Perícia

Acordei às 5h50, com um mensagem vinda do WhatsApp. Pensei que ele não tocaria antes das 6h, porque o havia bloqueado por 8 horas. Estava enganada.

Fiz uma horinha antes de me levantar, tentei voltar a dormir, mas não obtive sucesso. Às 6h30, estava pronta para sair.

Fomos de carro, eu e minha tia. A Previdência Social fica até bem perto da casa da minha avó e chegamos rapidamente.

Enquanto aguardava a chamada, sentei-me ao lado de uma jovem senhora. Ela aparentava certo mau humor e dei-lhe o melhor dos “bons dias”. É tão evidente a reação às pequenas gentilezas que não entendo como pode alguém sair por aí com cara fechada. A mulher, imediatamente, se tornou solicita, me ajudando a entender os procedimentos. Não era minha intenção obter informações, seja como for, mas ela se mostrou muito satisfeita em ajudar.

A fila estava bastante organizada, a burocracia não comprometeu o atendimento e a espera foi pouca. Mas deu-me tempo de conversar sobre fraturas na perna com uma outra jovem senhora. Esta, ajaponesada, bonita, de certo modo, apesar dos descuidos com a aparência e o ar cansado. Acho que identifiquei-me com ela, nisso. O sorriso resignado, de quem depende ainda de alguém, era triste.

Ela sofreu um acidente tolo, mas terrível: virou o pé direito, descendo degraus, quebrando, assim, a perna e, consequentemente, rolou escada abaixo, luxando o joelho esquerdo. Não penso na dor que, em pouco tempo, fica no passado, mas no incômodo. Este, presente por muitos meses. Estar com as duas pernas comprometidas é o dobro de sofrimento, de dependência.

Pior, talvez, tenha sido a fala de seu médico: “minha senhora, se precisar correr por sua vida, desista. A senhora não correrá mais. E nem usará salto.” A informação me alarmou um pouco, já que quebramos os mesmos ossos e ela não tem placa e 11 pinos! A fratura no pilão da tíbia, responsável pela fala do médico, é bem complicada. Meu Dr. Gato já havia me dito que terei problemas futuros, mas os imaginava na velhice e, não, num futuro tão próximo. Quero poder correr e, quando muito necessário, usar salto.

A consulta foi tão breve como tudo mais, até então. A médica me perguntou o que aconteceu, eu contei-lhe. Minha tia acrescentou o detalhe “do gato” que, por mais irrelevante que fosse, levou a uma pequena discussão sobre o comportamento dos felinos. Ela avaliou brevemente as radiografias, olhou, mais por curiosidade do que por obrigação, meu pé, sem se levantar de seu lugar, e me desejou boa recuperação. Saí de lá sem saber mais do que sabia quando entrei.

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Escrevo tantas linhas e tantas palavras para falar tão pouco e de um assunto tão sem interesse em homenagem à Rosamunde Pilcher, de quem estou lendo O Regresso. São 1091 páginas de muitos detalhes e pouca história. Eu teria escrito um conto, quando ela escreveu um livro imenso. Parabéns a ela, é muito difícil ser prolixa.

32º Dia

Querido diário, lá se vão 32 dias desde que quebrei a perna.

As pessoas têm gostado de dizer que sou forte, guerreira, como seu eu fosse uma heroína e, não, alguém que está simplesmente arcando com as consequências de uma decisão errada. Como se isso fosse voluntário, só que eu  não tenho escolha. Claro, tenho a escolha de encarar tudo de bom humor e, na medida do possível, é o que faço, já que mau humor não ajuda em nada. Só não imaginei que teria que ser Pollyanna por tanto tempo.

Mais uma vez, subestimei minha fratura. Com 30 dias, já me imaginava voltando a caminhar, mas ainda não posso sequer apoiar o pé.

Estou fazendo Fisioterapia e, surprise surprise, não é tão ruim quanto me alertaram. Também não é gostoso, mas é minha oportunidade diária de sair de casa e ver pessoas diferentes. O que também não é gostoso, mas distrai. E meu pé que, apesar de não ter sido fraturado, é o problema, voltou a se mexer. Ainda está MUITO inchado e dolorido, mas está indo. Vejo progressos.

