Veganos

Faz um tempo que peguei birra de blogueira. Elas mentem! Ok, nem todas, mas muitas delas, as mais famosinhas, maquiam as informações sem um pingo de vergonha. Outras são só afetadas, mesmo. Criticam e xingam com toda a propriedade das pessoas que não têm razão. Daí, que parei de confiar, de seguir, de me importar com a opinião delas.

Mas… Como não sou blogueira – sou designer! – vim dar minha opinião sobre coisinhas veganas que comprei e gostei ou não. Deixo claro, é somente minha opinião/experiência, sem validação científica, sem estatísticas confirmadas.

Comprei, no Vista-se, o desodorante Crystal stick. Ele parece uma pedra, que você umedece e passa nas axilas e/ou pés. Sem perfume, não mela, não mancha e segura a onda por várias horas. Tenho gostado muito. Para quem prefere spray ou rol-on, tem também.

Precisei de uma máscara para cílios. Eu uso a Elf incolor para as sobrancelhas e gosto bem, mas não gosto dela para os cílios, então, procurei outras marcas veganas para experimentar. O problema, na minha humilde e pão-dura opinião, é que é tudo bem caro. R$ 80,00 por uma máscara é além do que eu gostaria de pagar, mas fui. Duas vezes.

Primeiro, com a Alva: Máscara para Cílios Orgânica – Black. Orgânica, livre de parabenos, substâncias petroquímicas e fragrâncias sintéticas que causam alergia. As pessoas elogiam por aí. Nos sites de venda, então, só amor. Mas eu não curti. Primeiramente, porque a máscara parece que não seca nunca e ficar uns 10 minutos sem piscar não rola. Então, o jeito é passar, esperar e limpar em volta dos olhos, que estarão carimbados. Depois que, enfim, ela seca, começa a esfarelar. Eu uso lente e farelo no olho está fora de cogitação. Sem contar que suar, chorar e pegar chuva com ela não estão permitido! Então, abandonei-a.

Comprei um punhado de coisas na Granado – no site, mesmo depois de ter reclamado do atendimento deles. Sou só perdão! -, inclusive Máscara Duo Cílios Perfeitos. Estava na promoção.

Nos meus parcos cílios, mais de duas camadas dele já são o suficiente para empelotar. Ficamos nas duas, então – inclusive, a recomendação é usar uma camada de cada lado do duo. Seca e, depois de um tempo, esfarela um pouquinho. Nada demais. Mas tirar com água e sabão, no banho ou lavando o rosto, não rola. Aí, sim, ela esfarela com gosto! Como estou sem demaquilante, no momento, eu sofro. Então, não virei fã.

Os outros produtos Granado, de sabonetes a hidratantes, adorei tudo! A manteiga corporal é meu item favorito. O cheiro é mais forte do que eu gostaria, mas o resultado compensa. Minha pele está maciínha e lisinha!

Comprei, também, um batom Lime Crime da linha Velvetines, o Red Velvet. Eu adoro os Unicorn Lipstick e os Carousel Gloss que eu tenho, então, nem me importei com a alta do dólar quando surgiu a oportunidade de comprar o batom líquido que seca e fica super matte.

É fácil de aplicar, a cor é linda, quase não transfere e é difícil de sair… A não ser que você use sua boca. Porque ele sai até com água. Se desfaz igual tinta guaxe e fica só o contorno. E eu, que evito batom vermelho exatamente porque me deixa insegura, não vou usar esse. :-(

Pra fechar o carrinho: henna. Me enchi de pessoas falando: “mas você não é ruiva, mais?”. Sim, eu sou, mas tenho 41 anos, for crying out loud! Tenho amigas totalmente grisalhas ou caminhando a passos rápidos para isso. Deixa meu cabelo desbotar!! Mas, depois do chilique, eu resolvi passar Surya em pó vermelha, porque a cobre não existe mais :-( , e minha tia aplicou pra mim.

