ninguém além deles mesmos! Você não acha graça, não gosta, acha imoral e ofensivo? Ok, também. É de seu pleno direito, assim como o de não ler ou comprar o Charlie. Você pode até mesmo ficar num mimimi sem fim nas redes sociais, expondo exaustivamente sua opinião, porque, veja bem, isso é liberdade de expressão e ela funciona até com coisas/pessoas/situações chatas e que incomodam! Lindo isso, né?!

Encerrando – grazadeus! – 2014 – parte II

Eu sempre experimento uma dificulade enorme de listar o pior, mesmo tendo reclamado o ano todo. Talvez o pior seja realmente irrelevante e o que foi bom é o que prevalece.

TOP-Pi 10 | O PIOR DE 2014:

1. Morte. Reclamarei da morte até o dia da minha. Acho-a injusta e cruel – por mais que seja necessária. E este ano está escorrendo sangue. Mas, pessoalmente, o pior foi a morte ter levado minha babá Alzira sem que eu sequer tenha podido me despedir… Espero que ela tenha sabido a vida toda o quanto eu a amava…

2. Eleições. Pelo resultado. Achei todo o processo – e as baixarias generalizadas – mesmerizante. Pessoas não cansam de me assustar.

3. Copa. E nem foi pelo merecido 7X1.

4. A economia. Se é que pode se chamar isso que temos de “economia”…

5. Vizinhos. O de sempre. Sempre. Pelo menos, em 2015, terei outros vizinhos e outros problemas. Oremos.

6. Cliente-problema. Todo ano. Neste, mais problemáticos do que nunca. E sabe o que é pior? Eu sempre acerto! Quando eu digo: “fuja desse daí”, fuja.

7. Fim da farmília. Vou-me embora, farmília fica quase toda. Vou sentir falta de muitos membros, de outros, nem tanto. Mas me dói pensar em não ter mais árvores na minha vida e na dos gatos que vão comigo…

8. Solidão. Foi a primeira vez que eu a senti, foi a primeira vez que eu não me bastei… Felizmente, não veio pra ficar.

9. Falta de grana. Tem a ver com a “economia”, tem a ver com os clientes-problema, tem a ver com ingerências e burrices. Tem a ver com um passado que há de não me pertencer mais!

10. Falta de vida. Felizmente, não veio pra ficar.

Quero.

Nunca mais quero me casar. Morar junto? Nem pensar! Não quero mais ceder meu espaço a outro. No máximo, um fim de semana; uma escova de dentes perto da minha. Mas nada de gavetas, cuecas, pijamas. Quero a liberdade que nunca tive, completa, com as consequências cabíveis. Quero solitude. Quero ter que me virar com fusível queimado – o prédio é antigo – e privada entupida. Já sei lidar com baratas.

Não desisti do amor nem da companhia nem do aconchego. Desisti de discussões idiotas, mesquinharias e tolices. Desisti de rotina.

Quero olhar para ele, de Zorba, recostado na janela, enquanto fuma um cigarro, e pensar: “esse é o homem com quem eu passaria o resto da minha vida”. Mas me contentar com o resto desse dia.

Encerrando – grazadeus! – 2014

E chegou aquela época gostosa (SQN) em que faço o Top-Pi.

TOP-Pi 10 | O MELHOR DE 2014:

1. Olívia e seu barrigão. Cristo entrou na minha vida logo depois do Top-Pi 2013 e, por isso, não figurou na lista. Ele foi um grande problema e um enorme amor, neste ano. Por pouco eu não o doei, simplesmente porque ele não se dá bem com meus outros gatos. Mas… Chegou Olívia em nossas vidas e, apesar de Cristo não ter mudado nadinha, ele encontrou nela uma companhia e um amor. Eles são muito amigos e isso é lindo!

2. Amizades: eu não teria sobrevivido a 2014 sem pessoas queridas ao meu redor. <3

3. Amor: ele existe. E ele é lindo, mesmo fumando.

4. Vegetarianismo. Firme e forte e cada vez menos “proto” e mais vegano! Em 2015, finalizo a transição! Foi a decisão mais acertada da minha vida e pela qual me sinto extremamente bem!