Dona Conceição, companheira de Fisio, 80 anos, 4 vezes graduada em cursos na área da Educação, mãe de uma brilhante mulher com 8 graduações e avó de vários netos que seguem o caminho dos estudos, deu-me o precioso conselho: “esteja sempre linda e bem cuidada”. Para ser bem sincera, nem estou tentando. Meu cabelo está caindo em tufos. Minha massa muscular derreteu todinha e mal tenho forças para dar meus pulos de muleta. A posição em que passo meus dias mais a comilança que me é desnecessária, mas que alegra a vovó, estão me deixando pançuda. Me mantenho depilada e de unhas aparadas e isso é tudo em estética que tenho me empenhado – mesmo porquê tem mais a ver com higiene…

Nesses 32 dias, não vi as 6 peças de teatro que eu queria, não fui à FNAC conhecer o Alexandre Beck, o pai do Armandinho, não fui aos festivais gastronômicos e às exposições que estavam acontecendo. Pelo menos, comemorei meu aniversário, terça, na casa de queridas amigas, que me prepararam uma festinha vegana. Uma pausa maravilhosa para a alegria e o amor. Mas, na maior parte do tempo, estive tão somente definhando, em uma casa que não é a minha. Deixei o Diabo montar sua oficina na minha cabeça vazia e, por vezes, fiquei amarga e infeliz. Mas estava sendo salva, paulatinamente, por Cristo, o gato, que vinha me dar cabeçadinhas, ronronando pouquinho, porque ele é contido, e me fazendo companhia. Só que, na sexta, ele sumiu.

armandinhobolo

cristo1Demorou tanto a acontecer que imaginei que não mais aconteceria. Por 30 dias, ele foi livre e não foi embora. Daí, resolveu que era hora e se foi… Quebrei minha perna para evitar que isso acontecesse e, de perna quebrada, inútil, não tive como evitar o inevitável, já que meu pai é teimoso e incapaz de enxergar as coisas pelo meu ponto de vista. As pessoas têm que parar de achar que gatos devem dar suas voltinhas. Não devem, não neste mundo, não nesta época. Há doenças, brigas, cães ferozes, arames farpados e cercas elétricas, pessoas ruins e trânsito intenso, tudo isso, contra os gatos.

Sexta, Cristo se foi, Pollyanna morreu e, desde então, sou só dissabor, um barco sem mar, um campo sem flor…

Peripécias da Pi

O dia havia amanhecido lindo e azul, depois de uma noite de chuva. Acordei às 7h, como em todas as quartas-feiras, e pensei em fazer uma horinha na cama, com preguiça de ir caminhar. Mas os gatos, como sempre, não me permitiram.

Fora do quarto, estava fresco e deixei os gatos saírem pra passear, enquanto eu trocava águas e enchia as vasilhas de comida.

Cristo aproveitou que baixei a guarda e subiu na jaboticabeira. Foi-se lá pra cima, inalcansável. E, claro, me apavorei. Se ele descesse para o telhado, havia o perigo de uma porção de cercas elétricas que, possivelmente, ainda estariam ligadas. Se continuasse pela árvore, havia risco de queda, pura e simples.

Aguardei para ver se ele descia sozinho, sem acidentes, mas ele preferiu o telhado, mesmo. E lá chegando, começou a miar. Um miado sofrido… Quanto mais ele miava, mais eu me decidia a pegar a escada e subir. Só que eu estava sozinha. Meu pai ainda demoraria uns 30 minutos pra chegar - muito tarde – e minha avó não me deixaria subir, muito menos me ajudaria. Fui.

Armei a escada, aproximei do telhado, testei, subi. Ele correu pra longe de mim. Desci. Pensei. Levei a escada para um outro ponto do telhado. Testei. Rearrumei e retestei. Subi. E a escada escorregou e caiu.

Minha vida não passou diante dos meus olhos, mas as possibilidades, sim. Se eu caísse pra frente, com a escada, eu poderia bater com a cara no chão e/ou quebrar os braços. Pra trás… A pilastra estava longe, não estava alto, achei melhor. Me projetei pra trás. Mas minha perna esquerda resolveu se enganchar entre os degraus. Ainda tentei puxá-la (tenho um bruto hematoma para provar), mas o pé ficou.

Bati no chão em silêncio, com suavidade e algumas fraturas na perna.

Minha avó apareceu xingando: “vai acordar os vizinhos!” Meu pai apareceu na janela - ele mora exatamente do lado – xingando: “quê que você tá aprontando” emendando com “eu te falei pra não mexer nessa escada!!!”. Enfim, família, eu quebrei a perna. Chamem alguém pra me ajudar.

