Plástica

Um dia desses, um cara, na fisioterapia, me perguntou se farei plástica no tornozelo. Entendi a pergunta. As cicatrizes estão horrorosas, a base do tornozelo está muito larga, por causa dos pinos, a perna está com atrofia muscular, ou seja, muito fina – mas melhorando! -. No meio do caminho, há uma depressão, causada pela necrose. O trem tá feio! Mas, mesmo feio, não penso em “arrumar” mais do que o necessário. Quero que minha perna funcione, não me importo que ela fique feia.

Em compensação, todo o resto que está feio me incomoda. A atrofia muscular não se limita à perna doente. Ela se expande por todo o corpo sedentário. A bunda cai. A barriga estufa – e cai. O peito cai. O rosto cai. Afinal, o corpo é um circuito onde tudo se comunica. A comunicação geral, hoje, é que eu me acabei.

Envelheci um bocado nestes 3 meses de perna quebrada. Hoje, se eu quisesse fazer um “mini lifting”, teria o que puxar. E se até um ano atrás eu era mortalmente contra (eu) fazer plástica – pelos animais testados, pelo risco desnecessário, pela vaidade desnecessária -, hoje, o que me impede é só dinheiro. Ainda bem!

Sem dinheiro para puxar, esticar e alisar, tenho que me contentar em tentar melhorar aos poucos. Investir em academia – farei sem preguiça, assim que me liberarem, já que aguento firme a tortura da fisioterapia -, em óleos e cremes – veganos! -, em vitaminas C e D – sol! – e tentar manter o bom humor, porque chororô envelhece anos!!

E se depois de tudo isso eu ainda precisar – subjetivamente, eu sei – de plástica… Bem… Tem cirurgião que divide no cartão! 😉

Deus me livre!

E, um belo dia, você se descobre apaixonada por ele. Obcecada. O livro que você estava adorando foi abandonado. A maratona de Arquivo X, pela qual você havia ansiado, foi deixada de lado. Tudo isso porque você só consegue pensar nele. O tempo todo. Até vai dormir mais cedo, na esperança de sonhar com ele. Às vezes, dá certo.

Como você já decorou todas as reações dele, mas sempre se desconcerta quando ele fala com você, começa a planejar. Tem três frases decoradas para cada possível resposta numa conversa de até 20 minutos. Depois disso, se chegar a isso, estará por sua conta. E se ele não seguir o roteiro? Melhor adiar o encontro até ter pensado em mais possibilidades. Ou não. Quando se encontrarem, ele falará exatamente o que foi esperado e, mesmo assim, nenhuma das três respostas ensaiadas sairá. Você ficará muda, de boca aberta, quase babando.

Talvez, se ele tiver algum interesse em você, até ache bonitinho o seu desespero desconcerto. Pode achar bonitinho sem te querer, também. Pois é, corre o risco dele não te querer. Como viver?! Em negação. Ou num universo paralelo onde ele te queira. Ou no mundo da fantasia que você já criou e vive em repetição, ensaiando para o dia em que tudo for realidade. Vai que…

E por que cargas d’água ele haveria de não te querer? Ele te acha bonita, você sabe disso. Mas é só o que você sabe dele. O resto, além das impressões que você tem (e aumentou em grau máximo para simular conhecimento de causa), é totalmente desconhecido. Você nem sabe se ele tem mulher ou se gosta de homem. Você supõe coisas, mas saber, não sabe. 

Não sabe se ele é casado. Ou petista. Se ele odeia animais ou é fanático por futebol. Se é racista ou se quer ter um punhado de filhos. Talvez, tudo isso junto. Mas no seu universo inventado, ele é tudo o que você sempre quis e, se em realidade ele falhar, você está pronta para perdoar. Ou não?

Não. Nada pior para um ilusão do que uma verdade inconveniente. E, de repente, você tem certeza de que ele não é nada daquilo que você sonhou. Ele é um sacripantas, um energúmeno! Como você foi tola de não ter enxergado isso!! Abra seus olhos, mocinha! Saia dessa fria!! 

Pronto. Já pode voltar para seu livro. Mulder e Scully também esperam por você. Vá ser feliz!

Correios – até quando?