Tem cheiro de chá? Tem. Faz bagunça pra passar? Sozinha, definitivamente. Com a ajuda da tia, bem pouca. Lavar pra tirar é uma aventura? Sim e com certeza. Não sai fácil, mas meu cabelo é liso e pouco, então, foi relativamente tranquilo. Mas meleca o banheiro todo! Mancha toalhas e fronhas por uns dias? Sim. Está na bula do produto, inclusive. Desbota igual tonalizante ruivo? Não. Desbota com as lavagens, mas BEM menos. Meu cabelo é tingido e a raiz está virgem. Vai colorir igualmente? Não, não vai. Tem chumbo? Não! É tudo plantinha inofensiva.

Gostei muito, deu supercerto e volto a usar assim que precisar. Mas vou comprar henna purinha para experimentar, também.

frente-versoDe frente: máscara para sobrancelhas Elf, para cílios Granado, batom Red Velvet, da Lime Crime. Verso: cabelo precisando de corte, mas ruivo, novamente, graças à Surya.

 

 

Amor de amigo

A pessoa vive dizendo que te ama, que quer te ver, que adora sua companhia. Daí, você diz: “vamos nos encontrar, então!” e ela responde: “hoje não posso, estou cansado demais. E acordo cedo, amanhã.” Hmmm. Uma desculpa só já seria o suficiente. Reforçar desculpa é sintomático. Mas ok, uma complementa a outra, não seja chata.

Só que eu não sou cansativa e não estou propondo uma maratona, mas sentar num barzinho e papear. Os bares fecham cedasso, em BH. À meia-noite, a pessoa estará dormindo seu sono dos justos. E, depois, fim de semana está ali. Descanse no domingo, poxa!

“Não, domingo é dia de namorar, não de descansar!” Ok, então! Saiamos no domingo. É bom que me apresenta o namorado! “Não sei se ele vai querer…”

Então, num belo dia, essa pessoa que te ama tanto e quer te ver, mas não tem tempo para isso, decide se casar com o namorado que não quer te conhecer… E, claro, te exclui deste momento. Você entende, não há intimidade para você estar presente num momento de intimidade do casal. E, convenhamos, ninguém nunca deveria ser obrigado a nada, ainda mais em questões sociais.

Mas… Eu acredito que quando se ama sinceramente pessoas, quando você se sente à vontade com elas, você as quer por perto em situações sociais, também. Repito: ninguém é obrigado a nada, ainda mais porque, se for obrigado, já não é amor. No entanto, dizer que ama e não deixar a pessoa amada se aproximar, fazer parte da sua vida ou entrar na sua intimidade é não amar.

Chamar de “amor” gostar de falar bobagens, trocar ideias, pegar dicas e oferecer favores para determinadas pessoas é banalizar o amor. Não banalize o amor. E não se engane. Você pode gostar muito, até adorar, ser fã de algumas pessoas, mas amor pede aquela entrega que você se recusa a fazer. Então, goste dos seus amigos, curta as situações que vive com eles, queira a companhia deles por 20 minutos, exija atenção, mas só declare amor quando puder amá-los de verdade.

Um tal Thiago

Existe (☠) um tal Thiago que estudou comigo há uns 15 anos, do qual nunca gostei e, cada vez mais, me dou razão quanto a isso.

Entre inúmeros palpites que via ele destribuindo em posts de amigos, sempre de forma prolixa/enfadonha/prepotente, um me incomodou a ponto de eu preferir ignorar a existência dele para o resto da minha. E, ao mesmo tempo, motiva este post (de adeus a ele).

Quando a Índia proibiu passarinhos presos em gaiolas, ele vibrou pela enormidade espiritual da Índia. Os orientais, esses evoluídos! Eu, por minha vez, mesmo acreditando que lugar de passarinho não é e nunca foi em gaiolas, fiquei pensando em estupro. Pessoas tão evoluídas espiritualmente, tão a frente de nós, reles brasileiros (sim, teve essa comparação no comentário dele), que nem prendem passarinhos em gaiolas. Mas soltam seus passarinhos metafóricos pelas ruas e violam mulheres. Mulheres, essas, que serão culpadas por terem sido estupradas.