Depois de meia hora caída no chão, imóvel, com milhares de formiguinhas andando sobre mim, a ajuda apareceu. Três mocinhos me imobilizaram na maca e me levaram para o Life Center. Fiz respiração cachorrinho enquanto eles colocavam a tala. Fiquei pensando: parto não pode doer mais do que isso.

Cheguei ao hospital imaginando que estava tudo resolvido. Seria assim: uma radiografia, constatava-se a fratura, punha-se o osso no lugar, enfaixava-se, engessava-se. Injeções, sessão de bronca do doutor e alta. Ainda chegaria em casa a tempo de descansar e trabalhar na parte da tarde.

Na real, foi assim: espera. “Onde dói?”. Radiografia. “Menina, você fez estrago, hein?”. Espera. “Vai ter que operar. Se der, ainda hoje.” Espera. Xixi na comadre. Espera. Moça veio tirar sangue e quase leva o braço. Espera. Moço veio colocar o catéter. Remédio pra dor – que não fez nem cosquinha. Espera no corredor. Peço água. Médico, já meu íntimo, me chamando de Pat, diz que eu não posso, porque vou ser operada no começo da tarde. “Mas são 10:30!!!” Bebo água escondido. Espera. Desço para a enfermaria, enquanto não vaga um quarto. Vem meu pai, vai minha tia. Dona Nadir, possivelmente com Alzheimer, dá um show na enfermaria. “Deus, vem me buscar. Nenhum velho deveria sofrer assim.” Metade era manha, mas ela tinha pedra nos rins. Não estava fácil para ela, também. Aliás, para ninguém ali.

A dor individual parece menor diante da dor coletiva, mas, ainda assim, precisei de Tilex. E de morfina. E nada foi de muita ajuda. Meu pai se foi, minha tia voltou e conseguimos um quarto. Sobe pro quarto. Espera.

Eram 20:30 quando chegou o enfermeiro para me ajudar a me despir para a cirurgia. “Está de jejum?” Oi? Desde às 19h do dia anterior!!!

O bloco cirúrgico estava lotado! Não havia espaço para manobrar macas. Mas, ali, a espera foi curta. Fui logo pra sala, o anestesista já veio logo se apresentando e me dando drogas das boas!! Apaguei. Acordei com o médico falando dos meus hematomas e me mostrando as fotos da cirurgia.

antes depoisTrês fraturas no tornozelo e uma no pilão da tíbia e tenho minha própria Torre Eiffel!!

À 1:30 desci pro quarto. Não dava mais para comer. Dormir foi tarefa inglória, mas sobrevivi. Recebi alta na tarde de quinta e estou em ritmo de axé (tira o pé do chão!!) desde então.

Passei por 11 enfermeiros – o moço do catéter, Jordano, Jackson, Patricia e Úrsula estão no meu coração. Contei minha história para cada um. Já via o momento da peregrinação para ver a moça que se estropiou buscando Cristo. O anestesista foi uma pessoa maravilhosa e não passei nada de mal com a anestesia. O ortopedista, bonitão, é também competente, simpático e debochado. Deu tudo certo.

Meu pai cuida dos gatos. Minha avó cuida dos cuidados. Minha tia cuida das compras e transporte. Cristo voltou e cuida de me dar carinho todo dia. Tudo certo, aqui também.

Hoje, tive retorno médico – e consegui as fotos que ilustram este post – e conheci mais uma vítima das escadas de armar de alumínio! O cara quebrou o calcanhar! Pela cara do doutor, ele está pior do que eu.

Aprendi coisas nesta aventura!

• A não me precipitar mais. Que chamar os Bombeiros para resgatar o gato em vez de me arriscar a ter que chamar o Samu para me socorrer é o mais sensato.

• Que família é uma formação de elementos difíceis, mas esse amor que (n)os une ajuda a remendar ossos.

Reafirmei coisas:

• Gatos são excelentes companheiros, são solidários e amigos!! Não são cães e não têm que ser comparados a cães.

• Amigos não têm que ser testados nem amizades são medidas em momentos difíceis. Alguns são mais participativos, outros são contemplativos, há os escondidos, que esperam o pior passar para dar um “oi”. Há, até, os totalmente desinformados, que nem sabem o que está – e se está – acontecendo. Todos são ótimos! Todos são bem-vindos!