5. Trabalho voluntário. Continuo trabalhando para e admirando a 4Patinhas. Cada vidinha salva me salva um pouquinho!

6. Stephen King sempre será o dono do meu coração! Li bem menos livros, este ano. Me perdi por aí. Mas amei ler a continuação dO Iluminado (se chama Doutor Sono) e Duma Key. Livro incrível!

7. As ideias de 2013 ficaram engavetadas neste difícil 2014. Mas cresceram e se multiplicaram. Ano que vem, vou ter que dar vazão a elas, senão explodo!

8. Boa forma. Ainda estou longe de estar em forma, ainda mais depois de emagrecer 6kg em uma semana – em novembro, por causa de estresse -. Eu ainda estou despencada, mas estou andando na esteira e já com Yoga marcada para ano que vem. Chego lá!

9. Catarse. Não pude ir ao Comic Con Experience – por motivos de falta de vida -, mas investi em quadrinhos, mesmo assim, graças ao Catarse. Eu apoiaria mais, se pudesse. Espero poder, em breve!

10. Finais e recomeços. Sempre difíceis, sempre duros, sempre angustiantes, mas, acima de tudo, sempre necessários.

olivia-barrigao Amor recheado de mais amor!

Primeiro encontro bom

Primeiro encontro bom termina na cama, no banco de trás do carro ou no coreto da praça do Hippodromo. Não termina com bitoquinha num ponto de táxi, com promessas de “te ligo”, “quero te ver de novo”.

Primeiro encontro bom entra em contato nos próximos dias, mesmo sem promessa. Tem vontade de te ver de novo e de novo e não fica na vontade, mesmo sem compromisso.

Primeiro encontro bom começa com troca de ideias e com o descobrimento um do outro. Ou simplesmente com muito amasso, abraço, beijo para, depois que se tem certeza de que quer chamá-lo, se perguntar o nome.

Primeiro encontro bom é inesquecível. 21 anos, 6 meses e 11 dias depois de ocorrido, você ainda se lembra e pensa no quanto foi bom. “Onde ele estará agora?”. E, às vezes, ele ainda está ali, do seu lado.

Primeiro encontro bom já elimina aquele carinha que te achou ousada demais, fácil demais, assustadora demais, porque ele é imbecil demais para aproveitar um primeiro encontro bom.

Agradeço imenso

É impressionante a quantidade de pessoas que se sentem à vontade para se envolver no fim de relacionamento de duas pessoas. Talvez seja porque relacionamentos não pertencem somente a duas pessoas. Casamentos – e términos – são eventos sociais. Testemunham o começo e querem participar do fim. E, assim, fazem suas apostas de quem se dará melhor e escolhem lado e tomam as dores.

No meu caso, especificamente, eu sou a “vítima”. Foi ele quem terminou e é ele quem já tem namorada “sem nem mesmo respeitar o período de ‘luto'”. Então, sou eu quem tem recebido as mensagens de apoio, de “força” e de ofensas a ele.

Ele me perguntou se eu o tenho defendido. Não. Não é mais meu papel.

Não vou dizer que estou adorando as atenções, porque não estou, mas também não estou odiando. É invasivo, muitas vezes, é injusto, noutras, mas é interessante, antropologicamente falando.

O justo seria eu dizer que o amor já havia se acabado e havia somente uma tolerância branda entre nós. Assim como uma preguiça imensa e uma sensação de desespero da minha parte, pois havia uma empresa e inúmeros bichos nos prendendo um ao outro. Ainda há, mas não há mais prisão.

Se eu tivesse tido coragem, vontade, vergonha na cara, eu teria partido em 2007, quando a coisa se mostrou inviável. Em vez disso, empurrei com a barriga e chorei no cantinho, atos de extrema covardia e pobreza de espírito. Portanto, se sou “vítima”, sou por escolha própria. O que ele fez – mesmo que da pior forma -, foi me libertar. Agradeço imenso.