Eu já reclamei dos Correios um zilhão de vezes. Já que Lula curte uma comparação com FHC, bom, na época do FHC era a estatal mais confiável do Brasil. Hoje… Aliás, há uns 16 anos, a coisa só decai. Serviços cada vez mais caros e ineficientes.

Meu primo me disse que o Senado aprovou a privatização dos Correios. Espero que se concretize. Entre outros motivos, abre-se concorrência e outras empresas podem começar a fazer o serviço. Porque, por enquanto, por causa de protecionismo, há coisas que só os Correios podem fazer.

E há coisas que os Correios deveriam fazer, mas não fazem. Como entregar encomendas, por exemplo. O rastreamento já não funciona bem faz um tempo. Muitas vezes, a encomenda fica lá em Pernambuco até chegar na sua casa, em MG, assim, de repente. Outras, você verifica que saiu pra entregar, fica em casa esperando e, quando dá o refresh, sua encomenda está voltando para SP, porque tentaram te entregar há 10 minutos e você supostamente não estava em casa. Só que você estava em casa. E não há nenhuma notificação em sua caixa do correio garantindo que a tentativa foi feita. Sei lá. Imagino que o carteiro estava com fome e resolveu ir lanchar em vez de me entregar a encomenda pela qual eu paguei R$ 19,00 de frete para receber hoje!

E você pensa em reclamar no site dos Correios? Boa sorte.

Subnanocelebridade

Quando eu era adolescente, queria fazer algo notável. Aceitaria de bom grado os 15 minutos de fama prometidos por Andy Warhol, mas, infelizmente, eu não tinha nenhum talento notável ou beleza notável ou inteligência notável. Eu era mediana em tudo, o que não é notável. Enfim, fui uma adolescente fadada ao esquecimento… :-(

Desde que quebrei a perna, tenho vivido, tardiamente, intensos minutos de fama. Primeiramente, no hospital, como já contei. Depois, na primeira clínica de fisioterapia. Hoje, na segunda clínica.

Era a primeira consulta, então, conta-se parcialmente a história, omitindo os detalhes sórdidos (o motivo), para evitar-se o choro, e testa-se o pé. E ele não mexe. O fisioterapeuta diz: “se doer, me avisa” e empurra meu pé, com força. E nada. Nem dor, nem movimento. “Vou passar seu caso para todos”, ele diz. E passa. Em pouco tempo, uns 8 fisioterapeutas estão empurrando, puxando, medindo, apalpando, torcendo, estralando meu pé. Mas o movimento necessário quase não existe. Pela medição, faço 8º dos 45º esperáveis.

Ninguém quer se ocupar da doninha que está iniciando os exercícios. Todos gravitam em torno de mim. “Olha, uma fratura no pilão da tíbia! Você nunca tinha visto isso!”

Enquanto gira meu pé, a moça pergunta: “Dói?”

“Não, não dói.”

“Nadinha?” – a cara de desconsolo acompanha a pergunta.

“Não.”

“Mas tem que doer. Se não doer, não há melhora.”

E todos juntos se esforçam ao máximo para trazer a dor.

“Ok, doeu. Deu uma fisgadinha.” – e todos se alegram. Não foi dor, foi só um repuxo nem tão desagradável, mas minto para manter as esperanças.

Pois é. A fisioterapeuta que prometeu que eu voltaria a andar, a correr e a usar salto falhou horrivelmente. O fisioterapeuta que me prometeu dor, ainda não conseguiu. Mas está ok, ele só teve uma chance. Aposto que conseguirá.

Assim, prevejo que as próximas 12 semanas serão de dor intensa. E bom que seja, porque é melhor do que não sentir nada. Segundo a turminha de fisioterapeutas, se não doer, não volta a mexer e entro na faca novamente. Isso, eu não quero!

Mesmo que eu fique manca, e é uma possibilidade, está tudo bem. O importante é que estou fadada a pertencer e me imortalizar no anedotário médico-fisioterápico. Minha história, da queda ao pé que, incensivelmente, se recusa a se mexer, será contada por várias gerações, sempre com o detalhe do gato – porque eu não conto, mas minha tia, fiel escudeira, espalha o “causo”! -. Meus 15 minutos de fama se cumprem e sou uma subnanocelebridade da ortopedia belorizontina.