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E, pra fechar, um conselho de amiga: tenha um bom plano de saúde em dia. Se eu tivesse que pagar por todo o atendimento que tive, que foi o melhor possível, eu teria que vender um rim. Planos de saúde são caros e parece desperdício de dinheiro, mas nunca se sabe… Até às 7h de quarta passada, eu fazia planos de caminhar na Silva Lobo e, depois, entrar em alguma academia, para me matricular na musculação. Jamais esperava terminar – muito menos, começar! – meu dia num hospital…

 

Mundo enfeiado

Sou direta, simples, honesta. Não sou ciumenta, respeito liberdades e individualidades. Não me envolvo com homem comprometido – mesmo sendo tentador, às vezes. Raramente me ofendo, procuro não ofender. Não curto polêmicas nem discuto política, futebol ou religião – e acho que peco nisso, mas é seguro assim. Gosto de música, não de qualquer música, mas posso muito bem me divertir num show de arrocha. Juro. Não bebo, mas posso beber, desde com muita moderação. Não fumo, aliás, tenho alergia braba a cigarro, mas não me incomodo (muito) ou incomodo os fumantes da área. Nunca experimentei nenhuma droga, mas não julgo quem curte. Sou vegetariana, mas não faço discursos nem tento convencer ninguém de nada. De nada mesmo. Minhas verdades me pertencem e sou feliz com elas. Sim, tenho sido feliz. E, por isso, quase não tenho reclamado.

Tenho defeitos, também. Ontem, descobri que meus piores estão na primeira frase deste post: sou direta, simples, honesta. Ninguém quer isso, ninguém gosta disso. Ser direta, então, que coisa mais assustadora. O negócio é fazer rodeios, é enrolar. Honestidade?! Que loucura é essa?! Minta! Egos agradecem o carinho! Ser simples é menos pecaminoso, mas como não existem mulheres simples, há algo de muito errado comigo.

Um exemplo de como as coisas são complexas, hoje em dia, é que eu sempre fui atrás de quem eu queria, desde que eu tinha 13 anos. Não pode mais! Bata cabelo e jogue charme até que o rapaz lhe note em meio a milhares de mulheres e pense se quer fazer alguma coisa a respeito. Iniciar uma conversa ou chamar um cara para ir ao teatro é quase um crime, em BH. Mesmo. E enquanto eu acho que tudo poderia muito bem ser assim:

_ Ei! Gosto de você. Fica comigo?
_ Hmmm… Não quero…
_ Alguma chance de você mudar de ideia?
_ Não.
_ Ok, então.

As coisas são cada vez mais assim:

_ Ei! Gosto de você. Fica comigo?
_ O quê?! Sua oferecida!! Sabe quantos sinais você avançou nessa proposta indecente?! O que você quer de mim?! Quem você pensa que eu sou?!
_ Oi?! Mas, enfim, você quer ou não ficar comigo?
_ Quero, mas não vou, porque você me insulta com sua insistência.

Isso me dá preguiça, mas procuro não esquentar a cabeça. Quem me quiser vai ter que querer como sou e sou assim. Nem disfarço. Se ninguém me quiser, ok, eu me quero, sem tirar nem por. E me basto.

Charlie Hebdo

Geralmente, me abstenho de dar palpites em assuntos ultra polêmicos, porque não vale a pena. Mas… Charlie Hebdo, mesmo tendo sido um reles desconhecido para mim, até o atentado, me é caro. Amo cartoons, amo charges, amo cartunistas. Acredito na provocação do humor e condeno veementemente sensibilidades exacerbadas, de quem quer se impor sobre os outros.

Discordo do Papa: não há limites para a liberdade de expressão. Há, talvez, punições legais, mas limite e liberdade se opõem. E, ademais, quem imporá os limites? Baseado em quê? Muitas vezes, a ofensa só existe para o ofendido, que opta por se ofender, que busca se ofender.

Se alguém falar mal da minha mãe, ou de alguém que eu realmente amo, eu tenho inúmeras opções: deixar falando sozinho, “ouvir e ponderar”, “ouvir e concordar”, “ouvir e me ofender”, mas, dificilmente, “ouvir e socar” é uma delas. A agressão física, para mim, é sintoma de que se acabaram os argumentos, mas sobrou bastante raiva. Não permito que me façam tamanha raiva.