Daí, essa semana, ele disse que detesta o feminismo (“mais do que Roberto Carlos e calor. Juntos.”) e que não precisa dele para achar “aviltante” os adesivos de Dilma nos tanques de gasolina; ele se baseia, para isso, em seus “valores antiquados”. Ele também alega que os adesivos nada tem a ver com “cultura de estupro”. É somente falta de respeito básica de brasileiro (falou o lorde inglês).

Enquanto isso, a cada 25 minutos, uma mulher é atacada pela cultura de estupro da Índia espiritualmente evoluída. Outras tantas no restante do mundo. Feminismo? Eu não preciso dele para achar isso aviltante. Mas precisamos dele para, um dia, não achar mais isso acontecendo por aí.

Eu não vivo por valores antiquados. Muitas mulheres têm morrido por causa deles.

Hate Dove

Meu fisioterapeuta me perguntou se sou feminista. “Eu seria o quê? Machista?” Ele disse: “pode ser neutra”. “Não, não posso ser neutra num mundo em que Dove existe”.

Odeio Dove, de coração. Odeio enquanto mulher, consumidora, “publicitária” e ser humano. Odeio a manipulação que Dove faz. A ideia errada que adoram propagar de que as mulheres se odeiam e têm baixa autoestima. E que Dove é a salvação, porque a marca nos entende e nos ajuda a nos enxergar. Balela.

A nova “campanha” Dove… :-* Coloque uma placa escrito “bonita” numa porta e “comum” na outra e faço igualzinho a dona que deu meia volta e não passou por nenhuma das duas. Se eu enxergar as placas, claro. Não aceito rótulos, minha gente! Não aceito poder ser somente bonita ou comum. Eu sou mais eu, poha! Sou mais eu desde 1984.

E, mais uma vez, que história é essa de que beleza é tudo? Beleza é joia, é bacana, é poder, mas é pra tão pouca gente. Dove podia parar com essa mania de nos definir pela estética. De ultra valorizar a estética e ficar apontando as coitadinhas que ficaram inseguras, porque a marca as fez pensar naquilo que não precisa. “Sou bonita?” Tanto faz, seja mais do que isso!

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Dove embute a ideia de que você se vê “pantufa”. Mas que pode chegar a “Havaianas”, se usar sabonete cremoso testado em animais. Só que a ideia aí do quadradinho é imbecil igual propaganda de Dove. Machista na mesma proporção.

Dê um basta nessa marca horrorosa, transmissora de ideias erradas, que diminuem mulheres. Pare de chorar assistindo essas campanhas de merda e comece a ver além. Tô te mostrando isso desde 2013. Passou da hora de acordar.

Descobrindo

Muita gente se sente em condições de julgar os outros. Eu cometia esse erro quase que o tempo todo, confesso. A coisa fica tão cotidiana que, de repente, escapole e lá está você (eu) fazendo de novo. Pois é. Prestemos atenção.

E assim como a gente julga sem nem perceber, há mulheres que sofrem abuso moral sem nem notar. Ou, se notam, logo decidem que é um exagero da parte delas, que é coisa de mulher, que não é nada. Porque, no fim das contas, fomos condicionadas a pensar assim. Se ofender é um enorme exagero e nada mais é do que uma prova de que mulher é tudo fora de controle.

Desta forma, quando o homem que você escolheu para ser seu par lhe diz para parar de cantar porque sua voz é feia, você para. E não canta mais, mesmo que cantar lhe dê prazer. Se diz que sua autoestima é tão alta que alguém deveria dar um jeito nela, você acha que é elogio. Se ele paulatinamente lhe chama de chata, é porque você é. Se culpa sua TPM (inexistente) por uma briga (que ele começou), é porque você está de TPM e, por isso, sensível demais. Se ele lhe chama de lésbica e de frígida porque ele não consegue lhe dar prazer, a culpa é sua, é óbvio! Se diz que você é a pior coisa que aconteceu na vida dele, você deve pedir desculpas e tentar melhorar. Ir embora?! Pra quê?! Pra onde? Por que?! Que exagero, mulher!