Quanto à namorada dele, parece que todo mundo a minha volta tem uma opinião e uma opinião somente. Eu não me sinto com vontade de julgá-la, cada um sabe de si.

Quanto a mim, estou tratando da minha própria vida e ter tanta opinião e julgamento mais atrapalham do que consolam. Estão me forçando a cumprir um papel que não me cabe, mas o tenho desempenhado, mesmo assim. Por isso, parafraseando Dani Calabresa, recomendo: “todas as pessoas perfeitas e santos canonizados: podem guardar as pedras”. Agradeço imenso.

Eleições

O Di Vasca perguntou, dia desses, se você (ou eu, qualquer um) acha que quem votar em algum candidato que não seja o seu é burro. Não sei responder com “sim” ou “não”, como ele exigiu, porque depende.

Depende… Se você vota no PT… Se você acredita nos dados da ONU sobre o Brasil… Se você “avalia” os números sem avaliar o que está por trás dos números… Se você realmente acredita no “eu não sabia de nada” que tem rolado a cada denúncia de corrupção… Se você tende à falácia, ao sofisma e à esquerda lulopetista… Sim, você é um abobalhado, na minha humilde opinião. Não uso a palavra “burro”, porque são animais que merecem respeito.

E minha humilde opinião casa com a desse senhor:

Ovos da polêmica

Dia desses eu disse que dissertaria sobre ovos e a polêmica vegana. Chegou a hora!!

Sim, eu sei que muitos - se é que há muitos – dos que vêm aqui não estão nem aí para veganismo, mas, ó, é o que tem pra hoje.

Estava eu trocando e-mails com uma vegana muito simpática - coisa cada vez mais rara de se encontrar -, quando surgiu o assunto “ovos”. Veganos são radicalmente contra o consumo dos ovos, seja como for. O principal argumento é que os ovos pertencem às galinhas, assim como o leite às mães – seja de qual espécie for – e a seus bebês. Ademais, criar galinhas com algum propósito é especismo e escravidão. Eu discordo.

Ganhei dois casais de penosas há uns 6 anos com o objetivo de ter ovos em casa. Elas ficavam presas num galinheiro e eram estressadas. Meu quintal tem cerca de 500m² e estava se enchendo de mato. Pensei: galinhas soltas são felizes e comem mato. Desde então, elas estão soltas, ciscando pela casa. Até dentro de casa, quando querem.

Depois de uns meses, uma conhecida, que tem lúpus e havia desenvolvido alergia às penosas dela, me doou quase todas, porque sabia que eu não as mataria. Vieram pavões, peruas, d’angolas, sedosas japonesas e muitas garnisés. Com o tempo, tive que doar pavões, peruas e d`angolas por causa do barulho que faziam. Não só por causa dos vizinhos reclamões, mas porque são aves que voam e precisam de mais espaço do que eu tenho. Doei com promessas de nunca serem mortas e estão quase todas bem. As d’angolas encontraram predadores pelo caminho… :-(

Minhas galinhas são mais livres do que meus gatos e cães. Elas andam por toda a casa, comem e defecam por todo lado. O limite é o muro da casa e, mesmo assim, se elas quiserem sair, conseguem, porque as asas não são cortadas. Não saem porque gostam do que têm aqui. E o limite que recentemente impus a elas é uma terrinha que telamos, para poder plantar.

Não fiz ninhos, elas botam onde querem. Já fui surpreendida por um punhado de pintinhos brotando da casinha do cachorro. Elas têm poleiros, mas preferem dormir nas árvores. Chocam quando querem, criam como querem e quando não querem eu assumo as crias. Pelos menos 1/3 delas foi criado por mim. Já ameacei não deixar mais elas chocarem, por causa dos abandonos, mas elas driblam proibições. Qualquer proibição.