Retratar o Profeta do outro, mesmo sendo proibido na religião do outro, não é somente liberdade de expressão, mas direito e livre arbítrio. O seu pecado não me representa. Que seu deus, todo poderoso, me puna, se achou ruim, se for tão mundano a ponto de se ocupar com um desenho, enquanto o mundo está – e sempre esteve – em caos. Mas cometer um pecado mais grave e que também é pecado na sua fé, só para tomar as vezes do seu deus e me “mostrar as consequências dos meus atos” é absurdo.

Dizer “ah, eles fizeram por merecer”, “a provocação do Chalie Hebdo foi desnecessária” ou “depois de tudo o que aconteceu, nem assim eles aprenderam a lição” é dar razão aos assassinos, é confirmar que eles tiveram motivos. E não tiveram. Não provocar, se encolher em posição fetal e deixar de se ser o que se é por medo é, também, dar moral ao vilão. A vítima não é o Islã. Mas Charlie Hebdo, mesmo podendo, não se fez de vítima.

“Je suis Charlie” não lhe representa porque Charlie Hebdo não lhe representa? Ok. Esse é um jornal, não o Congresso Nacional. Eles não têm obrigação de representar ninguém além deles mesmos! Você não acha graça, não gosta, acha imoral e ofensivo? Ok, também. É de seu pleno direito, assim como o de não ler ou comprar o Charlie. Você pode até mesmo ficar num mimimi sem fim nas redes sociais, expondo exaustivamente sua opinião, porque, veja bem, isso é liberdade de expressão e ela funciona até com coisas/pessoas/situações chatas e que incomodam! Lindo isso, né?!

Agradeço imenso

É impressionante a quantidade de pessoas que se sentem à vontade para se envolver no fim de relacionamento de duas pessoas. Talvez seja porque relacionamentos não pertencem somente a duas pessoas. Casamentos – e términos – são eventos sociais. Testemunham o começo e querem participar do fim. E, assim, fazem suas apostas de quem se dará melhor e escolhem lado e tomam as dores.

No meu caso, especificamente, eu sou a “vítima”. Foi ele quem terminou e é ele quem já tem namorada “sem nem mesmo respeitar o período de ‘luto'”. Então, sou eu quem tem recebido as mensagens de apoio, de “força” e de ofensas a ele.

Ele me perguntou se eu o tenho defendido. Não. Não é mais meu papel.

Não vou dizer que estou adorando as atenções, porque não estou, mas também não estou odiando. É invasivo, muitas vezes, é injusto, noutras, mas é interessante, antropologicamente falando.

O justo seria eu dizer que o amor já havia se acabado e havia somente uma tolerância branda entre nós. Assim como uma preguiça imensa e uma sensação de desespero da minha parte, pois havia uma empresa e inúmeros bichos nos prendendo um ao outro. Ainda há, mas não há mais prisão.

Se eu tivesse tido coragem, vontade, vergonha na cara, eu teria partido em 2007, quando a coisa se mostrou inviável. Em vez disso, empurrei com a barriga e chorei no cantinho, atos de extrema covardia e pobreza de espírito. Portanto, se sou “vítima”, sou por escolha própria. O que ele fez – mesmo que da pior forma -, foi me libertar. Agradeço imenso.

Quanto à namorada dele, parece que todo mundo a minha volta tem uma opinião e uma opinião somente. Eu não me sinto com vontade de julgá-la, cada um sabe de si.

Quanto a mim, estou tratando da minha própria vida e ter tanta opinião e julgamento mais atrapalham do que consolam. Estão me forçando a cumprir um papel que não me cabe, mas o tenho desempenhado, mesmo assim. Por isso, parafraseando Dani Calabresa, recomendo: “todas as pessoas perfeitas e santos canonizados: podem guardar as pedras”. Agradeço imenso.

Solteira aos 40

Eu estava meio em pânico em começar do zero aos 40. Somatizei tanto stress que achei que não chegaria ao 41. Mas vou chegar.

Apenas ontem me dei conta que não começo do zero. Começo dos 40. Com 5 gatos e, talvez, alguns surpresa. E, também ontem, entendi que 40 são os novos 20. Viva!

Recapitulando: este foi um péssimo ano para meu casamento. Não que os anos anteriores tenham sido bons, porque não foram, mas foram suportáveis. 2014 chegou dando chute do fígado. E, assim, acabou-se o que já não era doce… Desde sempre.