E você vai ficando, empurrando com a barriga. Olhando para as mulheres que apanham de seus pares e perguntando, toda cheia de empáfia: “não têm vergonha? Por que não vão embora?”. É claro que o “se fosse comigo” participa da conversa e, é claro, se fosse com você, tudo seria diferente. Mas será? Aliás, é?!

Não é. A diferença é que a mulher que é espancada não tem como negar o espancamento. Pode até se perceber como a culpada, mas sabe que algo está errado. A mulher que sofre gaslighting (palavrinha nova que aprendi aqui) quase sempre tem certeza de que não é nada, além de bobagem (feminina) dela. “Ele me ama” é a única certeza. “E está certo” é a grande probabilidade. E, assim, continua sendo dominada, sem saber o que fazer, simplesmente porque não percebe que algo tem que ser feito.

“Você merece aquilo que tolera”, disse uma amiga, dia desses. Dentro do contexto, fazia muito sentido, apesar da frase me incomodar. “Se você tolera, talvez mereça” me parece mais justo. Mais justo ainda é não tolerar merda nenhuma, por tempo nenhum, por motivo nenhum, senão, você vai acabar achando que merece o que tolera! Não se deixe tolerar, não se deixe merecer nenhuma forma de tortura e domínio, por favor.

Esteja atenta às coisas que você faz e às coisas que permite que façam com você.

Confesso que quando meu ex arranjou uma briga para justificar o nosso fim enquanto casal – supostamente já tendo uma mocinha 20 anos mais nova do que eu engatilhada (macaco gordo. Sacomé) –, eu não fiquei triste. Nem ofendida, humilhada nem nada sequer parecido (e ofensa e humilhação era o que esperavam de mim). Eu me senti aliviada. Assustada com o quanto e com as novas possibilidades, mas feliz.

Meu novo bom humor, meus novos pontos de vista, meu novo amor, meu novo desejo refletem quem eu sempre fui, mas não sabia ser. Não houve mudança, houve descoberta. Foram 40 anos de opressão e desqualificação, vindas de todo lado: sociedade, família, coleguinhas, “amigos”, marido. Eu deveria ser o que esperavam de mim? Sincerona com todo mundo, menos comigo?! Não mais…

Vá por mim: libertar-se até assusta, mas não dói. O que dói é não se pertencer.

Carregando esta cruz

Eu não tenho tido muita opinião, por isso, me furto a dar pitacos, como antigamente. A princípio, porque quero evitar a fadiga, mas também quero evitar falar bobagem e/ou sair por aí divulgando minha ignorância e preconceito. E tem também o fato de que eu realmente me recuso a entender uma porção de acontecimentos, seja sob qual ponto de vista for. Se matem nos comentários das redes sociais, desde que me incluam fora disso.

Mas… Fiquei entalada com o Padre Fábio de Melo. E com uma tal de Allyne, (ex) amiga ofendida de um amigo meu.

Esse meu amigo é umbandista e ativista pelos direitos dos gays. Eu sempre achei tanta coisa bobagem, mas, de repente, eu vi. Não é bobagem. É claro que não rola, legalmente falando, de ficar fazendo leis a torto e a direito para defender minorias. Leis não funcionam assim. E, convenhamos, Leis não funcionam por aqui e ponto.

Voltando ao Padre. Uma “amiga” curtiu a fala dele no Facebook. Facebook, enxerido que só, enfiou na minha fuça a curtida dela. E a frase, que não copiei e nem copiaria, terminava falando que a trans na cruz era “intolerância invertida”. Em defesa dele, se é que tem alguma, muita gente desatou a falar bobagem por aí e ele não fez mais do que repetir o senso comum do momento. Já que galerê resolveu se ofender até os ossos e o coletivo tem essa mania de emburrecer, ele só seguiu o fluxo. Mas…

joao-castellano-reuters_parada-gay-avenida-paulistaIntolerância invertida é tolerância. Inverso = antônimo. Ou seja, o padreco, na real, falou que a trans (linda trans, foto maravilhosa do João Castellano) na cruz é prova de tolerância LGBTQ (não sei o que é o Q. Nem o sabia, até domingo) com o cristianismo. Mas o que ele quis dizer é que tá certinho ser intolerante com LGBTQ, mas ser intolerante com o cristianismo é errado. Um pode, outro não pode.