Crazy Cat Lady

Comecei a reparar que existe uma certa torcida para que eu me apaixone pelo Dr. Bonitão. Ou que, pelo menos, a gente se agarre e role na relva ou coisa que o valha. Imagino que isso seria uma espécie de recompensa pela perna quebrada. Como se o meu acidente não tivesse acontecido em vão, mas fosse uma bela e dolorosa manobra do destino para me trazer o amor. Sem desdenhar, mas passo.

Já superei a fase de me apaixonar pelo meu ideal projetado na outra pessoa. É fria. Não suportaria que o príncipe encantado das minhas fantasias confirmasse, via Facebook, que comparecerá ao show “Sorriso Eu Gosto”. Seria muito desgosto. E, bem, considerando que nem sei de o Dr. é casado, solteiro ou “tico-tico no fubá” (expressão maravilhosamente terrível!), não tenho base para iniciar nosso relacionamento de sonho! É sério mesmo, vai que ele seja solteiro, mas adore Sorriso Maroto?! Ou pior! Que ele tenha nascido em Itaúna odeie gatos!!! 😮

Por essas e outras, apesar da torcida cada vez maior, continuaremos com nossa relação estritamente profissional. Não brincaremos de médico! Levaremos o assunto muito a sério, com exceção dos pequenos charminhos jogados de um lado e outro durante as consultas, só para descontrair.

Agradeço a você, caro(a) amigo(a), que torce por mim, mas já me acostumei com a ideia de ser um “crazy cat lady” e já tenho, inclusive, o roupão que pretendo usar para arrastar pantufas em casa, enquanto grito com os gatos!! 😉

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Abobrinhas

Parei de comer alho por um período de experiência. Os Hare Krishna não comem e justificam com muitas explicações. As melhores: faz a pessoa feder e tem a ver com raiva e descontrole. Não quero feder nem me descontrolar, então… O interessante é que tenho estado com melhor cheiro – meio óbvio, isso, né? Alho fede mesmo! – e mais calma. Pode ser efeito placebo, mas pode ser que não seja. Na dúvida, estou evitando alho, alho-poró, cebola e cebolinha. Para minha profunda tristeza, adoro os quatro.

Estou tentando andar, mas dói e está difícil. E não quero andar na piscina, como o Dr. indicou. E é por pura vergonha. Estou deformada e insegura. Eu estava tão bem, tão magra – saudável! – e em forma e, agora, estou tipo “Andressa Urach pós-coma”. Não dou conta de lidar. Ainda não.

Estou fazendo exercícios para o pé, uns alongamentos, e tenho tido ajuda do Zacharia, que tem conseguido driblar a “família pé-no-saco” – porque não deixa gato dentro de casa – e chegar ao meu quarto provisório para me dar e receber muito amor.

Zach é um dos que seriam doados, caso eu tivesse resolvido doar. Ainda bem que mudei de ideia, porque ele é delicioso demais. Do tamanho exato da minha carência. Não tem quem não o ame! Até minha avó o adora!!

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Comprei o FURminator para pentear os gatos e o Zach, o mais peludo da prole, deixou e gostou. Como saiu pelo no pente! E como ele ficou com aspecto menos sujo! Gente, eles estão todos imundos e eu não tenho como dar banho! Calamidade!

Também comprei Brinquedo Ecológico Pet Games EcoCaça Peixe e os gatos amaram. Até os antissociais se chegaram para brincar! Claro que seu eu deixar com eles, sem supervisão, não dura 5 minutos. Mas é para brincarmos juntos, o que é mais legal e durável!!

E depois de ler Sobre a Escrita, do Stephen King – recomendo para quem quer ser escritor ou ame muito o Steve. Caso contrário, há muitos outros livros dele para se ler -, não sei mais se consigo escrever um continho sequer. Virei crítica. Estou lendo A Imortalidade, de Milan Kundera, fazendo cortes (mentalmente): tirando advérbios e partes desnecessárias. Meodeos! Stephen King criou um monstro em mim! Como se houvesse necessidade disso!

Evolução

A Louizy, que está em Paris curtindo a vida adoidado!, pediu para eu contar sobre a evolução da minha recuperação, aqui. Por mim, eu não contava! Culpe ela!