Não estou sendo mal agradecida, recalcada ou coisa do tipo, mesmo que pareça. Nunca foi bom. Itaúna nunca foi boa para mim. O isolamento nunca me fez bem, me deixou mais ácida e amarga do que o meu normal – meu normal é agridoce. Faltou respeito e amor desde o momento em que as caixas se acumularam na casa nova. Mas parecia tarde demais para voltar atrás. A vida teria sido boa se tivesse sido mais generosa conosco, mas não foi. 8 anos de provação foram demais para qualquer dois. Enfim, acabou.

Ainda não tenho para onde ir com 5 gatos, apesar da mobilização para me arranjarem um lar. Tenho amigas no Rio me chamando para ir pra lá, mas ainda quero dar uma chance à Belo Horizonte, cidade com a qual eu fui muito injusta, há 8 anos. Ela está mais caótica do que antes, mas ainda tem seu charme.

Tenho novas velhas amigas, meninas que conheço desde criança e que voltei a amar. Amor requer presença, aprendi. Também aprendi que tesão só requer um muso e eu tenho um muso. Ainda sou bonita, mais do que meu espelho costumava me mostrar, e beleza dá segurança. Portanto, estou segura, tenho amigos, tenho tesão. Estou ótima!! Falta pouco para eu estar 100%.

Às vezes, a gente fica adiando o inevitável, porque mudanças são assustadoras. São mesmo. Talvez o cérebro não goste delas, porque ele entra num processo de boicote terrível, mas acredite, isso é normal, passa e, principalmente, algumas mudanças são necessárias.

2015 vai ser um ano difícil, segundo todo mundo, mas estou apostando minhas fichas nele. Acho que o balanço será positivo. Torçam por mim!

Quero voltar pra casa

Em setembro, faz 8 anos que saí de Belo Horizonte.

Na época, a cidade estava caótica. O trânsito não fluía, os ônibus viviam lotados em qualquer hora do dia, a violência e a sujeira aumentavam. Se não bastasse, eu detestava meu emprego e meu namorado - atual marido – estava com Síndrome do Pânico, o que piorava tudo. Quando ele decidiu que vir para Itaúna seria o melhor para ele e quis que eu viesse junto, topei sem nem pensar.

Eu deveria ter pensado. Ter mais de 30 e ainda viver na casa dos pais – no meu caso, da avó – não é legal. É cômodo, é barato, é prático, é gostoso, mas não é “adulto”. E a tentativa de me tornar adulta, na verdade, foi o que mais me encantou. E me ferrou.

Não porque eu não goste de Itaúna – e realmente não gosto, por N motivos. Não gostar da cidade em que se mora não ferra ninguém. Mas os N motivos ferram e, faz tempo, eu me arrependo amargamente de ter vindo parar aqui. E piora: eu, simplesmente, não consigo sair daqui, nem a passeio.

Ter 8 gatos e não ter plena segurança para eles, me prende à casa. Não tenho mais alguém de confiança para olhá-los se eu tiver que me ausentar. Então, não me ausento. E não dá para carregá-los debaixo do braço nas inúmeras horas que me bate a vontade de bater em retirada. Não tenho para onde levar nem sequer os 4 que são exclusivamente meus. Não tenho grana nem pro caminhão de mudança.

É fato, a cidade me empobreceu. Em termos de dinheiro, nunca vi tanta desvalorização do meu trabalho e tanto calote, tanta má vontade em pagar. As pessoas ficam furiosas por receber notas fiscais – o que, diga-se de passagem, a Lei exige quando se presta um serviço – como se elas representassem um dedo na cara acusando uma dívida. Teve um cara de pau que nos respondeu com: “quer receber? Arrume um advogado. Só se lembre que EU sou advogado e, pra mim, sai de graça”. E essa criatura tem a pachorra de me cumprimentar e querer dar 3 beijinhos toda vez que a gente se encontra nessa cidade minúscula. A cara não queima. As caras não queimam.