É aquele papo de “racismo inverso” quando um negro odeia brancos. Porque brancos têm todo o direito de odiar não-brancos. De ter nojinho. De descriminar. De tratar mal. Mas os não-brancos, seja lá de “raça” se convencionou dividir nossa espécie, não podem odiar brancos. Por que? Sei lá. Deve ser porque Jesus era lourão de olhos azuis em pleno cafundó do Judas do oriente médio de pele morena.

Mas voltemos ao T da questão: onde se lê intolerância, ou o neologismo “cristofobia”, na trans na cruz? A coisa toda é uma metáfora, meu povo!! A trans não está dizendo que Cristo era viado – porque, se tivesse, cadê intolerância aí?! -, mas está mostrando o cotidiano dos “diferentes”. Em pleno 2015, não se pode ser diferente. Entendeu? Não é permitido sequer pensar por si só. Ouse e será crucificado!

11200615_10153422168447922_8058493011013981353_nE se falamos em tolerância, vou ignorar os espaços antes de pontuação. Mas morendo por dentro!

Já a tal de Allyne, muito ofendida e revoltada com a vida, o universo e tudo mais que seja “cristofóbico”, falou que quando desrespeitam gays ou umbandistas, meu amigo fica possesso e sai chutando (santa, não. Ele não chuta santa de jeito nenhum!) canela da geral. Mas que quando as gays desrespeitam o Cristianismo, ah, aí ele acha justificativas para tamanha agressão. Tão tá. Só que, desrespeitar gays e umbandistas tem sido através de tiro, porrada e bomba. Ou quase isso. Gays (meninas e meninos, viu?) são espancados, estuprados/currados (por machos que adoram arrombar o do outro para mostrar o quanto são machos e o quanto o outro é gay), assassinados com mais frequência do que se poderia acreditar. Umbandistas têm sido espancados, mortos, têm tido suas casas e terreiros depredados e queimados. E cristãos? Hmmm. Teve uma cruz com um gay “pregado”, na parada de São Paulo… Então, deixa eu aqui entender… Quando cristãos são “desrespeitados” é através de ofensas subjetivas aos ícones deles?! o__o

Eu, que já discursei contra o particularismo, sobre o contrassenso de se isolar em grupos contra o todo, em vez de ser parte do todo, do que temos em comum, que é sermos humanos… Bem, eu estava errada. Ou MUITO a frente do nosso tempo – o que é ser errada neste tempo. Hoje, sou super a favor de parada gay. Apoio os movimentos feministas – mesmo não concordando com as moças muitas e muitas vezes. Com o tom, com o discurso, com a ideologia – e raciais. Porque gays, mulheres e negros não são minorias. São apenas minorizados. Então, bora arrebentar o status quo porque já deu. Cansou.

 

Me me me*

NO Livro do Riso e do Esquecimento, Tamina ouve. Todas as pessoas que acreditam ter algo a dizer sobre si a procuram, porque ela ouve e não interrompe. Gosto deste trecho:

“Mas será que ela escuta mesmo? Ou não faz outra coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? Não sei, e isso não tem muita importância. O que conta é que ela não interrompe. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu…’ e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu…’, 

“Essa frase, ‘é exatamente como eu, eu…’, parece ser um eco aprovador, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo: na verdade, é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar nosso próprio ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro. Todo mistério da popularidade de Tamina é que ela não deseja falar de si mesma. Ela aceita sem resistência os ocupantes do seu ouvido e nunca diz: ‘é exatamente como eu, eu…’.”

Eu não tenho sido Tamina, assim como não me poria no lugar dos que falam e falam. De fato, eu passei boa parte da vida me policiando para não falar demais, muito menos sobre mim, pessoa desinteressante para os demais. Meu exercício de falar e falar e emitir opiniões acontece basicamente aqui. Fora deste meu mundo particular, prefiro ouvir.

Claro, houve uma fase em que eu não era “eu”. E falei e falei até me encontrar. E não me arrependi de ter falado demais, como disse a má língua, mas de não ter falado demais mais cedo.