Terça, fui ao Dr. Bonitão. Fui à consulta bem menos molambenta do que de costume e valeu a pena: ele me chamou de “minha linda”. Ok, ok, ele teria me chamado assim mesmo que eu estivesse péssima, pelo mesmo motivo que o leva a me chamar de Pat: é da natureza dele. Mas ando me sentindo tão feia que, mesmo não acreditando na minha lindeza, fiquei feliz. Na verdade, o Dr. tem umas expressões faciais sensacionais que, por si só, me deixam feliz. Ele nem precisa falar nada. Se eu fosse um pouco mais tola, estaria apaixonada. Mas não sou.

A boa notícia é que estou liberada a andar com duas pernas! A má notícia é que não sei mais fazer isso. Ele me mandou – mandou, não pediu – trocar de fisioterapeuta o quanto antes, o que me traz um problema: ter que telefonar. Odeio telefone. Por causa do meu ódio, estou com um dente quebrado há um mês ou mais. Mas vou me esforçar. Por ele. Só depois de 20 sessões, volto a vê-lo. E olha que eu não estou apaixonada, hein?! Haha

Tem também o fato de que dente quebrado incomoda, mas não andar é uma porcaria. E tem o fato de que eu quero me mudar logo! Preciso das minhas coisas, do meu espaço, dos meus gatos e da minha responsabilidade de volta!! Se eu ficar mais tempo do que o estritamente necessário na casa da minha avó, além de ficar obesa, enlouqueço e empobreço de vez. Há sites demais me tentando… Não… Consigo… Me… Controlar… Por… Muito… Tempo…

O mais estranho é que quero comprar calçados (Converse e Ahimsa), mas os pinos me impedem de calçar canos altos, porque incomodam muito. E é exatamente o modelo que eu quero. Vai entender. Enquanto preciso de fisioterapia, dentista, emprego/trabalho, academia, casa e liberdade, tenho me empenhado, basicamente, pelos sapatos. Empenhado, não comprado.

Off-topic: Jezebel é macho e, agora, se chama Benjamin. Eu sabia que ele era macho desde que nasceu, mas tinha esperança de ter mais uma menina na família e ele é tão meigo… É menino, boludo e será desbolado em junho. ¯\_(ツ)_/¯

Obs.: sim, sou dessas que muda de assunta e encerra o post.

Me me me*

NO Livro do Riso e do Esquecimento, Tamina ouve. Todas as pessoas que acreditam ter algo a dizer sobre si a procuram, porque ela ouve e não interrompe. Gosto deste trecho:

“Mas será que ela escuta mesmo? Ou não faz outra coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? Não sei, e isso não tem muita importância. O que conta é que ela não interrompe. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu…’ e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu…’, 

“Essa frase, ‘é exatamente como eu, eu…’, parece ser um eco aprovador, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo: na verdade, é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar nosso próprio ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro. Todo mistério da popularidade de Tamina é que ela não deseja falar de si mesma. Ela aceita sem resistência os ocupantes do seu ouvido e nunca diz: ‘é exatamente como eu, eu…’.”

Eu não tenho sido Tamina, assim como não me poria no lugar dos que falam e falam. De fato, eu passei boa parte da vida me policiando para não falar demais, muito menos sobre mim, pessoa desinteressante para os demais. Meu exercício de falar e falar e emitir opiniões acontece basicamente aqui. Fora deste meu mundo particular, prefiro ouvir.

Claro, houve uma fase em que eu não era “eu”. E falei e falei até me encontrar. E não me arrependi de ter falado demais, como disse a má língua, mas de não ter falado demais mais cedo.

Mas, agora, estou sem saco para a história do outro. Parei de ler blogs, reduzi minhas espiadas no Facebook e me cansei do Whatsapp. Sei que é fase e tem a ver com meu estado jururu de ser. E tem a ver comigo, tendo que contar a história de como quebrei o tornozelo, sempre, repetindo, sempre, como Sísifo. Fico com vontade de passar o link do post, mas tenho me obrigado a ser gentil, afinal, ninguém tem nada a ver com meu mau humor. Bom… Não “ninguém”, mas os desconhecidos curiosos não têm. Sorrio, conto a história sem muitos detalhes, ouço as mesmas piadinhas sobre trocar lâmpadas/bênçãos do Senhor, sorrio mais um pouco e sempre alguém diz: “imagino a dor”. Eu não imagino.