Hoje, eu tenho MUITO menos dinheiro do que eu tinha há 8 anos, trabalhando numa loja e odiando cada segundo. Hoje, eu odeio mais meu trabalho do que quando trabalhava sábados e feriados atendendo pessoas que queriam meu projeto, mas não queriam os “nossos” móveis. E olha que a agência emenda feriados e até permite cerveja nas sextas, durante o almoço da “firma”. E não está melhor. Os sapos da loja – e olha que uma cliente chegou bêbada, certa vez, e me unhou, porque eu não teria lhe dado atenção – eram pequetitinhos perto dos cururus diários. A internet me contou que isso é mal da profissão, mas, aqui, estou engessada nela. Não posso reagir, não posso sair da “firma”, porque a “firma” é minha…

O custo de vida é alto. Supermercado e varejão são “pela hora da morte”. Ração e areia de gato, tenho que importar de outras cidades. Frete bem mais caro e sem Sedex 10, por ser interior. Qualidade de vida, que todo mundo falava, não tem. A cidade é feia e suja, a água é suja, a barulheira é generalizada, não tem prefeito de verdade há anos, não tem polícia, mas tem bandido à beça. Não tem pra onde ir ou o que fazer. As pessoas se suicidam aqui com muita frequência. E tem gente tão fútil e à toa que, diante disso tudo,  fica reparando as unhas dos outros – e eu não faço unhas, mais!

Queria estar em BH. Queria ter passado meus dois últimos aniversários no colo da minha avó, em vez de sozinha. Queria ter ido no Pai de Santo que planejo desde março. Queria ter me despedido da minha babá, que morreu sem saber o quanto eu a amava. Queria ter abraçado o meu pai quando meu irmão-cão teve que ser sacrificado. Queria conviver com meu meio-irmão. Queria ir às festas de família. Queria ter ido ao Espaço Veg e almoçado no Las Vegans antes de fecharem – o Las Vegans jura que reabre. Queria estar no teatro, agora mesmo.

Quero ter quem me ama e me tolera por perto. Quero minhas amigas! Eu nem tenho mais amigas…

Radicais livres

Existem pessoas chatas aos montes. Se calhou de alguma delas ser vegana ou carnista, ateia ou evangélica, petista ou tucana, atleticana ou cruzeirense, calhou de se ter um radical chato de espécie específica. Daí falar que veganos/carnistas/ateus/evangélicos/petistas/tucanos/atleticanos/cruzeirenses são todos chatos; xiitas; pessoas que têm que impor a você verdade delas, senão não sossegam; segregadores ou qualquer outra porcaria deste tipo, bem, é uma boa pernada de distância. Generalizações não costumam ser coisa boa.

Tenho conhecidos – amigos de FB – radicais. Excluí, recentemente, uma pessoa tão absurda, que me deu preguiça. Excluo, também, quem ameaça excluir quem discorda. Já tomo a iniciativa. É claro que eu adoro pensar que estou certa, mas não me importo em ver opiniões contrárias às minhas, desde que se apresentem com carinho, sem chutar minha porta e enfiar o dedo na minha cara. Eu não me imponho e não aceito quem se impõe a mim. E, assim, convivo bem com carnistas, petistas, evangélicos e cruzeirenses, assim como com seus opostos, desde que todos bem educadinhos.

Opiniões cansam, às vezes, mas também contribuem com nosso crescimento pessoal, com nossas certezas, com o surgimento de dúvidas. Mas há opiniões que de tão imbecis e hipócritas e infundadas e irreais e desrespeitosas me dão nojo. Walcyr Carrasco teve a manha de fazer tudo isso ao mesmo tempo e mais. Para defender o seu carnismo, o cara usou Hitler como argumento. Pronto. Apelou, perdeu. Como se precisasse chegar a este ponto para perder. Sinceramente…

Vegetarianos estão certos, por N motivos, na forma de pensar e agir. E é por isso que incomodam tanto, a ponto de ter tanta gente pregando contra, criando “argumentos”, brigando, sofismando, se sentindo julgado. E é por isso que tanta gente tenta se tornar vegetariano. Eu, entre elas.