Mas, agora, estou sem saco para a história do outro. Parei de ler blogs, reduzi minhas espiadas no Facebook e me cansei do Whatsapp. Sei que é fase e tem a ver com meu estado jururu de ser. E tem a ver comigo, tendo que contar a história de como quebrei o tornozelo, sempre, repetindo, sempre, como Sísifo. Fico com vontade de passar o link do post, mas tenho me obrigado a ser gentil, afinal, ninguém tem nada a ver com meu mau humor. Bom… Não “ninguém”, mas os desconhecidos curiosos não têm. Sorrio, conto a história sem muitos detalhes, ouço as mesmas piadinhas sobre trocar lâmpadas/bênçãos do Senhor, sorrio mais um pouco e sempre alguém diz: “imagino a dor”. Eu não imagino.

sisifo

Não imagino nem me lembro dela. Stephen King se lembra da dor de ouvido que teve aos 4 anos de idade. Eu não me lembro nem quero lembrar da dor de quebrar o tornozelo há 71 dias. Sei que foi ruim – comparei ao parto natural -, sei que não chorei. Lembro que senti medo de nunca mais ver Cristo, que havia ficado no telhado e sobre o qual eu não recebia notícias – foi a única vez que eu chorei.- Senti muita fome e muita sede, que o Dr. Bonitão não me permitia “saciar” – palavra horrorosa! – Só. Eu passei as 14 horas de espera me projetando para um futuro em que eu olharia para este dia e diria: “que aventura”. Ainda não cheguei neste ponto, mas estou próxima.

Dor não é mérito, não é um presente, não é algo que eu queira guardar comigo. Deixo ela lá, no momento dela.

Mas tê-la sentido me permitiu ser mais solidária com a dor do outro, o que a sente. Dr. Bonitão achou engraçadinho eu considerar “meus amigos” os pacientes quebrados, que aguardavam atendimento nos dias de meus retornos, e sempre pedir notícias deles. Naquele momento, éramos amigos, sim. Somente nós, ali, entendíamos a dor do outro, que incluía a dependência, a impotência e um desespero intenso, mas calmo, para não incomodar os “inteiros”.

Pois é… Hoje, se não for para você me falar, em poucas palavras, da sua dor física, eu não me interesso por você. Não me conte sobre sua experiência com a doença da sua mãe ou do seu pai, não me interessa a sua mágoa profunda, não me interessam os seus sentimentos. Não me interessa o seu “me me me” sobre o mundo ou sobre mim. E, principalmente, não me interessa sua opinião sobre a dor de alguém, quando o assunto é esse alguém. O mundo gira em torno dos umbigos dos que sentem dor, não dos que acham que a conhecem.

* Eu eu eu

5 anos de Pitacos

Há 5 anos, eu resolvi fazer disto aqui meu diário. Eu detestava a vida que eu levava e tentava me adaptar, me encaixar. Deixei aflorar uma dose de futilidade libertadora e escrevi abobrinhas à beça. Torrei dinheiro com maquiagens e esmaltes, que doei para outras pessoas, em sandálias com as quais eu não conseguia andar e me cansei. E, cansada, parei de comprar, comecei a falar de coisas mais sérias, aderi ao vegetarianismo e acumulei gatos. E me cansei um pouco mais.

Há um ano, eu cansei até desistir. Mas cansei de estar cansada e percebi que este blog é minha muleta e que preciso dele para seguir gosto de tê-lo por perto. Há tempos, não me preocupo se alguém me lê, mas adoro as pessoas que conheci aqui e que fazem parte, mesmo que ligeiramente, da minha vida. Hoje em dia, não me importo se “meus inimigos” me lêem, porque não devo nada a ninguém e não tenho nenhum constrangimento de ser quem sou. Então…

Pitacos chegou aos 5 anos. Eu, aos 41. E estamos aqui, mesmo nas ausências.