Elas capinam porque é da natureza delas revirar a terra em busca de comida. Elas comem de tudo e o tempo todo, inclusive ovos! Minha avó diria para queimar o bico delas, mas eu não faria isso. Não preciso de muitos ovos e não me importo em compartilhar. Elas só não comem ração, porque não precisam de incentivo para botar – e porque não confio em rações.- E elas botam porque faz parte do ciclo de vida delas e seguem o ritmo delas.

Acho que é uma troca justa: eu dou comida, espaço, casa, proteção e carinho e elas me dão ovos. Por isso, não vejo mal em usar o propósito da galinha a meu favor, porque não a desfavorece em nada. Na natureza, isso é chamado de simbiose.

Se eu fosse ter galinhas sem nenhum propósito, eu não as teria. São bichinhos bagunceiros, brigões e extremamente barulhentos, cuja manutenção me custa um bom dinheiro. Não são “doninhas” simpáticas e autossuficientes. Se não fosse por mim, das cerca de 50 que moram aqui, somente uma delas teria nascido e, mesmo assim, já estaria morta, já que tem uma doença genética que faz com que seu bico cresça infinitamente e precisa ser alimentada em separado.

Há as teorias que dizem que vacas, porcos, galinhas, carneiros, bodes, burricos e qualquer outro animal que tenha um “propósito” na vida humana estariam extintos num mundo vegano/abolicionista. Humanos começaram a criar cavalos para transporte e tração. Cães para segurança, companhia e ajuda na caça. Gatos, porque caçam ratos. Mesmo hoje, há um propósito na criação de animais, mesmo que seja tirar fotos deles para o Instagram. Em troca, bons humanos dão amor, comida, cuidados, segurança. Sem troca, não há animais de estimação e vai ter que haver muito vegano e muito santuário para evitar a extinção de um punhado de bichos domesticados que não se viram mais muito bem na natureza. Ou que, na falta de predador, podem se virar até bem demais e destruir geral.

Enfim, não vou enterrar os ovos ou distribui-los por aí ou deixar para as galinhas consumi-los integralmente, porque não vejo motivo. Assim como, apesar do cocô das galinhas também sair das cloacas delas, não vou deixar de usá-lo como fertilizante para minhas plantas. E se eu porventura viesse a ser mãe, doaria meu leite excedente a banco de leite, porque ele não precisaria ser somente do meu filho.

Há, neste mundo, inúmeros animais explorados, escravizados, maltratados, mutilados, assassinados, torturados e os meus – sim, meus, propriedades minhas, diante da Lei – não estão entre eles. Não como outros ovos além dos das minhas galinhas e minha consciência está tranquilona.

Não faço questão, como nunca fiz, de ser vegana. Acho complicado, engessante e frustrante – além de impossível – tentar fugir de tudo o que fere qualquer ser vivo neste mundo, neste tempo.

Sou bem-estarista, sim, porque sei que não se obriga a mudança de hábito só com palavras – agressivas – ou lógica incompleta e o despertar de consciência varia de caso a caso, de pessoa a pessoa. Se pessoas e animais de estimação vão continuar a consumir carne – meus gatos jamais serão vegetarianos -, leite e ovos, não importa o argumento, que seja em menor quantidade e de animais que tiveram a oportunidade de viver o melhor possível.

Os problemas do planeta não estão somente ligados ao que se come, mas como e quanto se come. A quanto e como se consome. A quanto lixo se produz e a destinação que se dá a ele. À quantidade de energia elétrica e água consumidas e desperdiçadas. Aos produtos cosméticos e de higiene que se usa e quais as consequências desse uso ao meio ambiente. E, também, à quantidade de amor e solidariedade que se tem pelo próximo. Minimizar tudo a poucos culpados é simplista e preguiçoso e é a cara da Marina Silva, além de dar a falsa ideia de que se está fazendo a coisa certa e toda a parte que lhe cabe neste latifúndio quando se torna um vegan extremista. Ao vegan extremista tem faltado empatia ao seu semelhante, o que causa mais conflito e rejeição do que traz soluções.