A ética com todas as espécies, o fim do especismo, o fim dos criatórios cruéis, o fim do uso de um ser vivente e senciente como produto de consumo ou de teste, tudo isso é correto. Não há argumentos que consigam colocar nada disso em cheque. Tente! O máximo que você vai conseguir é citar os leões, a cadeia alimentar, a evolução da espécie, o sentimento do alface ou chegar a um “Hitler era vegetariano!”. E vai errar em cada um dos argumentos.

vegan-sidekickComer carne não é uma necessidade há séculos, mas é um costume há milênios. O consumo de produtos de origem animal, hoje em dia, é uma compactuação com a dor, o sofrimento, a crueldade, a exploração, a escravização de seres vivos, além da degradação ambiental, através do desmatamento e do efeito estufa. É desumano. Sim, é gostoso e a feijoada vegana jamais estará aos pés de um pezinho de porco. Ok, mas eu não vivo de acordo com o que é gostoso, não sou hedonista nem sei se cabe sê-lo neste planeta. Optei por abrir mão de um prazer – que é só o que comer carne é – por aquilo que é ético e permanente. O prazer passa. Comida, daqui há umas poucas horas, vira merda – quando não colesterol, diabetes, câncer. Seu lindo sapato de couro, que dura mais do que o sintético, daqui a pouco cai de moda e vira lixo. Você, daqui a pouco morre e vira necrochorume. Mas o planeta permanece e seu rastro por ele permanece por um bocado de tempo.

Eu quero deixar um rastro pequeno, mesmo com um atraso de 40 anos. Eu nem tenho descendentes com os quais me preocupar e, mesmo assim, quero deixar um planeta vivo e saudável. Isso é o que minha consciência me pede. Já as dos outros, bom, os outros é que deverão lidar com elas, então… Só acredito que se sua consciência estiver carregada, como a do Carrasco, repense seus conceitos em vez de apelar.

Nota: Hitler, antes de qualquer coisa, era ser humano. Ou seja, se for comparar, f*deu pra geral!

Solteironas

Hoje mais uma amiguinha postou mais um textinho sobre mulheres solteiras e os porquês. Me abstive de dar palpite sobre o assunto, porque ela me acha agressiva (ui!), mas foi maior do que eu. Vim fazê-lo aqui. Mas, veja bem, é só um palpite, um pitaco, uma opinião pautada única e exclusivamente em minhas experiências de vida e minhas observações cotidianas. Não é um tratado, não é um estudo, não é um fato. Certo?

Então… Não li o texto até o fim, achei chato. O cara começou a analisar estatísticas e blá blá blá. Até agora, entre o texto mimizento de a culpa é da sociedade/minha mãe/dos homens e o debochado “vocês é que são chatas”, só li este último até o fim. Porque não era chato – o assunto, em si, o é.

Minha opinião: se você está solteira e isso lhe incomoda, esqueça tratados sociais e sociológicos, esqueça os psicologismos que, se ajudassem, não teria tanta gente com a cabeça f*dida por aí e parta do pressuposto que a culpa é sua. Avalie-se. Você está fazendo alguma coisa errada? Tipo, você tem saído somente com seu amigo gay, lindo e interessante, mas com o qual você não tem a menor chance e que, por ser lindo e não obviamente gay, afasta os homens que poderiam se interessar por você? Não? Tem certeza? Tem amiguinha minha, solteira, que divulgou o texto culpando os homens, que tem feito isso. Eu vejo as fotos!!

Aliás, você tem saído? Tem encontrado amigos de ambos os sexos, ido a shows, à biblioteca, a bares ou a quaisquer lugares em que possa encontrar pessoas com interesses similares aos seus? Você começa uma conversa com um homem que você acabou de conhecer falando de sua seca sexual ou sobre o fato de que você “resolveu esperar”? Você fala em ter filhos e família logo de cara? Não?! Nada errado com você, então. Ok. Agora, comece a procurar a culpa nos outros. Ou… Dane-se a culpa e siga em frente, vivendo sua vida. Um dia, acontece. Ou não. Faz parte.

Se não acontecer, em vez de ficar fungando solidão, monte uma república e vá viver com pessoas que se assemelham a você – depois de uma certa idade, não rola de ficar aturando diferenças, né? – Ou adote um cachorro, que vai lhe obrigar a dar voltinhas nas ruas e dar um up no traseiro, além de lhe amar incondicionalmente. Não quer sair? Gatos são ótimas companhias, além de quentinhos e engraçados. Caramba, quem tem bicho nunca está sozinho! Sim, sim, você passa o dia inteiro na rua e não tem tempo para cuidar de um bichinho… Entendo… Vá viajar, vá fazer serviço comunitário, vá ao cinema ou curta-se a ponto de não mais sentir solidão, porque você é excelente companhia. Faça qualquer coisa, menos compartilhar texto mimimi sobre ser solteira. #NobodyYesDoor