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Perdão, mas eu não perdoo

Há uma certa super-valorização do perdão. Perdoar é divino, elevado, espiritual e intelectualmente: só o sábio perdoa. Discordo. Eu prefiro esquecer, deixar pra lá, sacudir a poeira e dar a volta por cima – isso, para delitos leves. Os pesados têm troco – a oficializar o perdão.

Pedir perdão, principalmente tardiamente, funciona para o ego do babaca que lhe ferrou e ficou sentindo uma reles culpinha. Ou, o mais provável, teve um orgulho danado do estrago causado é quer reviver, reatuar a farsa. Além de querer ter certeza do tamanho do trauma e de que não foi esquecido. São vaidosos, os sacanas.

Eu posso até dizer que perdoo para acabar logo com isso, mas não é sincero. Não vou guardar nova raiva em mim, mas vou excluir novamente a pessoa da minha vida e continuar seguindo.

Se a pessoa insistir em ficar, bom, eu vou magoá-la. Eu vou ferrar com ela, eu vou destruí-la. Vou fazê-la se arrepender de ter me procurado. Ou vou ignorá-la e continuar seguindo.

Pessoa, fez merda? Da grande? Peça desculpas ou remedie imediatamente. Se não der, deixe a vítima em paz e SE perdoe. Não vá foder a vida de alguém duas vezes com a mesma história. Seu pedido de perdão não é uma “homenagem” ou um ato de amor com o outro, é puro egocentrismo e cretinice. Vá por mim.

Charlie Hebdo

Geralmente, me abstenho de dar palpites em assuntos ultra polêmicos, porque não vale a pena. Mas… Charlie Hebdo, mesmo tendo sido um reles desconhecido para mim, até o atentado, me é caro. Amo cartoons, amo charges, amo cartunistas. Acredito na provocação do humor e condeno veementemente sensibilidades exacerbadas, de quem quer se impor sobre os outros.

Discordo do Papa: não há limites para a liberdade de expressão. Há, talvez, punições legais, mas limite e liberdade se opõem. E, ademais, quem imporá os limites? Baseado em quê? Muitas vezes, a ofensa só existe para o ofendido, que opta por se ofender, que busca se ofender.

Se alguém falar mal da minha mãe, ou de alguém que eu realmente amo, eu tenho inúmeras opções: deixar falando sozinho, “ouvir e ponderar”, “ouvir e concordar”, “ouvir e me ofender”, mas, dificilmente, “ouvir e socar” é uma delas. A agressão física, para mim, é sintoma de que se acabaram os argumentos, mas sobrou bastante raiva. Não permito que me façam tamanha raiva.

Retratar o Profeta do outro, mesmo sendo proibido na religião do outro, não é somente liberdade de expressão, mas direito e livre arbítrio. O seu pecado não me representa. Que seu deus, todo poderoso, me puna, se achou ruim, se for tão mundano a ponto de se ocupar com um desenho, enquanto o mundo está – e sempre esteve – em caos. Mas cometer um pecado mais grave e que também é pecado na sua fé, só para tomar as vezes do seu deus e me “mostrar as consequências dos meus atos” é absurdo.

Dizer “ah, eles fizeram por merecer”, “a provocação do Chalie Hebdo foi desnecessária” ou “depois de tudo o que aconteceu, nem assim eles aprenderam a lição” é dar razão aos assassinos, é confirmar que eles tiveram motivos. E não tiveram. Não provocar, se encolher em posição fetal e deixar de se ser o que se é por medo é, também, dar moral ao vilão. A vítima não é o Islã. Mas Charlie Hebdo, mesmo podendo, não se fez de vítima.

“Je suis Charlie” não lhe representa porque Charlie Hebdo não lhe representa? Ok. Esse é um jornal, não o Congresso Nacional. Eles não têm obrigação de representar ninguém além deles mesmos! Você não acha graça, não gosta, acha imoral e ofensivo? Ok, também. É de seu pleno direito, assim como o de não ler ou comprar o Charlie. Você pode até mesmo ficar num mimimi sem fim nas redes sociais, expondo exaustivamente sua opinião, porque, veja bem, isso é liberdade de expressão e ela funciona até com coisas/pessoas/situações chatas e que incomodam! Lindo isso, né?!