sisifo

Não imagino nem me lembro dela. Stephen King se lembra da dor de ouvido que teve aos 4 anos de idade. Eu não me lembro nem quero lembrar da dor de quebrar o tornozelo há 71 dias. Sei que foi ruim – comparei ao parto natural -, sei que não chorei. Lembro que senti medo de nunca mais ver Cristo, que havia ficado no telhado e sobre o qual eu não recebia notícias – foi a única vez que eu chorei.- Senti muita fome e muita sede, que o Dr. Bonitão não me permitia “saciar” – palavra horrorosa! – Só. Eu passei as 14 horas de espera me projetando para um futuro em que eu olharia para este dia e diria: “que aventura”. Ainda não cheguei neste ponto, mas estou próxima.

Dor não é mérito, não é um presente, não é algo que eu queira guardar comigo. Deixo ela lá, no momento dela.

Mas tê-la sentido me permitiu ser mais solidária com a dor do outro, o que a sente. Dr. Bonitão achou engraçadinho eu considerar “meus amigos” os pacientes quebrados, que aguardavam atendimento nos dias de meus retornos, e sempre pedir notícias deles. Naquele momento, éramos amigos, sim. Somente nós, ali, entendíamos a dor do outro, que incluía a dependência, a impotência e um desespero intenso, mas calmo, para não incomodar os “inteiros”.

Pois é… Hoje, se não for para você me falar, em poucas palavras, da sua dor física, eu não me interesso por você. Não me conte sobre sua experiência com a doença da sua mãe ou do seu pai, não me interessa a sua mágoa profunda, não me interessam os seus sentimentos. Não me interessa o seu “me me me” sobre o mundo ou sobre mim. E, principalmente, não me interessa sua opinião sobre a dor de alguém, quando o assunto é esse alguém. O mundo gira em torno dos umbigos dos que sentem dor, não dos que acham que a conhecem.

* Eu eu eu

Perícia

Acordei às 5h50, com um mensagem vinda do WhatsApp. Pensei que ele não tocaria antes das 6h, porque o havia bloqueado por 8 horas. Estava enganada.

Fiz uma horinha antes de me levantar, tentei voltar a dormir, mas não obtive sucesso. Às 6h30, estava pronta para sair.

Fomos de carro, eu e minha tia. A Previdência Social fica até bem perto da casa da minha avó e chegamos rapidamente.

Enquanto aguardava a chamada, sentei-me ao lado de uma jovem senhora. Ela aparentava certo mau humor e dei-lhe o melhor dos “bons dias”. É tão evidente a reação às pequenas gentilezas que não entendo como pode alguém sair por aí com cara fechada. A mulher, imediatamente, se tornou solicita, me ajudando a entender os procedimentos. Não era minha intenção obter informações, seja como for, mas ela se mostrou muito satisfeita em ajudar.

A fila estava bastante organizada, a burocracia não comprometeu o atendimento e a espera foi pouca. Mas deu-me tempo de conversar sobre fraturas na perna com uma outra jovem senhora. Esta, ajaponesada, bonita, de certo modo, apesar dos descuidos com a aparência e o ar cansado. Acho que identifiquei-me com ela, nisso. O sorriso resignado, de quem depende ainda de alguém, era triste.

Ela sofreu um acidente tolo, mas terrível: virou o pé direito, descendo degraus, quebrando, assim, a perna e, consequentemente, rolou escada abaixo, luxando o joelho esquerdo. Não penso na dor que, em pouco tempo, fica no passado, mas no incômodo. Este, presente por muitos meses. Estar com as duas pernas comprometidas é o dobro de sofrimento, de dependência.

Pior, talvez, tenha sido a fala de seu médico: “minha senhora, se precisar correr por sua vida, desista. A senhora não correrá mais. E nem usará salto.” A informação me alarmou um pouco, já que quebramos os mesmos ossos e ela não tem placa e 11 pinos! A fratura no pilão da tíbia, responsável pela fala do médico, é bem complicada. Meu Dr. Gato já havia me dito que terei problemas futuros, mas os imaginava na velhice e, não, num futuro tão próximo. Quero poder correr e, quando muito necessário, usar salto.

A consulta foi tão breve como tudo mais, até então. A médica me perguntou o que aconteceu, eu contei-lhe. Minha tia acrescentou o detalhe “do gato” que, por mais irrelevante que fosse, levou a uma pequena discussão sobre o comportamento dos felinos. Ela avaliou brevemente as radiografias, olhou, mais por curiosidade do que por obrigação, meu pé, sem se levantar de seu lugar, e me desejou boa recuperação. Saí de lá sem saber mais do que sabia quando entrei.

****

Escrevo tantas linhas e tantas palavras para falar tão pouco e de um assunto tão sem interesse em homenagem à Rosamunde Pilcher, de quem estou lendo O Regresso. São 1091 páginas de muitos detalhes e pouca história. Eu teria escrito um conto, quando ela escreveu um livro imenso. Parabéns a ela, é muito difícil ser prolixa.

32º Dia

Querido diário, lá se vão 32 dias desde que quebrei a perna.

As pessoas têm gostado de dizer que sou forte, guerreira, como seu eu fosse uma heroína e, não, alguém que está simplesmente arcando com as consequências de uma decisão errada. Como se isso fosse voluntário, só que eu  não tenho escolha. Claro, tenho a escolha de encarar tudo de bom humor e, na medida do possível, é o que faço, já que mau humor não ajuda em nada. Só não imaginei que teria que ser Pollyanna por tanto tempo.

Mais uma vez, subestimei minha fratura. Com 30 dias, já me imaginava voltando a caminhar, mas ainda não posso sequer apoiar o pé.

Estou fazendo Fisioterapia e, surprise surprise, não é tão ruim quanto me alertaram. Também não é gostoso, mas é minha oportunidade diária de sair de casa e ver pessoas diferentes. O que também não é gostoso, mas distrai. E meu pé que, apesar de não ter sido fraturado, é o problema, voltou a se mexer. Ainda está MUITO inchado e dolorido, mas está indo. Vejo progressos.

Dona Conceição, companheira de Fisio, 80 anos, 4 vezes graduada em cursos na área da Educação, mãe de uma brilhante mulher com 8 graduações e avó de vários netos que seguem o caminho dos estudos, deu-me o precioso conselho: “esteja sempre linda e bem cuidada”. Para ser bem sincera, nem estou tentando. Meu cabelo está caindo em tufos. Minha massa muscular derreteu todinha e mal tenho forças para dar meus pulos de muleta. A posição em que passo meus dias mais a comilança que me é desnecessária, mas que alegra a vovó, estão me deixando pançuda. Me mantenho depilada e de unhas aparadas e isso é tudo em estética que tenho me empenhado – mesmo porquê tem mais a ver com higiene…

Nesses 32 dias, não vi as 6 peças de teatro que eu queria, não fui à FNAC conhecer o Alexandre Beck, o pai do Armandinho, não fui aos festivais gastronômicos e às exposições que estavam acontecendo. Pelo menos, comemorei meu aniversário, terça, na casa de queridas amigas, que me prepararam uma festinha vegana. Uma pausa maravilhosa para a alegria e o amor. Mas, na maior parte do tempo, estive tão somente definhando, em uma casa que não é a minha. Deixei o Diabo montar sua oficina na minha cabeça vazia e, por vezes, fiquei amarga e infeliz. Mas estava sendo salva, paulatinamente, por Cristo, o gato, que vinha me dar cabeçadinhas, ronronando pouquinho, porque ele é contido, e me fazendo companhia. Só que, na sexta, ele sumiu.

armandinhobolo

cristo1Demorou tanto a acontecer que imaginei que não mais aconteceria. Por 30 dias, ele foi livre e não foi embora. Daí, resolveu que era hora e se foi… Quebrei minha perna para evitar que isso acontecesse e, de perna quebrada, inútil, não tive como evitar o inevitável, já que meu pai é teimoso e incapaz de enxergar as coisas pelo meu ponto de vista. As pessoas têm que parar de achar que gatos devem dar suas voltinhas. Não devem, não neste mundo, não nesta época. Há doenças, brigas, cães ferozes, arames farpados e cercas elétricas, pessoas ruins e trânsito intenso, tudo isso, contra os gatos.

Sexta, Cristo se foi, Pollyanna morreu e, desde então, sou só dissabor, um barco sem mar, um campo sem flor…